Opinião

Adebayo Vunge questiona para quando um novo Cardeal angolano, Santo Padre?

Uma semana após a visita do Papa Leão XIV a Angola — marcada pelo êxito e pela projecção internacional do país — permanece uma questão incómoda: como justificar que uma das comunidades católicas mais dinâmicas de África continue sem representação no Colégio Cardinalício? Apesar da vitalidade evidente da Igreja angolana — expressa em números, influência social e presença pública, num contexto que confirma a “desprivatização da religião” teorizada por José Casanova — essa força não se traduz no plano simbólico e institucional do poder católico. Desde a morte de Dom Alexandre do Nascimento, o único cardeal angolano, em 2024, instalou-se um vazio que contrasta com a crescente centralidade do país no mapa do catolicismo, reforçada pela recente visita papal e pelo projeto estratégico do Santuário da Muxima. Mais do que uma questão de nomes ou de mérito, levanta-se um problema de representação: pode a Igreja universal ignorar, por mais tempo, uma das suas comunidades mais vibrantes sem comprometer o equilíbrio simbólico que sustenta a sua própria universalidade?

Terminou há uma semana visita de Papa Leão XIV a Angola. Não há dúvidas que correu muito bem e foi um bom momento para o País estar no “spotlight” global. Como tantas visitas papais, deixou gestos, promessas e, sobretudo, perguntas inquietantes. Algumas ficam no plano espiritual. Outras, mais silenciosas, tocam a própria arquitetura da Igreja. Esta é uma delas que me coloco hoje: como explicar que uma Igreja com a vitalidade da angolana continue, na prática, sem voz no Colégio Cardinalício?

Não é uma pergunta menor, penso.

A visita de Leão XIV deixou claro que Angola é hoje um dos espaços mais dinâmicos do catolicismo africano. As estatísticas confirmam aquilo que a experiência da visita pastoral do Papa mostrou: igrejas cheias, vocações, presença social, influência moral. Segundo os dados do Censo geral da População de 2024, quase metade da população identifica-se como católica. Mas o número, por si só, diz pouco, pasme-se! O que importa é o que ele representa: uma religião que não se retraiu para o espaço privado, mas que continua a moldar a vida pública, a educação, a assistência social e até a linguagem moral da sociedade.

Trago à liça José Casanova que é um dos principais especialistas mundiais em sociologia da religião e pesquisador sênior do Berkley Center, onde seu trabalho se concentra em globalização, religiões e secularização. Ele também é professor emérito da Universidade de Georgetown, onde lecionou anteriormente onde desenvolveu o conceito de “desprivatização da religião”. Angola é um desses lugares onde essa revisão teórica ganha corpo. Aqui, a fé não é residual — é energia e é de todos ou para todos.

No entanto, constata-se agora que essa energia não tem tradução proporcional na estrutura de poder simbólico da Igreja.

É verdade que a nomeação de cardeais não segue uma lógica aritmética. Não há quotas, nem direitos adquiridos. O Papa decide livremente. Mas também é verdade que o Colégio Cardinalício é, de alguma forma, um espelho da Igreja universal — das suas prioridades, geografias e equilíbrios.

E é aqui que Angola entra.

Durante décadas, o país teve uma figura que encarnava essa ligação ao centro do Poder católico: Dom Alexandre do Nascimento. O primeiro e único cardeal angolano. Ele faleceu a 28 de Setembro de 2024, com 99 anos. O ano passado, a 1 de Março de 2025 comemorou-se o centenário do seu nascimento. Com ele, não desapareceu apenas um homem — fechou-se um ciclo. Desde então, instalou-se um silêncio que começa a ser difícil de interpretar. E quiçá já antes mesmo da sua morte!

Porque Angola mudou. E a Igreja em Angola também.

O catolicismo angolano não é periférico. Não é residual. Não é dependente. É uma Igreja com densidade própria, com liderança, com capacidade de intervenção. Uma Igreja que atravessou a guerra, acompanhou a reconstrução e continua a ser uma das poucas instituições com legitimidade transversal.

A visita papal reforçou essa centralidade. E trouxe consigo um símbolo importante: o compromisso de concluir a Basílica do Santuário da Muxima. Mais do que uma obra religiosa, trata-se de uma visão — transformar Muxima num grande polo de peregrinação, sem que precisemos de nos comparar a priori de referências como os Santuários de Fátima ou Santiago de Compostela.

Se esse caminho se consolidar, Angola deixará de ser apenas um país de forte presença católica para se tornar também um destino central do catolicismo global.

E isso levanta inevitavelmente a questão da representação.

Quem fala por Angola na Igreja universal?

Hoje, existem lideranças sólidas que se vislumbram nesse papel. Dom Filomeno Vieira Dias e Dom José Manuel Imbamba são nomes que surgem naturalmente quando se pensa em projeção, experiência e capacidade de articulação. Mas a questão não é pessoal. É estrutural.

A Igreja Católica gosta de pensar-se como universal — e bem. Mas a universalidade não é abstrata. Constrói-se com rostos, vozes e geografias.

A inobservância prolongada de um cardeal angolano não é uma injustiça formal. Mas começa a ser um desajuste simbólico.

E os símbolos, na Igreja, contam.

Talvez a pergunta inicial esteja mal formulada. Não se trata de saber se os fiéis angolanos “merecem” um cardeal. A Igreja não funciona por mérito distributivo. A questão mais interessante é outra: pode a Igreja universal continuar a ignorar, no plano da sua representação mais alta, uma das suas comunidades mais vivas?

A resposta é urgente e também não pode ser indefinidamente adiada.

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