Internacional

Rei mais rico de África assinala 27 anos no trono, enquanto milhares de marroquinos continuam a fugir para a Europa

Crescimento económico de quase 5% e indústria automóvel em expansão contrastam com desemprego jovem acima dos 35%, protestos da “Geração Z” e a recente crise migratória em Ceuta, que já matou dezenas de pessoas

O rei Mohammed VI de Marrocos assinalou, esta semana, 27 anos no trono do país, presidindo a uma nação que se tornou um dos principais centros de manufactura, comércio e investimento de África — mesmo enquanto milhares dos seus cidadãos continuam a arriscar travessias perigosas em busca de oportunidades na Europa.

No discurso do Dia do Trono, proferido esta quarta-feira em Tetuão, o monarca sublinhou a importância de manter o optimismo face aos discursos de “desespero e frustração”, apresentando dados que apontam para uma taxa de crescimento próxima dos 4,9% em 2025, com expectativas de igualar ou superar esse valor em 2026. O rei destacou ainda a boa campanha agrícola e a consolidação de Marrocos como “pólo de investimento industrial, turístico e financeiro”, com particular destaque para sectores como o automóvel e o aeronáutico. O país tornou-se já o maior exportador de automóveis de África, com uma capacidade anual de quase um milhão de veículos, e as exportações dos sectores automóvel e aeronáutico representam hoje mais de 40% do total das exportações nacionais, ultrapassando os fosfatos — historicamente o principal produto de exportação marroquino.

Marrocos tem reforçado, em simultâneo, as suas capacidades militares, assinando importantes acordos de defesa com os Estados Unidos e outros parceiros internacionais, num sinal do peso geopolítico crescente que o país procura afirmar em África e no mundo árabe.

A outra face da moeda: pobreza, desemprego e fuga para a Europa

Apesar destes avanços, o aniversário coincidiu com uma crise migratória em larga escala, quando dezenas de milhares de marroquinos atravessaram para o enclave espanhol de Ceuta, sobrecarregando os serviços locais e deixando dezenas de mortos — pelo menos 72 pessoas morreram a tentar chegar à cidade a nado, segundo os balanços mais recentes das autoridades espanholas, num episódio que motivou uma crise diplomática de dimensão europeia, com Itália a suspender temporariamente o Espaço Schengen com Espanha e a Comissão Europeia a classificar as imagens de “inaceitáveis”.

Este êxodo massivo, tal como episódios semelhantes já registados em Ceuta e Melilla noutros anos, expõe um contraste persistente entre o discurso oficial de progresso económico e a realidade vivida por largas camadas da população marroquina. Apesar dos avanços macroeconómicos, muitos marroquinos continuam a enfrentar desemprego e desigualdade, alimentando protestos juvenis e uma pressão migratória constante em direcção à Europa.

Os protestos da “Geração Z 212”

O clima social tenso em Marrocos tornou-se particularmente visível em Setembro e Outubro de 2025, quando uma vaga de manifestações lideradas por jovens — conhecida como “Geração Z 212” — se espalhou por várias cidades do país, na sequência da morte de oito mulheres grávidas num hospital público, por falta de cuidados médicos e de recursos. As estatísticas oficiais situavam então o desemprego jovem em 35,8%, alimentando acusações de corrupção e descontentamento popular face às desigualdades sociais no país.

Os manifestantes contrastaram publicamente o investimento em infra-estruturas de grande visibilidade — como o Estádio Hassan II, em Casablanca, avaliado em mais de mil milhões de euros, e construído no âmbito da candidatura de Marrocos à organização de eventos desportivos internacionais — com a degradação dos serviços públicos de saúde e educação, popularizando o slogan “Há estádios, mas onde estão os hospitais?”. Em resposta, o Governo marroquino aprovou um orçamento de cerca de 15 mil milhões de dólares para a saúde e a educação em 2026 — um aumento de 16% face ao ano anterior —, além de medidas para incentivar a participação política de jovens com menos de 35 anos, incluindo a subsidiação de até 75% das despesas de campanha eleitoral.

Numa semana marcada pelos protestos, o próprio Mohammed VI já tinha apelado, num discurso perante o parlamento marroquino, à aceleração de reformas destinadas a criar emprego para os jovens, melhorar os serviços públicos e reduzir as desigualdades regionais, com especial atenção às regiões montanhosas e oásicas do país. O monarca não se dirigiu directamente aos manifestantes, mas defendeu que não deveria haver incoerências nem competição entre os grandes projectos nacionais de bandeira e os programas sociais do país — uma resposta indirecta às críticas sobre prioridades de investimento que têm alimentado o descontentamento popular.

Um rei entre os mais ricos de África

Mohammed VI, no poder desde 23 de Julho de 1999, é habitualmente apontado como um dos monarcas mais ricos do continente africano, com uma fortuna pessoal estimada em milhares de milhões de dólares, associada a participações em sectores estratégicos da economia marroquina através do grupo real Al Mada. Esse contraste entre a riqueza pessoal do monarca e as dificuldades económicas de largas camadas da população tem sido, também ele, um dos pontos recorrentes das críticas dos movimentos de contestação social no país — um pano de fundo que ajuda a explicar por que motivo, mesmo com taxas de crescimento económico robustas e uma indústria em expansão, milhares de marroquinos continuam a preferir arriscar a vida numa travessia marítima rumo à Europa a permanecer num país que, para muitos, continua a não lhes oferecer oportunidades suficientes em casa.

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