Economia

FMI insta África a acelerar reformas para enfrentar choques globais

O Fundo Monetário Internacional (FMI) instou os países africanos a acelerarem as reformas, adoptarem políticas macroeconómicas sólidas e aprofundarem a integração regional para fazer face aos choques provocados pela fragmentação geoeconómica, num contexto de crescente concorrência pelo capital.

A directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou à cadeia de TV norte-americana CNBC que a maior oportunidade do continente passa por se apresentar como um destino de investimento unificado, através de uma maior cooperação, do reforço das infra-estruturas transfronteiriças e do desenvolvimento de cadeias de valor regionais.

«Vejo também muito que África pode fazer em conjunto», afirmou Georgieva, em Nova Iorque, onde participa na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas. «Colaborar e apresentar não a história de um país, mas a de todo um continente, é o futuro motor de crescimento do mundo.»

O FMI projecta um crescimento de 4,3% para a economia da África subsaariana em 2026, ligeiramente abaixo dos 4,5% estimados para 2025. A actividade económica deverá ser condicionada pelo aumento dos preços dos combustíveis, fertilizantes e alimentos, pelo aperto das condições financeiras internacionais e pelas tensões geopolíticas.

O Banco Mundial prevê, por sua vez, um crescimento de 4,1% em 2026, ao mesmo nível de 2025, mas reviu em baixa a sua estimativa devido ao impacto dos choques relacionados com o Médio Oriente, ao aumento dos custos do serviço da dívida e à persistência de constrangimentos estruturais.

As duas instituições consideram que, embora a procura interna e os esforços de reforma estejam a apoiar o crescimento, África precisa de acelerar as reformas estruturais, reforçar a estabilidade macroeconómica e atrair investimento privado para transformar o crescimento económico em emprego, redução da pobreza e transformação económica de longo prazo.

Georgieva apontou países como a Costa do Marfim, Ruanda, Gana, Zâmbia e Etiópia como exemplos de economias que estão a implementar reformas difíceis, mas necessárias, que poderão criar as bases para um crescimento mais forte e para a melhoria das condições de vida.

África e a oportunidade da inteligência artificial

A directora-geral do FMI considera que África está particularmente bem posicionada para beneficiar de uma das transformações económicas mais significativas das próximas décadas: a expansão da inteligência artificial (IA).

Segundo Georgieva, o continente dispõe de várias vantagens estratégicas que estão a adquirir crescente importância na era da IA, entre as quais uma população jovem e em crescimento e a maior concentração mundial de minerais críticos e recursos naturais, fundamentais para as infra-estruturas digitais, os sistemas energéticos e as novas tecnologias.

A concretização destes benefícios, contudo, exigirá mais do que vantagens demográficas e disponibilidade de recursos naturais. Georgieva salientou que a atracção de investimento continua a ser essencial, defendendo que os governos devem reforçar a governação, melhorar a transparência e prosseguir os esforços de combate à corrupção, de modo a criar um ambiente mais atractivo para o capital nacional e estrangeiro.

Energia, inflação e dívida

Georgieva afirmou que, apesar da resiliência demonstrada pela economia mundial nos últimos anos, as perturbações no fornecimento de energia associadas aos conflitos no Médio Oriente continuam a representar riscos para a inflação.

Ao mesmo tempo, os elevados fluxos de investimento destinados à inteligência artificial estão a aumentar a procura de capital e a contribuir para a manutenção de condições de financiamento mais restritivas.

Para África, as implicações são significativas. Muitos países continuam a reconstruir o espaço orçamental depois de vários anos de choques económicos e permanecem pressionados por níveis elevados de dívida. As taxas de juro internacionais elevadas significam custos de financiamento mais altos para os governos, limitando os recursos disponíveis para investimentos essenciais na saúde, educação e infra-estruturas.

A directora-geral do FMI defendeu que a manutenção da estabilidade macroeconómica continua a constituir a primeira linha de defesa. Os governos devem prosseguir os esforços para reduzir as vulnerabilidades associadas à dívida, enquanto os bancos centrais devem manter-se vigilantes perante os riscos inflacionistas.

As pressões persistentes sobre os preços, particularmente as relacionadas com os custos da energia e dos alimentos, podem reduzir o rendimento das famílias e agravar a pobreza.

Neste contexto, Georgieva apelou aos decisores políticos para preservarem a independência dos bancos centrais e manterem a credibilidade dos mecanismos de definição de metas de inflação, de forma a evitar que as expectativas de inflação se consolidem.

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