Entrevistas

“A concorrência sustentável fortalece o sector; uma guerra de preços sem investimento, degrada-o”

Assumiu a presidência da Comissão Executiva de Mercury em Janeiro, regressando para liderar uma ‘casa’ que conhece bem. Em entrevista ao Mercado, Francisco Pinto Leite antecipa os desafios da antiga MSTelecom nesta nova fase em que a gestão tem mais autonomia no dia-a-dia face ao accionista e olha de forma optimista para o futuro. Daqui a 10 anos, vê a Mercury como “uma empresa com liderança em Angola, alcance regional e ligação aos principais ecossistemas tecnológicos internacionais”. 

Em Junho, apresentaram a nova marca e imagem, momento que designaram como de “viragem” na empresa. Qual a principal mensagem associada a esta mudança?

A principal mensagem é que a mudança não se limita ao nome ou à identidade visual. A Mercury recupera um legado com quase três décadas, mas projecta-o para uma nova fase: queremos deixar de ser percepcionados apenas como um operador de conectividade e afirmar-nos como prestador integrado de serviços e infraestruturas digitais. “Beyond Connection” traduz precisamente essa ambição: ir além da ligação física, combinando conectividade, cloud, data center, cibersegurança, serviços geridos e soluções digitais que resolvam problemas concretos das empresas e das instituições. A viragem está na estratégia, nos processos, na cultura de serviço e na responsabilização pelos resultados.

A gestão da Mercury é agora mais autónoma em relação ao accionista. O que muda com este afastamento da Sonangol da gestão corrente?

Não falaria num afastamento institucional da Sonangol, mas numa evolução do modelo de governação. O accionista mantém a definição das orientações estratégicas, a supervisão e as decisões que lhe competem. À Comissão Executiva cabe gerir a actividade corrente, executar o plano de negócios e responder pelos resultados.

Na prática, isto permite maior rapidez de decisão, uma relação mais directa com o mercado e uma fronteira mais clara entre accionista e gestão. A autonomia não reduz o controlo; aumenta a responsabilização. Obriga-nos a tomar decisões com disciplina comercial e financeira, a servir melhor os clientes e a demonstrar, com resultados, o valor da Mercury.

A Sonangol é um cliente importante da Mercury? Que peso tem?

A Sonangol é um cliente estratégico e uma referência histórica para a Mercury, sobretudo pela criticidade e complexidade das operações que suportamos. Essa relação deu-nos experiência em ambientes que exigem elevados níveis de disponibilidade, segurança e continuidade de serviço.

Por razões comerciais, não divulgamos o peso individual de cada cliente. O ponto relevante é que a Mercury tem hoje uma carteira diversificada, que inclui outras empresas do sector petrolífero, banca, instituições públicas, indústria, mineração, transportes, retalho e operadores de comunicações. A nossa prioridade é continuar a alargar essa base e reduzir a concentração, sem perder a excelência no serviço ao Grupo Sonangol.

Estando integrada no ecossistema Sonangol, a Mercury pode ser qualificada como um activo não estratégico, por não pertencer ao core petrolífero. Faz sentido pensar, a prazo, num cenário de privatização da empresa?

Uma eventual alteração da estrutura accionista é uma decisão do accionista e do Estado, não da gestão da Mercury. Não nos compete antecipar nem especular sobre esse cenário.

Importa, contudo, distinguir duas realidades: a Mercury pode não integrar o core petrolífero da Sonangol, mas as infra-estruturas digitais, os dados e a cibersegurança são activos estratégicos para a economia angolana. O mandato da gestão é tornar a empresa mais eficiente, competitiva, transparente e capaz de criar valor. Uma empresa bem gerida deve estar preparada para cumprir a sua missão em qualquer configuração accionista que venha a ser definida.

Onde vê oportunidades de crescimento, tendo uma posição já dominante no segmento de telefonia fixa do sector empresarial?

As oportunidades estão em aprofundar a relação com os clientes actuais, acrescentando serviços de maior valor; conquistar novos sectores e empresas; expandir geograficamente a cobertura; desenvolver o wholesale; e acelerar ofertas como 5G FWA, conectividade LEO, cloud soberana, segurança gerida e continuidade de negócio. A nossa ambição não é defender uma quota histórica, mas ganhar relevância nas áreas que determinam a transformação digital.

Seria positivo para o mercado haver mais concorrência em Angola?

Sim. Uma concorrência qualificada é positiva porque estimula investimento, inovação, qualidade de serviço e maior capacidade de escolha para os clientes. Também ajuda a alargar o próprio mercado, num país onde ainda existe muito espaço para digitalização das empresas, das instituições e dos serviços públicos. Mas a concorrência deve ocorrer em condições equilibradas: regras claras, previsibilidade regulatória, cumprimento das mesmas obrigações, partilha eficiente de infra-estruturas quando faça sentido e avaliação pela qualidade, segurança e continuidade do serviço – e não apenas pelo preço. A concorrência sustentável fortalece o sector; uma guerra de preços sem investimento, degrada-o.

Há também concorrência regional e internacional, por exemplo em cloud e segurança. Sentem esse impacto?

Sentimos e consideramos esse confronto positivo. Cloud, cibersegurança, satélite e serviços digitais são mercados cada vez menos limitados por fronteiras. Os clientes angolanos comparam-nos com fornecedores internacionais e exigem padrões globais de disponibilidade, segurança, rapidez e experiência de serviço.

A resposta da Mercury é combinar o melhor dos dois mundos: tecnologia e parcerias internacionais com presença local, conhecimento do contexto angolano, infra-estrutura no país, equipas de resposta próximas e capacidade de integrar várias soluções num único modelo de serviço. Em matérias críticas, a residência dos dados, a latência, a continuidade operacional e a resposta local são factores de diferenciação relevantes.

A Mercury tem planos de internacionalização?

A prioridade é consolidar a transformação e o crescimento em Angola. Não queremos uma internacionalização territorial feita apenas para acrescentar países ao mapa. Qualquer expansão tem de responder a clientes concretos, criar valor e ter sustentabilidade económica.

A Mercury já tem uma dimensão internacional através dos seus pontos de presença, das ligações a operadores globais, das soluções satelitais e do apoio a clientes com operações transfronteiriças. A médio prazo, avaliamos oportunidades regionais, sobretudo onde as nossas competências em conectividade crítica, offshore, satélite, cloud e serviços geridos possam acompanhar clientes angolanos ou responder a necessidades do mercado. Angola é a base; a vocação pode ser regional.

O que podemos esperar ainda este ano em termos da vossa oferta?

O foco é consolidar ofertas com capacidade real de entrega. As prioridades incluem a expansão comercial do My5G [iniciada em Cabinda] o reforço das soluções de conectividade LEO e offshore, a evolução dos serviços de cloud, data center, backup e recuperação, e uma oferta de cibersegurança gerida com monitorização e resposta contínuas.

Estamos igualmente a aprofundar soluções de conectividade empresarial, SD-WAN, MPLS, comunicações industriais e automação. Em paralelo, trabalhamos na experiência do cliente, nos processos de instalação, no suporte e na qualidade operacional. A transformação só é credível quando o mercado sente melhoria no serviço.

Quais são os grandes desafios de segurança que as empresas enfrentam em Angola?

O primeiro desafio é de governação: muitas organizações ainda tratam a cibersegurança como um tema exclusivamente técnico, quando ela é um risco de negócio e deve envolver a administração. A expansão do trabalho remoto, da cloud, dos serviços digitais e da interligação entre sistemas aumenta a superfície de ataque.

Entre os riscos mais relevantes estão o phishing e o roubo de credenciais, ransomware, sistemas desactualizados, ausência de segmentação entre redes de tecnologias de informação e redes operacionais, fragilidades de fornecedores, cópias de segurança inadequadas e falta de planos testados de continuidade. Há ainda uma escassez de talento especializado. Segurança exige tecnologia, processos, treino, responsabilização e capacidade permanente de resposta.

Que investimentos estão previstos?

Os principais eixos de investimento são a modernização e resiliência da rede nacional, a expansão faseada do My5G, a capacidade satelital, a evolução do data center e da cloud, a cibersegurança, os sistemas de operação e suporte e a qualificação das equipas.

Vão investir com capital do accionista ou com recurso à banca?

O modelo de financiamento dependerá da natureza e da maturidade de cada projecto. A empresa deve combinar geração de caixa operacional, financiamento estruturado, instrumentos bancários, condições de fornecedores e, quando aplicável, apoio ou decisões do accionista.

A nossa orientação é evitar uma dependência automática de uma única fonte e assegurar que os projectos têm racional económico, retorno e capacidade de pagamento. A autonomia de gestão também se mede pela capacidade de financiar o crescimento de forma responsável e sustentável.

Como tem sido o desempenho económico e financeiro da empresa?

A Mercury tem uma base relevante de activos, clientes e receitas recorrentes, mas 2026 é um ano de transformação e de exigência acrescida sobre eficiência. O nosso foco está na qualidade da receita, na cobrança, no controlo de custos, na disponibilidade dos serviços e na rentabilização dos activos existentes.

Não seria rigoroso antecipar números antes da aprovação e divulgação das contas. O que posso afirmar é que a Comissão Executiva está a trabalhar para converter a posição histórica da empresa em desempenho financeiro mais consistente, maior capacidade de investimento e menor dependência do accionista.

A Mercury dá lucro?

A resposta deve ser dada com base nas contas aprovadas, e não numa apreciação avulsa, por isso, não anteciparia um resultado líquido que ainda não esteja formalmente divulgado.

A Mercury tem um negócio viável, clientes de referência, receitas recorrentes e activos importantes. Ao mesmo tempo, opera num sector intensivo em capital, em que amortizações, investimentos, custos de infra-estrutura, cobranças e eficiência operacional influenciam o resultado. O compromisso da gestão é atingir uma rentabilidade sustentável e demonstrável, não apenas um resultado pontual.

Onde vê a Mercury daqui a 10 anos?

Vejo a Mercury como uma das principais plataformas angolanas de infra-estruturas e serviços digitais, reconhecida pela confiança, pela capacidade de suportar operações críticas e pela qualidade das suas equipas. Uma empresa com liderança em Angola, alcance regional e ligação aos principais ecossistemas tecnológicos internacionais.

Em dez anos, o valor não estará apenas na conectividade. Estará na capacidade de integrar redes, cloud, dados, cibersegurança, satélite, automação e inteligência operacional em serviços simples para os clientes. O legado que pretendemos construir é uma empresa financeiramente sustentável, tecnologicamente relevante e capaz de contribuir para que Angola seja uma plataforma digital regional.

PERFIL EXECUTIVO

Experiência que conta

Francisco Pinto Leite é Presidente da Comissão Executiva da Mercury desde Janeiro de 2026 e um dos gestores mais experientes do sector das comunicações e infra-estruturas digitais em Angola. Engenheiro de Electrónica e Telecomunicações pela Universidade Agostinho Neto e pós-graduado em Gestão de Projectos pela Universidade Católica de Brasília, soma mais de 30 anos de experiência no sector. Passou pela Sistec e pela MSTelcom, onde exerceu funções nas áreas de satélite, engenharia e gestão de projectos. Liderou durante cerca de 13 anos a Internet Technologies Angola/Paratus Angola. Na Mercury, conduz o reposicionamento da empresa como prestador integrado de serviços e infraestruturas digitais.

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