Mercados Financeiros

Depósitos a prazo começam a render acima da inflação em Angola

Com a inflação homóloga em 9,33%, algumas aplicações em kwanzas já oferecem taxas líquidas superiores ao aumento dos preços, criando uma oportunidade inédita para os aforradores

A descida da inflação para 9,33% em Julho está a alterar a atractividade dos depósitos a prazo em Angola. Depois de vários anos em que a subida dos preços corroía os rendimentos oferecidos pelos bancos, algumas aplicações em kwanzas passaram agora a proporcionar uma remuneração líquida superior à inflação.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística, acompanhados pelo Trading Economics, mostram que a inflação homóloga caiu de 10,11% em Junho para 9,33% em Julho, mantendo a trajectória de desaceleração iniciada há dois anos.

A diferença é relevante para os aforradores. Uma taxa de depósito de 15%, por exemplo, que anteriormente poderia representar uma remuneração real negativa, corresponde actualmente a cerca de 13,5% depois de descontado o Imposto sobre a Aplicação de Capitais (IAC) de 10% sobre os juros. Face a uma inflação de 9,33%, representa uma margem nominal de aproximadamente 4,17 pontos percentuais.

BAI lidera nas taxas mais elevadas

Entre os produtos analisados dos principais bancos comerciais, o Super BAI apresenta uma das taxas mais elevadas: 18,5% para uma aplicação de 180 dias, sujeita às condições específicas do produto.

Depois do IAC, a taxa líquida simples é de aproximadamente 16,65%, o que coloca a remuneração cerca de 7,3% acima da inflação actual.

O BCI apresenta igualmente uma taxa competitiva, de 17%, no Depósito a Prazo Aniversário, para 90 dias. Depois do imposto, a taxa líquida é de aproximadamente 15,3%.

No Access Bank, o Depósito a Prazo Rendimento Plus oferece 15% a 90 dias. A taxa líquida, depois do IAC, situa-se em cerca de 13,5%.

O ATLANTICO oferece 14% a 90 dias no depósito destinado a novos clientes, enquanto o BNI apresenta uma taxa até 12,8% no Superflash, para aplicações de 180 dias.

No BPC, a taxa de referência analisada é de 13,5% para 360 dias, o que corresponde a aproximadamente 12,15% depois do imposto.

Comparação das principais ofertas

Banco Produto Prazo TANB Após IAC Margem Vs Inflação*
BAI Super BAI 180 dias 18,50% 16,65% + 7,32 pp
BCI DP Aniversário 90 dias 17,00% 15,30% +5,97 pp
Access Bank Rendi. Plus 90 dias 15,00% 13,50% +4,17 pp
Atlântico Novos Clientes 90 dias 14,00% 12,60% +3,27 pp
BPC DP MN 360 dias 13,50% 12,15% +2,82 pp
BNI Superflash 180 dias 12,80% 11,52% +2,19 pp
Atlântico DP convencional 365 dias 10,25%   9,23% – 0,10   pp

*Diferença aritmética entre a taxa líquida do depósito e a inflação homóloga de 9,33%. Não corresponde exactamente à taxa de rendimento real.

Dez milhões de kwanzas, como exemplo

Para um aforrador com dez milhões de kwanzas, a diferença entre os produtos torna-se mais evidente.

Uma aplicação de 10 milhões de kwanzas no Super BAI, à taxa anual nominal de 18,5%, durante 180 dias, representa aproximadamente 912.500 kwanzas de juros brutos, ou cerca de 821.250 kwanzas depois do IAC, considerando uma aproximação simples de metade da taxa anual.

No BCI, a mesma quantia aplicada durante 90 dias à taxa de 17% gera aproximadamente 425 mil kwanzas de juros brutos, ou 382.500 kwanzas líquidos.

No Access Bank, a 15% durante 90 dias, o rendimento bruto seria de aproximadamente 375 mil kwanzas e o líquido de 337.500 kwanzas.

Estes cálculos não significam, contudo, que o investidor consiga repetir automaticamente a mesma rentabilidade durante um ano. Nos produtos de 90 ou 180 dias, a taxa aplicável numa eventual renovação poderá ser diferente.

O rendimento real é a questão central

A comparação mais importante para o aforrador não é entre a taxa do depósito e a inflação, mas entre a taxa líquida do depósito e a inflação.

A fórmula é simples:

Rendimento real ≈ taxa líquida – inflação

Assim, uma aplicação a 18,5% proporciona aproximadamente 16,65% depois do IAC. Com inflação de 9,33%, a diferença é de 7,32 pontos percentuais.

Num depósito a 11%, contudo, a taxa líquida cai para 9,9%, deixando uma margem de apenas 0,57 pontos percentuais sobre a inflação. E um depósito a 10,25%, depois do imposto, passa para 9,23%, ficando ligeiramente abaixo da inflação actual.

Esta diferença mostra também que nem todos os depósitos a prazo são igualmente atractivos. Para alguns produtos, a vantagem real é suficientemente ampla para absorver uma eventual aceleração moderada da inflação. Para outros, uma subida relativamente pequena da inflação pode eliminar completamente o ganho real.

Uma nova oportunidade para os aforradores?

A mudança ocorre num momento em que o sistema financeiro angolano atravessa uma fase de normalização das taxas de inflação e de juros.

Se a inflação permanecer abaixo dos dois dígitos, os depósitos a prazo poderão assumir um papel mais relevante na estratégia de poupança das famílias e empresas, sobretudo para investidores que privilegiam segurança e previsibilidade em detrimento de activos de maior risco.

Mas há uma variável que não pode ser ignorada: o câmbio.

Um depósito em kwanzas pode proporcionar uma remuneração real positiva quando medida pela inflação doméstica e, simultaneamente, perder valor quando convertido para dólares ou euros se ocorrer uma desvalorização significativa da moeda nacional.

Por isso, a atractividade dos depósitos a prazo dependerá não apenas da inflação, mas também da evolução do kwanza, das taxas de juro e das condições oferecidas pelos bancos no momento da renovação das aplicações.

Ainda assim, a mudança é significativa.

Depois de anos em que a inflação esteve muito acima das taxas de remuneração dos depósitos, Angola entrou numa fase em que alguns bancos já pagam aos aforradores taxas líquidas superiores à inflação.

Se esta tendência se mantiver, o depósito a prazo em kwanzas poderá deixar de ser apenas um instrumento para limitar a perda de poder de compra e voltar a ser, em determinados casos, uma verdadeira forma de remuneração da poupança.

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