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Família Amorim, a mais rica de Portugal, sai da banca e reforça apostas no petróleo e no turismo de luxo

Grupo alienou os últimos 32,8% que detinha no Banco Luso Brasileiro, encerrando décadas de presença no sector financeiro, enquanto consolida a Galp e expande o império hoteleiro de Paula Amorim

Depois da saída do BPI, do BCP, do BNC, do Popular, do BIC e do Único, ainda no tempo de Américo Amorim, a família mais rica de Portugal manteve, no sector da banca, apenas uma participação inferior a 10% no Banco Carregosa — que anda há anos a tentar vender — e os iniciais 33% no Banco Luso Brasileiro (BLB), com sede em São Paulo. Essa última posição acabou agora, também ela, por ser alienada.

Depois de, no ano passado, ter vendido 15,43 pontos percentuais dos seus então 49,23% do BLB ao grupo brasileiro Mônaco, reduzindo a sua posição no banco para 32,8%, o Grupo Américo Amorim alienou recentemente a totalidade da sua participação na instituição.

“A saída da Amorim Aliança B.V. do quadro accionário decorreu de decisão do próprio accionista, no âmbito da sua estratégia corporativa”, avança a administração do BLB no seu relatório sobre a actividade do banco no primeiro semestre deste ano. “Em Abril de 2026 concluiu-se a reorganização societária, aprovada pelo Banco Central do Brasil (BACEN), que resultou na concentração do controlo do banco na RC Participações S.A., que passou a ser a única accionista controladora da instituição”, explica o “board”, liderado por Francisco Ribeiro.

Conclui-se, assim, que o Grupo Américo Amorim vendeu os seus 32,8% à RC (Ruas e Cunha), que passou a deter 91,55% do capital do banco, enquanto a K2CR Holding Financeira, ligada ao grupo Mônaco, desceu a sua posição para 6,9%, mantendo a família fundadora da instituição pouco mais de 1,5%. Até Abril, quando o grupo português saiu do banco, a administração do BLB integrava Marta Amorim — filha do meio do falecido empresário Américo Amorim —, o seu cunhado Francisco Teixeira Rêgo (casado com Luísa Amorim) e Jorge Seabra de Freitas, todos eles quadros da cúpula do Grupo Américo Amorim.

Um banco fundado por um emigrante de Aveiro

O BLB foi fundado em 1988 por Manuel Rodrigues Tavares de Almeida, natural de Bocas do Vouga, em Aveiro, que emigrou para o Brasil aos 18 anos, tendo começado a trabalhar na padaria de um tio, em São Paulo. O “Almeidão”, como era conhecido, chegou a ter uma dúzia de padarias, às quais se juntaram bares, postos de gasolina e marcas de aguardente como a 3 Fazendas e a Tatuzinho, entre muitos outros negócios. Morreu em Setembro de 2015, quando o grupo já era liderado pelo filho, com o mesmo nome. Actualmente, a família Tavares de Almeida detém apenas uma participação residual no BLB.

Nos primeiros 30 meses de coliderança de Américo Amorim com a RC, que tinham entrado no BLB em Janeiro de 2012, com uma tomada inicial de 33% cada, a instituição financeira paulista acumulou prejuízos de 106,2 milhões de reais (18,1 milhões de euros, ao câmbio actual). Desde então, o banco tem somado lucros, tendo, na última dúzia de anos, agregado resultados líquidos de 350 milhões de reais (59,8 milhões de euros) — dos quais 10,9 milhões de reais (1,9 milhões de euros) foram obtidos no primeiro semestre deste ano, menos 56,3% do que no mesmo período do ano passado. Segundo a administração do BLB, “a retracção decorreu, essencialmente, do maior nível de provisionamento para perdas esperadas associadas ao risco de crédito — concentrado em exposições específicas da carteira — e da não recorrência de resultados extraordinários de natureza não operacional registados no primeiro semestre de 2025”. A carteira de crédito do banco, principal componente do seu activo de 4,2 mil milhões de reais (717 milhões de euros), cresceu 11,8% face ao final do ano passado, para três mil milhões de reais (512 milhões de euros), sobretudo no segmento de transporte, mercado “core” do banco.

Petróleo: a jóia da coroa continua a ser a Galp

Enquanto se retira por completo da banca, a família Amorim mantém e reforça a sua exposição ao sector energético, através da participação histórica na Galp Energia. A holding Amorim Energia BV — que Américo Amorim controlava directa ou indirectamente a 55%, com os restantes 45% na posse da Esperaza, sociedade offshore ligada à Sonangol —, detém uma fatia de referência do capital da petrolífera portuguesa, com Paula Amorim, filha mais velha do fundador, a presidir ao Conselho de Administração da Galp desde 2016, e Marta Amorim a integrar igualmente o órgão como administradora não executiva.

O investimento na Galp tem-se revelado particularmente lucrativo nos últimos anos: descobertas de petróleo ao largo da Namíbia, no complexo de Mopane, chegaram a valorizar as acções da petrolífera de forma expressiva, beneficiando directamente a fortuna da família Amorim. Mais recentemente, a Galp tem avançado com negociações estratégicas de grande dimensão, incluindo a parceria com a TotalEnergies para a exploração do mesmo complexo namibiano, e negociações com a espanhola Moeve (ex-Cepsa) para uma eventual fusão dos negócios de refinação, distribuição e trading na Península Ibérica — operações que, segundo Paula Amorim, se enquadram na estratégia de “criar grandes grupos europeus” através de parcerias com “operadores altamente credíveis”.

Turismo: de casinos herdados a um “país-boutique”

O outro grande eixo de reforço estratégico do grupo é o turismo de luxo, liderado sobretudo por Paula Amorim e pelo marido, Miguel Guedes de Sousa, através da Amorim Luxury — fundada em 2005, e hoje com um portefólio que combina moda, restauração, hotelaria e imobiliário de prestígio, incluindo a Fashion Clinic, uma das principais multimarcas de luxo da Avenida da Liberdade, em Lisboa, e o conceito JNcQUOI, que junta os cinco verbos “Eat, Drink, Shop, Live, Belong”.

O grupo está actualmente a reconstruir o JNcQUOI House, boutique hotel de 17 suites na Avenida da Liberdade, destruído por um incêndio em Junho de 2024, poucas semanas antes da inauguração inicialmente prevista — um investimento que ronda os dez milhões de euros e que se soma ao resort já em desenvolvimento na Comporta, zona onde a Amorim Luxury tem vindo a consolidar uma presença significativa nos últimos anos. Segundo Miguel Guedes de Sousa, o objectivo do casal é nada menos do que “transformar Portugal no principal destino-boutique da Europa” — uma ambição que representa a continuidade, numa nova geração, da longa tradição do grupo no sector turístico português, que remonta à criação da Amorim Turismo em 1997 e a décadas de parcerias com operadores internacionais como o grupo francês Accor.

O conjunto destas movimentações — saída total da banca, reforço da aposta petrolífera através da Galp e expansão do turismo de luxo através da Amorim Luxury — traduz um reposicionamento estratégico do grupo familiar português ao longo de mais de uma década, à medida que a terceira e a quarta geração da família Amorim vão concentrando o património em sectores considerados de maior valor acrescentado e potencial de crescimento internacional, em detrimento de negócios financeiros mais tradicionais e cada vez mais competitivos e regulados, como a banca de retalho.

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