Internacional

Reserva Federal mantém juro inalterado, num alívio para Trump que expõe divisões internas

Decisão surge com três presidentes regionais a exigir uma subida das taxas, num contexto marcado pela guerra entre os Estados Unidos e o Irão e por mais de cinco anos de inflação acima da meta

A Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) decidiu esta quarta-feira manter inalterada a sua taxa de juro de referência, um alívio para o Presidente Donald Trump que, no entanto, expõe as limitações do discurso mais “falcão” do novo presidente do banco central norte-americano, Kevin Warsh, quanto ao combate à inflação.

A decisão do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), órgão que define a política monetária da Fed, foi tomada por 9 votos a 3, após dois dias de deliberações, mantendo a taxa directora na banda entre 3,50% e 3,75% — a quinta reunião consecutiva em que o valor de referência se mantém praticamente inalterado, próximo dos 3,6%.

Três presidentes regionais discordam e pedem subida das taxas

Ao contrário do habitual, três responsáveis do banco central norte-americano discordaram publicamente da decisão da maioria, defendendo antes uma subida de um quarto de ponto percentual: Beth Hammack, presidente da Fed de Cleveland; Neel Kashkari, presidente da Fed de Minneapolis; e Lorie Logan, presidente da Fed de Dallas. É a primeira vez, desde 2016, que se registam três votos discordantes no mesmo sentido numa única reunião — um sinal, segundo analistas, de uma crescente divisão interna sobre se o banco central está a agir com suficiente rapidez para conter a subida dos preços.

Os três dissidentes reflectem uma clara falta de confiança no relatório oficial que, em Junho, apontava para um abrandamento da inflação — dados divulgados ainda antes de a guerra entre os Estados Unidos e o Irão ter reacendido a escalada de tensões no Médio Oriente e feito disparar os preços da energia a nível global.

“Cinco anos de inflação acima da meta não se curam em nove semanas”

Em conferência de imprensa após o anúncio da decisão, Kevin Warsh — que assumiu a liderança da Fed em Maio, sucedendo a Jerome Powell — reiterou o compromisso do banco central em reconduzir a inflação para a meta dos 2%, sublinhando não ter “qualquer tolerância” para níveis elevados de subida de preços. “Os mais de cinco anos de inflação acima da meta não se curam em nove semanas — nem com um único mês de descidas modestas dos preços”, afirmou Warsh, num discurso claramente mais assertivo do que a decisão efectivamente tomada.

Questionado sobre como conciliar a decisão desta quarta-feira com as suas próprias declarações anteriores sobre a necessidade de reduzir os preços, Warsh pediu paciência: “Vamos entregar (…), mas a sugestão de que vamos conseguir fazê-lo com varinhas mágicas é algo de que quero dissuadir tanto os senhores como toda a gente”. Sobre os votos discordantes dos três presidentes regionais, o líder da Fed comentou, em tom mais descontraído: “Pedi uma boa discussão em família, e tive uma”.

Trump elogia decisão, apesar da pressão para descer juros

Nomeado pelo Presidente Donald Trump, que tem exercido forte pressão sobre a Fed para que desça as taxas de juro em vez de as manter ou subir, Warsh preside apenas à sua segunda reunião à frente do comité de política monetária do banco central. Ainda assim, Trump reagiu com moderação à decisão desta quarta-feira, afirmando não estar “desapontado” com Warsh por este não ter descido as taxas de juro — um comentário que contrasta com o tom mais crítico que o Presidente norte-americano tem reservado, ao longo dos últimos meses, à condução da política monetária da Fed.

A decisão da Fed surge num momento em que a economia norte-americana enfrenta uma “incerteza elevada” quanto às suas perspectivas, segundo o próprio comunicado do banco central, que sublinha que “as implicações dos desenvolvimentos no Médio Oriente para a economia dos Estados Unidos são incertas”. A guerra entre os Estados Unidos e o Irão tem gerado forte volatilidade nos preços do petróleo — o barril chegou recentemente a ultrapassar os 100 dólares, o valor mais alto desde Maio, antes de recuar acima dos 89 dólares na sequência de uma trégua entre as duas partes —, alimentando pressões inflacionistas que complicam a já difícil tarefa de Warsh à frente do banco central.

Segundo analistas citados pela imprensa financeira internacional, a maioria dos investidores de Wall Street espera agora que a Fed avance com uma subida das taxas já na próxima reunião, em meados de Setembro — um cenário que, a confirmar-se, marcaria uma clara inversão de rumo face à trajectória de cortes registada ao longo do ano passado, e reforçaria ainda mais a tensão entre a independência do banco central e a pressão política exercida pela Casa Branca.

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