A Yango consolidou em Angola uma operação de mobilidade digital que, quatro anos depois da entrada no mercado, já ultrapassou a fase de instalação em Luanda e se estende actualmente a Benguela e Lobito. A plataforma, que começou a operar no país em 2022, construiu o negócio através de uma rede de empresas parceiras e milhares de motoristas, num modelo baseado na cobrança de comissões sobre as viagens.
Em 2024, o director-geral da Yango Angola, Ivan Mugimbo, em declarações ao jornal ‘Expansão’ afirmou que a plataforma contava com cerca de 7.000 motoristas em Luanda. Na altura, o responsável disse que a empresa era lucrativa, mas recusou divulgar os resultados financeiros, alegando razões concorrenciais.
A dimensão da operação permite, contudo, perceber o potencial económico do negócio. Segundo Mugimbo, um motorista que realizasse entre 15 e 20 viagens por dia poderia obter entre 200 mil e 250 mil kwanzas por semana, havendo casos de condutores que chegavam a um milhão de kwanzas por mês. Estes valores correspondem a rendimentos dos motoristas e não a receitas da Yango.
Comissão de 13% por viagem
O modelo de negócio da Yango assenta numa comissão cobrada sobre cada viagem. Em 2024, a empresa indicava uma taxa de 13%, sendo 10% destinados à plataforma e 3% às empresas parceiras que fazem a gestão de determinados motoristas independentes. A taxa de 13% continua a ser apresentada actualmente pela própria Yango como a sua taxa de parceiros em Angola.
Tomando apenas como exercício os números apresentados pela empresa em 2024, se 7.000 motoristas gerassem, em média, 600 mil kwanzas mensais em viagens, o valor movimentado seria de aproximadamente 4,2 mil milhões de kwanzas por mês. Uma comissão de 13% corresponderia a 546 milhões de kwanzas. No modelo então explicado pela empresa, cerca de 420 milhões de kwanzas corresponderiam aos 10% da Yango.
Este cálculo é meramente indicativo: não representa a facturação real da empresa, porque pressupõe uma média uniforme de 600 mil kwanzas por motorista e utiliza um número de motoristas divulgado em 2024 que pode, entretanto, ter-se alterado.
Luanda como motor da operação
A dimensão alcançada em Luanda resulta da combinação entre a elevada procura por transporte individual e a utilização crescente das plataformas digitais.
O mercado tornou-se atractivo para vários operadores. Uma pesquisa identificou a Yango, a Heetch e a Bolt entre os principais operadores internacionais e nacionais do segmento, assinalando que as plataformas cobravam comissões que variavam, consoante o operador, entre 11% e 25% do valor das corridas.
A concorrência tem colocado pressão sobre os preços e as comissões, ao mesmo tempo que obriga as empresas a investir na captação de passageiros e motoristas.
Para a Yango, a estratégia passa por manter uma grande oferta de viaturas disponível na plataforma. Actualmente, a empresa promove em Angola a possibilidade de motoristas trabalharem com viatura própria ou através de automóveis disponibilizados pelos seus parceiros. A plataforma anuncia potencial de ganhos de até um milhão de kwanzas por mês, embora deixe claro que o rendimento depende da actividade realizada.
Extensão a Benguela e Lobito
Depois de se concentrar em Luanda, a Yango passou a operar também em Benguela e Lobito. A própria empresa identifica actualmente as três cidades como os seus mercados em Angola.
A expansão representa uma nova fase da estratégia comercial. Ao sair da capital, a empresa procura aumentar a base de utilizadores e diversificar as fontes de receitas num país onde a mobilidade urbana apresenta características diferentes de cidade para cidade.
No Lobito, a Yango disponibiliza actualmente transporte privado, serviços para motoristas e estafetas e soluções para empresas de transporte. A plataforma anuncia ainda funcionalidades como acompanhamento do motorista em tempo real, partilha da rota, condutores verificados, apoio 24 horas e botão SOS.
Um negócio baseado na tecnologia
O principal activo da Yango não é uma frota própria. É a plataforma tecnológica que liga passageiros a prestadores locais de transporte. A aplicação gere os pedidos, identifica motoristas disponíveis, utiliza sistemas de navegação e distribui as viagens através de algoritmos. O modelo permite à empresa expandir a actividade sem ter de adquirir directamente uma frota equivalente ao número de veículos que circulam através da plataforma. É precisamente esta estrutura que distingue o negócio de uma empresa tradicional de transporte: a Yango funciona como uma infraestrutura tecnológica de intermediação entre procura e oferta.
O modelo angolano atribui às empresas parceiras um papel importante. Segundo Ivan Mugimbo, várias empresas que trabalhavam anteriormente no mercado informal passaram a organizar a actividade e a formalizar os seus negócios depois de aderirem à plataforma.
O ‘Expansão’ descreveu posteriormente o sector como um negócio de milhões de kwanzas, mas chamou a atenção para questões relacionadas com a informalidade e as relações entre plataformas, empresas gestoras de frotas e motoristas. No caso da Yango, a publicação sublinha que a empresa trabalha com empresas que detêm ou gerem as viaturas.
Esta estrutura permite à Yango concentrar-se na tecnologia e na aquisição de passageiros, enquanto os parceiros assumem parte importante da componente operacional.
O desafio da regulamentação
A expansão dos táxis por aplicação em Angola também colocou novas questões regulatórias. Em 2023, o Expansão noticiou que o serviço de táxi por aplicação aguardava regulamentação específica, num contexto em que o sector já realizava centenas de milhares de viagens semanais.
A segurança dos passageiros e a identificação dos motoristas constituem algumas das questões levantadas no debate sobre a actividade. A Yango, por seu lado, tem procurado responder através de ferramentas tecnológicas de segurança, incluindo verificação dos condutores, acompanhamento das viagens, partilha de localização e botão de emergência.
A regulamentação é também relevante para estabelecer condições semelhantes entre os diferentes operadores e clarificar as responsabilidades das plataformas, empresas parceiras e motoristas.
A estratégia da Yango em Angola não está limitada ao transporte de passageiros. A empresa apresenta igualmente oportunidades para estafetas e serviços destinados a empresas, procurando transformar a aplicação numa plataforma mais ampla de mobilidade e logística.
A diversificação permite aproveitar a mesma infraestrutura tecnológica para diferentes serviços e aumentar a frequência de utilização da plataforma.
É uma estratégia que acompanha a evolução internacional do grupo. A Yango afirma actualmente operar em mais de 25 países e contabilizar cerca de 630 milhões de viagens desde o lançamento do serviço e mais de um milhão de motoristas registados.
Um mercado ainda com margem de crescimento
A evolução da Yango em Angola mostra a transformação de uma plataforma recém-chegada ao mercado numa operação com milhares de motoristas e presença em três cidades.
Não há dados que permitam determinar com clareza a facturação actual em Angola nem qual é o seu lucro anual. Também não existem dados financeiros que permitam comparar directamente a rentabilidade da operação angolana com a de outros mercados africanos.
Mas a escala operacional já alcançada é significativa. A empresa dispõe de uma rede de milhares de motoristas, trabalha através de parceiros, cobra actualmente uma comissão de 13% e expandiu a sua presença para além de Luanda.
O próximo desafio será transformar essa escala em crescimento sustentável, num mercado onde a concorrência aumenta e onde questões como financiamento das viaturas, segurança, regulamentação, fiscalidade e condições de trabalho dos motoristas continuam a marcar o desenvolvimento do sector.
Para a Yango, Angola deixou de ser apenas um mercado de entrada. É hoje uma operação com dimensão suficiente para sustentar uma estratégia de expansão geográfica e diversificação dos serviços digitais associados à mobilidade.