O primeiro navio de carga chinês a viajar pela Rota do Mar do Norte deverá atracar esta semana no Reino Unido, num sinal das crescentes ambições da China no Árctico, ainda que analistas continuem a duvidar da viabilidade comercial deste tipo de rota.
O navio “Dubai Tower”, operado pela transportadora Sea Legend, partiu do porto de Ningbo, na China, a 15 de Agosto, rumo ao porto britânico de Felixstowe, o maior porto de contentores do Reino Unido, inaugurando aquele que é apresentado como o primeiro serviço regular e sazonal de contentores entre a China e a Europa através da chamada Rota do Mar do Norte (Northern Sea Route). Com capacidade para cerca de 1.740 contentores TEU, o Dubai Tower é o maior navio comercial a atravessar o Árctico desde que um navio da Maersk fez o mesmo trajecto, em 2018.
A rota, com cerca de 5.600 quilómetros, atravessa o Círculo Polar Árctico ao longo da costa norte da Rússia, passando pelo Estreito de Bering, e permite reduzir para cerca de metade o tempo de viagem entre a China e a Europa, face à travessia tradicional pelo Canal do Suez. Além da poupança de tempo, a rota árctica oferece ainda uma alternativa às perturbações registadas nas rotas marítimas tradicionais do Médio Oriente, nomeadamente no Mar Vermelho, onde a navegação tem sido alvo de ataques dos huthis, apoiados pelo Irão, e no Estreito de Ormuz, envolvido na escalada de tensão entre os Estados Unidos e o Irão.
Apesar destas vantagens, a viagem do Dubai Tower confirma as dificuldades habituais da travessia por esta rota imprevisível e coberta de gelo: o navio seguiu atrasado em relação ao calendário inicialmente previsto pela Sea Legend, que apontava para uma chegada a Felixstowe já a 5 ou 7 de Setembro. A navegação pela Rota do Mar do Norte continua a depender fortemente das condições sazonais do gelo marinho, sendo apenas viável durante um curto período do ano, embora esse período tenha vindo a alargar-se nos últimos anos devido ao aquecimento dos oceanos — a cobertura de gelo marinho no Verão árctico já caiu cerca de um terço desde 1979.
A China considera-se um “Estado quase-árctico” e tem procurado, nos últimos anos, aprofundar a sua presença na região, tendo realizado esta semana o primeiro levantamento conjunto de gelo marinho com a Rússia, a bordo do navio-quebra-gelo chinês Xuelong 2. Este movimento surge no contexto de uma cooperação mais ampla entre Pequim e Moscovo no Árctico, com a Rússia a promover activamente a Rota do Mar do Norte como alternativa estratégica às rotas comerciais tradicionais, num momento em que reorienta parte do seu comércio para leste, na sequência das sanções ocidentais impostas devido à guerra na Ucrânia.
Ainda assim, o número de navios de contentores a utilizar esta rota permanece reduzido: subiu de 15, em 2024, para 23, em 2025, valores modestos quando comparados com o tráfego que atravessa anualmente o Canal do Suez. Segundo um especialista do think tank norte-americano Atlantic Council, citado pelo The New York Times, a China “é mestre em avançar com iniciativas que, no início, não parecem necessariamente comerciais”, mas que, com o tempo, “acabam por se traduzir numa vitória geoestratégica” para Pequim.