Negócios

Organizações multiplicam programas de transformação, mas resultados ainda ficam aquém do esperado

As organizações estão a acelerar os seus programas de transformação empresarial, mas o aumento do número de processos ainda não se traduz num impacto proporcional no desempenho. Apenas 14% consideram estar entre as organizações com melhor actividade em comparação com os seus pares, e menos de um terço afirma conseguir obter resultados relevantes em toda a empresa. As conclusões constam do novo estudo global da KPMG, “Transforming the Enterprise”.

O estudo, realizado junto de 1.750 CEOs e responsáveis pelos processos de transformação empresarial, em 20 geografias distintas, mostra que cada organização gere, em média, 3,5 programas de transformação em simultâneo. Cerca de 94% têm pelo menos duas iniciativas em curso, 72% desenvolvem três ou mais, e mais de metade — 54% — gere simultaneamente quatro ou mais programas de transformação.

“A transformação empresarial mede-se também pela capacidade de articular e converter em resultados concretos as iniciativas e os projectos de transformação. Quando não existe uma execução planeada e coordenada, a fragmentação pode gerar ineficiências, custos adicionais e atrasos na adaptação. A inteligência artificial reforça esta exigência, pois o seu valor pode depender da conjugação entre dados de qualidade, modelos operacionais, competências e confiança”, afirma Carlos Borges, Head of Advisory da KPMG Angola, citado no estudo. Segundo o responsável, as organizações que conseguirem integrar estes elementos “poderão estar melhor posicionadas para transformar o investimento em impacto efectivo para o negócio” e destacar-se da concorrência.

A transformação digital é a iniciativa mais frequente, estando actualmente em curso em 70% das organizações inquiridas. Seguem-se a transformação funcional, desenvolvida por 47%, e a transformação da gestão do risco, referida por 32% dos respondentes.

Apesar deste elevado nível de actividade, o estudo mostra que a multiplicação de projectos, por si só, não garante uma melhoria do desempenho empresarial. O principal desafio já não está em iniciar novos programas, mas em coordená-los, estabelecer prioridades comuns e assegurar que os investimentos em tecnologia, pessoas, processos e modelos operacionais contribuam para os mesmos objectivos.

Face a este cenário, a KPMG aponta três prioridades para melhorar a execução da transformação empresarial: reforçar as bases de tecnologia, os dados, a confiança e o governance; redesenhar o trabalho e os modelos operativos para integrar as pessoas, a inteligência artificial e a automação; e repensar a empresa como um sistema interligado e em permanente evolução. Para além da coordenação das iniciativas isoladas, as organizações devem desenvolver a capacidade de articular prioridades, decisões, capacidades e recursos, de forma a garantir uma execução integrada e ajustável às mudanças das condições do negócio.

Inteligência artificial gera ganhos, mas impacto continua limitado

A inteligência artificial já é utilizada em várias áreas das empresas, desde a análise de dados e a automatização de processos até ao apoio à tomada de decisão, ao desenvolvimento de produtos e à gestão do risco. Contudo, na maioria dos casos, os benefícios continuam limitados a melhorias operacionais ou a funções específicas: 48% das organizações registam ganhos incrementais de produtividade associados à IA, mas apenas 11% reportam um impacto substancial em toda a organização.

Segundo o estudo, a adopção tecnológica está a avançar mais rapidamente do que a capacidade das empresas para adaptar os seus modelos operacionais, integrar dados e redesenhar a forma como o trabalho é realizado. A produtividade continua a ser o principal indicador utilizado para avaliar o valor gerado pela IA, referido por 39% das organizações, seguido da redução do tempo dedicado a tarefas através da automatização (36%) e da diminuição dos custos operacionais (33%).

A adopção da tecnologia é mais elevada nas áreas de Tecnologia e Sistemas de Informação, onde chega aos 59%, seguida de Marketing e Vendas (43%) e Operações (42%). Nas áreas de Risco e Compliance, Finanças e Recursos Humanos, a utilização situa-se, respectivamente, nos 37%, 33% e 31%. Apesar da disseminação destas ferramentas, apenas 19% das organizações consideram que os seus colaboradores estão altamente preparados para trabalhar com inteligência artificial; 49% consideram-nos moderadamente preparados, enquanto as restantes reconhecem níveis reduzidos ou ainda insuficientes de preparação.

Apenas 24% integram proactivamente os riscos da IA na estratégia

O governance e a confiança surgem no estudo como condições essenciais para ampliar a adopção da inteligência artificial e garantir que a tecnologia seja utilizada de forma segura, responsável e alinhada com os objectivos da organização. Ainda assim, apenas 24% das organizações integram proactivamente a gestão dos riscos da IA na estratégia e ao longo do ciclo de vida da tecnologia. Cerca de 41% dispõem de modelos definidos e coordenados, embora ainda não totalmente integrados, enquanto 25% mantêm uma resposta sobretudo reactiva e organizada por áreas isoladas. Em 10% dos casos, a gestão do risco permanece descentralizada, cabendo a cada equipa ou função geri-la de forma autónoma.

O estudo revela ainda que 57% das organizações já encaram a confiança como um diferenciador estratégico ou uma fonte central de vantagem competitiva. Contudo, apenas 28% relacionam directamente os mecanismos de confiança, governance e gestão do risco da inteligência artificial com resultados operacionais ou financeiros concretos.

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