Durante anos, o BPC acumulou prejuízos, crédito malparado a 23% e necessitou de recapitalizações sucessivas financiadas pelos contribuintes. Em 2025, pela terceira vez consecutiva, fechou no verde. O banco público — que durante anos foi símbolo dos excessos e da má gestão do sector público — está a construir uma narrativa diferente. Os números começam a dar-lhe razão.
O Banco de Poupança e Crédito (BPC) apresentou, no início desta semana, um resultado líquido positivo de 4 mil milhões de kwanzas em 2025 — um número modesto em termos absolutos, mas que ganha outro significado quando se conhece a história recente da instituição.
Antes de 2023, o BPC registava resultados negativos ou prejuízos sucessivos, devidos à perda significativa e continuada de recursos dos clientes, à obsolescência do sistema informático, ao fraco desempenho dos canais digitais, a imparidades da carteira de crédito histórico avaliadas em um bilião de kwanzas e às perdas cambiais acumuladas ao longo dos anos. A crise chegou a pôr em causa a viabilidade da instituição mais antiga do sistema bancário angolano — fundada em 1956, durante o período colonial, como Banco Comercial de Angola.
A recuperação teve um preço. O Estado angolano injectou cerca de 750 mil milhões de kwanzas no BPC através do Plano de Recapitalização e Reestruturação (PRR), lançado em 2019. Para além da recapitalização, foi criada a RECREDIT — entidade pública destinada exclusivamente a comprar os créditos malparados do BPC, inicialmente capitalizada com dois mil milhões de dólares. O rácio de crédito malparado tinha atingido 23,2% em 2017, face a 4,5% em 2016. O banco chegou a dispensar mais de 1.600 funcionários e a encerrar 145 agências, reduzindo a rede de 391 para 246 unidades.
Os números de 2025
Feitas as contas, o desempenho de 2025 reflecte uma estabilização consistente. O produto bancário cresceu 11,2%, os depósitos subiram 11,5% para 1.211 mil milhões de kwanzas e o rácio de fundos próprios atingiu 26,7% — acima das exigências regulamentares. A rendibilidade dos capitais próprios ficou nos 1,6%, modesta, mas positiva num contexto que o próprio banco reconheceu como “operacionalmente desafiante”.
O destaque vai para o desempenho digital: as transacções nos terminais de pagamento automático cresceram 154,6%, e o banco lançou o serviço “Localiza ATM”, que permite aos clientes encontrar em tempo real caixas automáticas com dinheiro disponível — uma resposta concreta a uma das queixas mais recorrentes dos utilizadores angolanos do sistema bancário.
Da “noiva por embelezar” ao banco que distribui dividendos
Em 2021, quando um administrador do BPC afastou a hipótese de privatização, justificou-a com uma metáfora que ficou: era preciso “embelezar a noiva” antes de ir ao casamento. Na altura, o banco detinha 13 participações financeiras das quais apenas cinco apresentavam viabilidade — as restantes estavam em falência técnica ou nem tinham saído do papel.
Quatro anos depois, a filial seguradora Mundial Seguros vai pagar dividendos ao BPC pela primeira vez, com um lucro líquido de 16 mil milhões de kwanzas em 2025. O banco público angolano — que durante anos foi símbolo dos excessos e da má gestão do sector público — está a tentar construir uma narrativa diferente. Os números começam a dar-lhe razão. A sustentabilidade dessa narrativa dependerá de 2026.