Jamie Dimon e Larry Fink, os dois homens que gerem mais dinheiro do mundo concordam: o investimento em inteligência artificial tem fundamentos reais. Mas os dois também reconhecem que algumas acções estão demasiado caras e que o impacto social pode ser devastador.
Jamie Dimon, CEO do JPMorgan — o maior banco do mundo por capitalização bolsista —, e Larry Fink, presidente executivo da BlackRock — a maior gestora de activos do planeta, com mais de dez biliões de dólares sob gestão —, recusaram a narrativa da bolha da IA. Mas fizeram-no com cautelas que valem tanto quanto a própria afirmação.
“O investimento em IA não é uma bolha especulativa — irá gerar benefícios significativos. No entanto, neste momento, não conseguimos prever quais serão os vencedores e os perdedores nas indústrias relacionadas com a IA”, escreveu Dimon na carta anual aos accionistas do JPMorgan. A ressalva é relevante: reconhecer que a tecnologia tem valor não é o mesmo que garantir que todas as empresas que nela apostam sobreviverão.
Fink, por sua vez, tem posições semelhantes sobre os fundamentos do sector — mas é mais directo sobre os riscos sociais. Em Davos, em Janeiro, o CEO da BlackRock alertou: “Se a IA fizer aos trabalhadores de colarinho branco o que a globalização fez aos de colarinho azul, precisamos de confrontar essa realidade directamente — não com abstracções sobre os empregos do amanhã, mas com um plano credível para uma participação alargada nos ganhos.”
A posição dos dois gestores é a de quem tem demasiado dinheiro investido no sector para o abandonar, mas inteligência suficiente para não ignorar os sinais. Os níveis de investimento em infraestrutura de IA — centros de dados, chips, energia — atingiram valores históricos em 2025 e 2026, com empresas como a Microsoft, Google, Amazon e Meta a anunciar despesas de capital que somam centenas de milhares de milhões de dólares. As acções das empresas de semicondutores e de cloud negociaram durante meses a múltiplos que recordavam o pico das dotcom em 2000.
A directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, foi mais directa em Davos, descrevendo a expansão da IA como um “tsunami” a atingir o mercado de trabalho: “Em média, 40% dos empregos são afectados pela IA — melhorados, eliminados ou alterados significativamente. Mesmo nos países mais preparados, não estamos suficientemente prontos.”
O que Dimon e Fink argumentam é que, ao contrário da bolha das dotcom — onde empresas sem receitas nem modelos de negócio viáveis eram avaliadas em mil milhões —, a actual vaga de investimento em IA está a ser impulsionada por empresas altamente lucrativas com casos de uso reais e crescentes.
O JPMorgan tem estado na vanguarda da adopção de IA em Wall Street, e Dimon deixou claro que o banco continuará a investir na tecnologia: “Não vamos enterrar a cabeça na areia. Vamos utilizar a IA, como utilizamos toda a tecnologia, para fazer melhor pelos nossos clientes.”
O problema, reconhecem ambos, não é a tecnologia — é o preço. Algumas acções estão demasiado caras, alguns investimentos são excessivos e alguns competidores não sobreviverão. A questão é saber quem.
Para os mercados, a mensagem é clara: os dois maiores gestores de capital do mundo acreditam na IA — mas não em todas as empresas que dizem fazê-la.