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Estados Unidos olham para o Corno de África como nova linha da frente. Um corredor por onde passa 12% do comércio mundial

Depois do Estreito de Ormuz, Trump vira atenções para o Corredor do Bab-el-Mandeb, em África. Administração norte-americana reforça diplomacia com países do Corno de África para evitar que ataques no Mar Vermelho se transformem numa crise de segurança prolongada

Com os ataques a navios comerciais a continuarem a perturbar o Mar Vermelho, a administração Trumptem vindo a virar cada vez mais a atenção para o Corno de África, procurando evitar que outro corredor marítimo crítico se transforme numa crise de segurança de longa duração.

Depois de meses concentrada em assegurar o Estreito de Ormuz — passagem vital para as exportações mundiais de petróleo, palco de uma escalada recente entre os Estados Unidos e o Irão —, a Casa Branca tem vindo a alargar, de forma discreta, o seu envolvimento diplomático com os países africanos que fazem fronteira com o Estreito de Bab-el-Mandeb, a estreita via marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e, por fim, ao Canal do Suez.

Um corredor por onde passa 12% do comércio mundial

O Estreito de Bab-el-Mandeb é um dos pontos de estrangulamento marítimo mais estrategicamente importantes do mundo. Situado entre o Iémen e o Djibouti, funciona como porta de entrada sul para o Canal do Suez, por onde passa cerca de 12% do comércio global.

A sua importância tem crescido ainda mais num momento em que as tensões geopolíticas ameaçam simultaneamente o Estreito de Ormuz, outra artéria crítica para as exportações mundiais de energia. Com a instabilidade a afectar ambas as vias, Washington parece estar a alargar a sua estratégia de segurança marítima para além do Golfo Pérsico, passando a incluir também a costa africana junto ao Mar Vermelho.

Reuniões com a Somália, a Eritreia e o Egipto

Este mês, o conselheiro da Casa Branca para os assuntos árabes e africanos, Massad Boulos, reuniu-se com os ministros dos Negócios Estrangeiros da Somália e da Eritreia, no Cairo, ao lado de responsáveis egípcios, para discutir a cooperação em matéria de segurança no Corno de África e no Mar Vermelho.

Os encontros surgem num contexto de renovada preocupação com a segurança dos navios que atravessam o Bab-el-Mandeb, onde os ataques a embarcações comerciais têm obrigado várias companhias de navegação a desviar os seus navios pelo sul de África, acrescentando milhares de milhas náuticas às viagens entre a Europa e a Ásia.

“Fazer, pelo menos, um actor neutro”

Segundo analistas, esta abordagem reflecte um esforço não só para impedir que actores hostis aproveitem a instabilidade no Corno de África, mas também para garantir que países como a Somália e a Eritreia não se tornem, eles próprios, novas fontes de perturbação para a navegação internacional.

“Os Estados Unidos parecem estar a dizer: ‘Vocês não conseguem ajudar-nos no Mar Vermelho, então que sejamos, pelo menos, um actor neutro'”, afirmou à Bloomberg Cameron Hudson, antigo responsável da Casa Branca durante a administração de George W. Bush.

O renovado envolvimento norte-americano surge também num momento em que as grandes potências mundiais continuam a disputar influência no Corno de África, região que acolhe algumas das rotas de navegação e instalações militares mais movimentadas do mundo. A área já alberga instalações militares dos Estados Unidos, da China, de França, do Japão e de vários Estados do Golfo, o que reflecte o seu crescente valor geopolítico.

África cada vez mais central na protecção do comércio global

Para África, a crescente atenção diplomática de Washington evidencia o papel em evolução do continente no comércio mundial. Para além de fornecer minerais críticos e recursos energéticos, os países africanos ao longo do Mar Vermelho têm-se tornado cada vez mais centrais para salvaguardar as rotas marítimas que ligam a Europa, o Médio Oriente e a Ásia.

À medida que os riscos de segurança se espalham pela região, a mais recente investida diplomática da administração Trump sugere que proteger o comércio global pode hoje depender tanto da estabilidade ao longo da costa africana como dos acontecimentos no Golfo Pérsico — um cenário que ganha ainda mais relevância à luz da escalada recente entre Washington e Teerão, que já fez disparar os preços do petróleo para os níveis mais altos desde Maio, com impacto directo em economias exportadoras de crude como a angolana.

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