Economia

BRICS abrem novas oportunidades económicas para África

As decisões da 18ª Cimeira dos BRICS, realizada em Nova Deli, Índia, nos dias 12 e 13 de Setembro, poderão reforçar as oportunidades económicas para os países africanos, através de novas formas de financiamento, maior utilização das moedas nacionais no comércio e aprofundamento da cooperação em infra-estruturas, tecnologia e industrialização.

Realizada sob o lema “Construir para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, a cimeira decorreu num momento de crescente fragmentação da economia mundial e de procura, por parte dos países do Sul Global, de alternativas aos mecanismos financeiros e comerciais dominados pelas economias ocidentais.

Para África, uma das principais oportunidades está no reforço da intervenção do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição financeira criada pelos BRICS para financiar projectos de desenvolvimento.

O aumento do financiamento a infra-estruturas poderá beneficiar sectores como energia, transportes, saneamento e logística, ao mesmo tempo que poderá contribuir para a construção de corredores comerciais necessários à implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana.

A existência de fontes adicionais de financiamento permite aos países africanos diversificar os seus parceiros e reduzir a dependência de instituições financeiras tradicionais.

Comércio em moedas nacionais

Outro dos eixos da cooperação dos BRICS é o desenvolvimento de mecanismos que permitam aumentar o comércio utilizando as moedas nacionais.

Para as economias africanas, esta estratégia poderá reduzir a necessidade de recorrer ao dólar norte-americano em determinadas operações, diminuindo a pressão sobre as reservas cambiais e alguns custos de conversão.

A Declaração de Nova Deli reafirmou a intenção de aprofundar a cooperação económica e financeira entre os membros do bloco, num contexto em que a utilização de moedas locais e de novos mecanismos de pagamento continua a ganhar importância.

A expansão da cooperação Sul-Sul poderá também favorecer a industrialização africana, sobretudo através do investimento em sectores capazes de transformar localmente matérias-primas.

A prioridade ao processamento de minerais críticos e de produtos agrícolas poderá permitir aos países africanos aumentar o valor acrescentado das suas exportações, criar emprego e desenvolver cadeias produtivas internas.

A cooperação em tecnologias digitais, energia, agricultura e inovação constitui igualmente uma oportunidade para acelerar a modernização de sectores estratégicos.

Maior influência africana

A presença de África no BRICS ganhou peso com a entrada de novos membros do continente, nomeadamente o Egipto e a Etiópia, que se juntaram à África do Sul. O bloco conta actualmente com 11 membros, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egipto, Etiópia, Irão, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita.

Esta configuração aumenta a capacidade dos países africanos para participar no debate sobre a reforma da arquitectura financeira internacional e defender maior representação das economias emergentes nas instituições multilaterais.

O desafio da sustentabilidade

Apesar das oportunidades, a aproximação aos BRICS não elimina os riscos. O aumento do recurso ao financiamento externo exige uma gestão cuidadosa da dívida, sobretudo em países com reduzida margem orçamental.

Os benefícios dependerão também da capacidade dos governos africanos para transformar financiamento em investimento produtivo, industrialização e criação de emprego.

Ao mesmo tempo, os países africanos terão de preservar uma política externa equilibrada, mantendo relações económicas tanto com os BRICS como com os Estados Unidos, a União Europeia e outros parceiros tradicionais.

A cimeira de Nova Deli reforça, assim, a possibilidade de África diversificar fontes de financiamento, mercados e parceiros. O principal desafio será transformar essa maior margem de escolha numa estratégia capaz de gerar crescimento sustentável e reduzir a dependência da exportação de matérias-primas.

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