Kuwait regressa ao crescimento pela primeira vez desde o início do conflito, Emirados Árabes Unidos saem de mínimo de cinco anos e Dubai recupera população pré-guerra, mas recuperação é desigual entre os países da região
O Golfo Pérsico está a dar sinais de recuperação económica, depois de cinco meses de perturbações relacionadas com a guerra entre os Estados Unidos e o Irão. A actividade empresarial não petrolífera recuperou em Julho, segundo um inquérito da S&P Global — um sinal de que, à medida que as hostilidades abrandaram no início do mês, as empresas se recompuseram rapidamente.
O Kuwait registou o regresso ao crescimento pela primeira vez desde o início do conflito, com o Índice de Gestores de Compras (PMI, na sigla em inglês) a subir para 50,8 pontos em Julho, face aos 46,4 pontos de Junho — o primeiro valor acima do limiar neutro de 50 pontos em cinco meses. A melhoria foi sustentada pela retoma do tráfego aéreo, na sequência da reabertura do espaço aéreo do país, que impulsionou tanto a produção como as novas encomendas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia kuwaitiana deverá crescer 3,8% em 2026, apoiada pelo desmantelamento gradual dos cortes de produção da OPEP+ e pela continuação do crescimento não petrolífero.
Os Emirados Árabes Unidos recuperaram de um mínimo de cinco anos registado em Junho, impulsionados pela retoma da procura de exportações e pelo regresso às contratações. O PMI dos Emirados subiu para 52,7 pontos em Julho, face aos 50,8 de Junho — o nível mais elevado em quatro meses —, sustentado por uma procura mais forte, um máximo de cinco meses no crescimento de novos negócios e o regresso ao crescimento do emprego.
“Os dados de Julho assinalaram algum alívio para as empresas dos Emirados, depois de o PMI ter caído perigosamente perto do limiar neutro dos 50 pontos em Junho, à medida que a restauração da confiança empresarial e um período de fluxos comerciais mais suaves permitiram uma retoma do crescimento”, afirmou David Owen, economista principal da S&P Global Market Intelligence. Ainda assim, Owen sublinhou que o valor de 52,7 pontos registado em Julho continua abaixo dos níveis observados antes do conflito no Médio Oriente. O Fundo Monetário Internacional considerou, em Julho, que os Emirados demonstraram “resiliência significativa” face ao conflito, projectando um crescimento do PIB real de 3,3% em 2026 e de 4,4% em 2027.
Arábia Saudita soma quarto mês consecutivo de expansão
A Arábia Saudita registou o quarto mês consecutivo de expansão da actividade empresarial não petrolífera, com o PMI a recuar ligeiramente para 53,1 pontos em Julho, face aos 53,3 de Junho — ainda assim, claramente acima do limiar de crescimento. “Os dados mais recentes sugerem que a procura interna está a fortalecer-se gradualmente, à medida que as condições de mercado normalizam depois das recentes perturbações regionais, sustentando aumentos contínuos tanto na produção como nas novas encomendas”, afirmou Naif Al-Ghaith, economista-chefe do Riyad Bank.
Ainda assim, a economia saudita não escapou totalmente ao impacto da guerra: o país registou, no mês passado, a sua primeira contracção trimestral desde 2023, com o PIB real a encolher 4,8% em termos homólogos no segundo trimestre de 2026.
Entretanto, a população do Dubai recuperou, no mês passado, para um valor acima do total registado antes da guerra, dissipando os receios de um êxodo prolongado de expatriados — um indicador frequentemente usado como termómetro da confiança económica na região, dado o peso da população estrangeira na força de trabalho do emirado.
Uma recuperação desigual
Nem todos os países do Golfo seguem, contudo, a mesma trajectória. O Qatar continuou em contracção, ainda que a um ritmo mais suave: o seu PMI melhorou para 48,5 pontos em Julho, face aos 47,6 de Junho, mantendo-se abaixo do limiar neutro dos 50 pontos. Confrontos renovados no final de Julho poderão, aliás, ter afectado estes números de forma ainda não totalmente visível nos dados actuais.
Segundo o FMI, o Kuwait, o Iraque e o Qatar são os países mais afectados pela disrupção no Estreito de Ormuz, devendo registar contracções acentuadas em 2026, seguidas de expansões de dois dígitos em 2027. Já a Arábia Saudita, descrita pelo Fundo como “algo menos afectada” devido às suas rotas de exportação mais diversificadas, deverá crescer 1,7% em 2026 e 5,5% em 2027.
O impacto económico do conflito entre os Estados Unidos e o Irão tem recaído de forma desproporcional sobre os países do Golfo — um facto que Teerão tem procurado explorar activamente na sua narrativa regional, apresentando a instabilidade económica provocada pela guerra como um custo suportado sobretudo pelos vizinhos árabes do Golfo Pérsico, e não pelo próprio Irão.
Segundo a agência de notação S&P Global Ratings, prevê-se que a produção petrolífera do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) supere os níveis pré-guerra entre 2027 e 2029, com a Arábia Saudita a aumentar a sua produção para uma média de 10,6 milhões de barris diários, e os Emirados para 4,5 milhões de barris diários, nesse período. A agência antecipa um “abrandamento temporário” do crescimento regional em 2026, seguido de uma “forte recuperação” em 2027, com um crescimento médio do PIB real próximo dos 5,3% nesse ano — projecções que, tal como no caso das economias exportadoras de petróleo de outras regiões do mundo, incluindo Angola, sublinham a forma como a volatilidade geopolítica no Médio Oriente continua a moldar, de forma directa e prolongada, as perspectivas económicas globais ligadas ao petróleo e ao gás natural.