Economia

Construção da via ferroviária Luena–Saurimo terá financiamento coordenado pelo HSBC

O Estado angolano está a estruturar uma operação de financiamento para a construção da linha ferroviária que vai ligar Luena, capital da província do Moxico, a Saurimo, na Lunda-Sul, com o HSBC Bank plc a desempenhar as funções de agente e coordenador da operação.

A operação está associada a um financiamento que poderá atingir 1,36 mil milhões de dólares, com recurso a garantias ou cobertura de agências de crédito à exportação (ECA), segundo documentação financeira da República de Angola.

O projecto prevê a construção de aproximadamente 260 quilómetros de linha férrea, permitindo prolongar a rede do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB) para a região das Lundas e estabelecer uma ligação ferroviária entre Saurimo e o corredor que conduz ao Porto do Lobito.

A participação do HSBC na operação não significa que o banco britânico seja necessariamente o único financiador. Enquanto coordenador-arranjador, deverá desempenhar um papel na estruturação da operação e na mobilização das instituições financeiras que participarão no empréstimo.

Financiamento superior ao custo da obra

O valor máximo de 1,36 mil milhões de dólares referido na documentação financeira é superior ao montante inicialmente autorizado para a execução da empreitada.

O Governo angolano autorizou, através do Despacho Presidencial n.º 55/23, de 27 de Março, a contratação da concepção e construção do troço ferroviário Luena–Saurimo, num investimento estimado em cerca de 1,17 mil milhões de dólares.

A obra foi atribuída ao consórcio constituído pela Odebrecht Engenharia e Construção Internacional e pela Bento Pedroso Construções.

A diferença entre o valor da empreitada e o limite máximo da operação de financiamento poderá estar relacionada com a própria estrutura financeira do projecto, incluindo custos de financiamento, comissões, seguros, garantias e outros encargos associados à operação.

Informações posteriores sobre o projecto apontaram para uma estrutura de financiamento de aproximadamente 850 milhões de dólares, o que demonstra que os montantes envolvidos foram sendo ajustados à medida que a operação financeira avançou.

Agências de crédito à exportação

A estruturação do financiamento através de agências de crédito à exportação constitui um mecanismo utilizado para financiar grandes projectos de infra-estruturas em mercados considerados de maior risco.

Neste modelo, as agências de crédito à exportação podem garantir parte do risco assumido pelos bancos financiadores, permitindo ao Estado obter financiamento internacional para a aquisição de equipamentos, serviços e trabalhos realizados por empresas dos países abrangidos pelas respectivas garantias.

Para Angola, o recurso a este tipo de financiamento permite mobilizar capitais internacionais para projectos de infra-estruturas sem depender exclusivamente do orçamento do Estado.

No caso da ligação Luena–Saurimo, a operação envolve uma cadeia financeira que coloca lado a lado o Estado angolano, bancos internacionais, agências de crédito à exportação e as empresas responsáveis pela execução da obra.

Ligação estratégica às Lundas

Mais do que uma nova ligação ferroviária regional, o projecto Luena–Saurimo poderá alterar a posição das províncias do leste de Angola na rede logística nacional.

Actualmente, o Caminho-de-Ferro de Benguela atravessa o país desde o Lobito até ao Luau, junto à fronteira com a República Democrática do Congo. A construção do ramal para Saurimo permitirá estender a rede para a Lunda-Sul.

A ligação irá facilitar o transporte de mercadorias entre as Lundas e o litoral, através do corredor ferroviário que termina no Porto do Lobito.

A importância económica é particularmente relevante para uma região com actividade mineira, agrícola e comercial, uma vez que o transporte ferroviário poderá oferecer uma alternativa de maior capacidade e, potencialmente, menor custo face ao transporte rodoviário. Saurimo é também uma das principais portas de entrada e saída da Lunda-Sul, província com importantes recursos minerais, incluindo diamantes.

Corredor do Lobito ganha novo eixo

A nova ligação ferroviária surge num momento em que Angola procura reforçar o Corredor do Lobito como uma das principais rotas de transporte de mercadorias da África Austral.

O corredor liga as regiões mineiras do interior da República Democrática do Congo e da Zâmbia ao Atlântico através da rede ferroviária que atravessa Angola e termina no Porto do Lobito. A extensão até Saurimo poderá acrescentar uma nova zona de produção à área potencialmente servida por esta infra-estrutura.

Para o Governo angolano, o projecto insere-se também na estratégia de diversificação económica e de redução da dependência do transporte rodoviário, ao mesmo tempo que procura aumentar a capacidade de circulação de mercadorias entre as diferentes regiões do país.

Obra deverá ficar concluída em 2029

O arranque formal da construção do troço Luena–Saurimo ocorreu em Janeiro de 2026, com o lançamento da primeira pedra. A previsão oficial aponta para a conclusão da obra em 2029. Quando estiver concluída, a nova linha deverá permitir a circulação de comboios de passageiros e mercadorias e integrar Saurimo na rede ferroviária nacional.

O projecto representa, assim, não apenas uma extensão de 260 quilómetros da rede ferroviária angolana, mas também uma aposta na criação de uma ligação directa entre uma das principais regiões diamantíferas do país e o sistema logístico do Corredor do Lobito.

A concretização do financiamento será, contudo, decisiva para o cumprimento do calendário. Com o HSBC a assumir um papel central na estruturação da operação, o Estado angolano procura fechar uma das peças financeiras necessárias para transformar a ligação Luena–Saurimo num novo eixo ferroviário estratégico do país.

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