Os investidores tinham apostado na vitória de Flávio Bolsonaro e foram apanhados de surpresa. A bolsa de São Paulo teve a pior sessão desde a pandemia, cerca de 6 mil milhões de dólares em ofertas de acçõesficaram em suspenso e a contestação do resultado pelo candidato derrotado aumenta a pressão sobre o real.
Os mercados brasileiros afundaram na segunda-feira, no primeiro dia depois da reeleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Ibovespa, principal índice da bolsa de São Paulo, caiu 13,88%, para 176 608 pontos, a maior queda diária desde Março de 2020, em plena pandemia. Durante a sessão, as perdas chegaram a ultrapassar os 17%. Na abertura, a negociação foi suspensa durante meia hora por um mecanismo de interrupção automática, accionado pela primeira vez desde 2020.
O dólar subiu mais de 8% face ao real, para cerca de 5,40 reais, a maior subida diária em 23 anos, depois de ter chegado a tocar nos 5,60 reais na abertura. As taxas de juro de longo prazo dispararam mais de dois pontos percentuais.
“Toda a gente foi apanhada de surpresa”, disse um analista à Bloomberg. “O mercado vai reavaliar tudo.” As acções brasileiras tinham subido com força depois da vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, impulsionadas pela promessa de cortar no défice. Os investidores tinham dado como certa uma mudança de Governo e agora “cortam as suas expectativas para mais quatro anos do mesmo perfil de governo”, resumiu Gabriel Magno, da AW Capital. Os sectores mais expostos à economia interna foram os mais castigados: o índice imobiliário caiu mais de 28%, e os das pequenas empresas e do consumo mais de 26%.
O resultado travou também cerca de 6 mil milhões de dólares em ofertas de acções que várias empresas tinham planeado para depois das eleições. O BTG Pactual admite que o Ibovespa caia até 17% nas próximas semanas e que o real perca entre 10% e 15% face ao dólar.
Uma dívida difícil de travar
O desafio de fundo é orçamental. A dívida pública brasileira aumentou dez pontos percentuais durante a governação de Lula e ultrapassa já os 82% do PIB. Mas nas últimas horas da campanha os dois candidatos prometeram novos subsídios, caros, o que mostra a dificuldade política de travar a dívida.
A pressão sobre o real é agravada pela contestação do resultado. Flávio Bolsonaro recusou reconhecer a derrota e anunciou que vai pedir a anulação das eleições, por causa do prolongamento da votação decidido pelo Supremo Tribunal Federal.