O presidente da Fundação Gates, Bill Gates, apelou aos governos africanos para acelerarem os esforços destinados a criar as infra-estruturas de dados necessárias para tirar partido dos benefícios da inteligência artificial (IA), ao mesmo tempo que anunciou um compromisso de mais de mil milhões de dólares para projectos de IA, a maioria dos quais localizados no continente africano.
Numa entrevista à cadeia de televisão norte-americana CNBCAfrica, Bill Gates afirmou que a fundação encara a inteligência artificial como uma ferramenta prática em três sectores fundamentais: saúde, agricultura e educação, descrevendo-a como um “acelerador” capaz de ajudar a responder a carências persistentes de competências, serviços e informação.
“É o compromisso de dispor de muitos dados de qualidade que permite obter benefícios de um sistema de inteligência artificial”, afirmou. “Trabalhar com agricultores em África, estudantes em África e doentes em África, através dos governos, é a forma de alcançarmos os nossos ambiciosos objectivos para os próximos 20 anos, e a inteligência artificial vai ajudar-nos a acelerar esses objectivos.”
IA como ferramenta para aumentar a produtividade
Em vez de substituir o conhecimento e a experiência humanos, Gates defendeu que a IA pode aumentar significativamente a produtividade. “Pode pegar no talento que existe e permitir que essas pessoas sejam quatro vezes mais produtivas”, afirmou.
Gates destacou o Ruanda como exemplo de um país que tem registado progressos na construção dos sistemas de dados necessários para uma utilização eficaz da inteligência artificial. Durante uma recente visita ao país, afirmou ter ficado encorajado com os esforços para consolidar a informação na área da saúde, permitindo acompanhar padrões de doenças, monitorizar os profissionais de saúde e melhorar a tomada de decisões.
Na perspectiva de Gates, a agricultura poderá ser um dos sectores que mais beneficiará da inteligência artificial, nomeadamente através de ferramentas capazes de interagir com os agricultores nas línguas locais e fornecer orientações susceptíveis de melhorar a produtividade. Tendo em conta a importância da agricultura como fonte de emprego e rendimento em grande parte de África, esses ganhos poderão traduzir-se em benefícios económicos significativos.
Dados e línguas africanas continuam sub-representados
O co-fundador da Microsoft defendeu que a inteligência artificial tem potencial para reduzir as desigualdades à escala mundial, mas apenas se os governos e as empresas tecnológicas investirem nas bases de dados, nas línguas e nas políticas necessárias para que a tecnologia funcione de forma eficaz.
Um dos principais desafios, segundo Gates, é a reduzida representação das línguas africanas nos actuais modelos de inteligência artificial. Mesmo em economias digitais relativamente desenvolvidas, como o Quénia e o Ruanda, os utilizadores continuam a deparar-se com erros e resultados inconsistentes quando interagem com sistemas de IA.
Para colmatar esta lacuna, a Fundação Gates está a trabalhar com empresas de inteligência artificial e outros parceiros na recolha de dados em línguas africanas e na sua disponibilização pública. O objectivo é melhorar o suporte a línguas faladas por pelo menos um milhão de pessoas e garantir que tanto os modelos de IA de código aberto como os proprietários possam responder de forma mais eficaz às necessidades dos utilizadores africanos.
Gates identificou a Índia, Singapura e o Ruanda como exemplos iniciais de governos que estão a avançar de forma determinada na criação das bases necessárias à adopção da inteligência artificial.
Em África, afirmou, a fragmentação dos sistemas administrativos e a existência de registos incompletos tornam a implementação mais complexa, mas também aumentam o potencial valor da IA caso os governos reforcem a recolha e a governação dos dados.
“As línguas africanas estão hoje pouco representadas nestes modelos”, afirmou Gates. Garantir que os dados e as línguas africanas sejam devidamente incorporados nos sistemas de inteligência artificial, acrescentou, será fundamental para evitar que o continente fique para trás à medida que a tecnologia avança.
O financiamento da Fundação Gates apoiará igualmente projectos em países como a Índia, onde os sistemas digitais já estão a ser utilizados em larga escala no sector agrícola.