Mercados Financeiros

Crédito privado ganha espaço em África perante défice de financiamento

O mercado de crédito privado em África deverá manter uma trajectória de crescimento nos próximos anos, impulsionado pela necessidade de encontrar fontes alternativas de financiamento num continente onde a banca continua a enfrentar limitações para responder às necessidades de empresas e grandes projectos de infra-estruturas.

A conclusão consta de um relatório divulgado na terça-feira, dia 8, pela agência de notação financeira Moody’s, segundo o qual os activos sob gestão da indústria de crédito privado em África passaram de 1,8 mil milhões de dólares, em 2020, para 5,6 mil milhões de dólares no final de 2025.

Apesar desta evolução, o sector permanece de pequena dimensão quando comparado com o mercado mundial. África representa actualmente apenas 0,3% do mercado global de crédito privado, avaliado em pelo menos 1,8 biliões de dólares.

Défice de financiamento mantém procura

Para a Moody’s, a expansão deverá continuar a ser sustentada pelo persistente défice de financiamento existente no continente, pelo reduzido desenvolvimento dos mercados de capitais e pelas limitações dos bancos na concessão de crédito de longo prazo.

As necessidades são particularmente significativas no financiamento de projectos de infra-estruturas, empresas de média dimensão e pequenos negócios, segmentos que frequentemente enfrentam dificuldades no acesso a financiamento adequado e de longo prazo.

Neste contexto, o crédito privado surge como uma alternativa capaz de preencher parte do espaço deixado pelos canais tradicionais de financiamento, permitindo mobilizar recursos para sectores considerados estratégicos para o desenvolvimento económico africano.

Instituições de desenvolvimento podem desempenhar papel decisivo

A Moody’s considera que as instituições de financiamento do desenvolvimento deverão continuar a desempenhar um papel central na expansão do sector, sobretudo através da mobilização de capital internacional.

Uma das vias apontadas passa pela utilização de estruturas de reforço de crédito e financiamento combinado, mecanismos que podem reduzir os riscos para os investidores e facilitar a realização de operações de crédito sénior com elevada notação.

Segundo a agência, estas estruturas poderão contribuir para tornar o crédito privado africano mais atractivo para investidores institucionais, nomeadamente fundos de pensões e companhias de seguros, aumentando a disponibilidade de capital de longo prazo.

Crédito privado não deverá substituir a banca

Apesar do crescimento esperado, a Moody’s considera improvável que o crédito privado venha a transformar-se num concorrente de grande dimensão para os bancos africanos.

A razão está no próprio modelo de funcionamento do sector. Os fundos de crédito privado recorrem frequentemente aos bancos para estruturar e conceder financiamento ou participam em operações de co-financiamento. Esta relação tende a ser particularmente importante no sector das infra-estruturas, onde as necessidades de capital permanecem muito superiores à capacidade actualmente disponível.

Assim, em vez de substituir a banca, o crédito privado poderá assumir sobretudo um papel complementar, contribuindo para ampliar a capacidade de financiamento da economia africana.

Retornos serão determinantes

Para alcançar uma dimensão mais significativa, porém, a indústria terá de demonstrar capacidade para gerar retornos consistentes e competitivos face a outras alternativas de investimento.

A Moody’s alerta que esta expansão ocorrerá num contexto em que persistem preocupações dos investidores relativamente aos riscos associados aos mercados de fronteira africanos, agravadas pelo histórico desigual de desempenho de fundos de investimento privados focados no continente.

A capacidade de atrair capital dependerá, por isso, não apenas da existência de oportunidades de investimento, mas também da demonstração de que o crédito privado consegue oferecer uma relação adequada entre risco e retorno.

Mercados de capitais continuam pouco desenvolvidos

O reduzido desenvolvimento dos mercados de capitais africanos constitui outro factor que poderá favorecer o crescimento do crédito privado.

De acordo com o relatório, a capitalização bolsista em todo o continente correspondia a apenas 33% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, muito abaixo da média de 61% nos mercados emergentes e dos 113% registados a nível mundial.

Para a Moody’s, esta diferença evidencia o espaço ainda existente para o desenvolvimento de mecanismos alternativos de financiamento e reforça o potencial de expansão do crédito privado como fonte complementar de capital para a economia africana.

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