Governo brasileiro retirou o embaixador em Buenos Aires em Julho, um dia após as primeiras declarações de Milei contra Lula, numa medida sem precedentes na história recente entre os dois vizinhos sul-americanos
O Governo brasileiro retirou o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, em Julho, um dia após as primeiras declarações do Presidente argentino, Javier Milei, contra o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, os interesses do Brasil na Argentina são representados por um encarregado de negócios, um cargo de nível diplomático inferior — a primeira vez, na história recente, que uma medida deste tipo ocorre entre os dois vizinhos.
Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil disse à Associated Press que Milei chamou a Lula “um ladrão” três vezes desde domingo. O Presidente argentino usou termos semelhantes a 25 de Julho, na convenção partidária do senador Flávio Bolsonaro — filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro e que vai enfrentar Lula nas eleições de Outubro —, ocasião em que também acusou o juiz do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de ser “lixo careca”. A crítica a Moraes surgiu depois de este ter negado um pedido do próprio Milei para visitar Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliária a cumprir uma pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
Segundo a CNN Brasil, Milei chegou também a chamar Lula de “presidiário” durante a mesma convenção do PL, em São Paulo, e a sugerir que o Presidente brasileiro tinha sido libertado “por uma falha administrativa, de procedimento” — numa alusão à anulação, em anos anteriores, da condenação de Lula por corrupção. A escalada de insultos motivou, na altura, a chamada do embaixador brasileiro para consultas, medida que antecedeu a retirada formal agora confirmada.
Lula exige desculpas, Milei recusa
O Presidente brasileiro tem reagido às críticas com firmeza, mas sem se envolver directamente em trocas de insultos. “Não conversei com o Presidente da Argentina porque acho que ele deve pedir desculpas ao Brasil e a mim. Disse muitas asneiras. Só quero que ele peça desculpas”, afirmou Lula, em declarações ao portal UOL, reiterando o apreço que nutre pela Argentina, “um país muito importante para o Brasil”. “O povo brasileiro e o argentino são maiores do que os presidentes. Eles querem viver bem, querem viver em paz. Se o Presidente da Argentina quer governar a Argentina está bem, que não tente governar o mundo”, acrescentou.
Do lado argentino, a resposta tem sido de desafio. “O Presidente não fez nada de que se tenha de arrepender”, afirmou o porta-voz presidencial argentino, Manuel Adorni, em conferência de imprensa na Casa Rosada. Já o chanceler argentino reiterou o apoio de Buenos Aires à candidatura de Flávio Bolsonaro e negou qualquer intenção de romper relações com o Brasil — segundo assessores de Milei, citados pela CNN Brasil, o líder argentino procura sobretudo rivalizar com Lula para reforçar a sua projecção como liderança regional, uma leitura que tem levado o Governo brasileiro a optar por uma resposta essencialmente diplomática, evitando escalar ainda mais o confronto verbal.
Uma tensão que já dura desde 2023
O actual episódio é apenas o mais recente de uma longa sequência de atritos entre os dois líderes, que remonta ao início do mandato de Milei, em Dezembro de 2023. Já em Junho de 2024, o Presidente argentino se tinha recusado a pedir desculpas a Lula, depois de o ter classificado como “esquerdista” com um “ego insuflado”, numa altura em que já tinha também insultado publicamente os líderes de Espanha, Colômbia, Venezuela e México. A relação entre os dois nunca chegou a normalizar-se por completo: durante uma cimeira de comércio do Mercosul em Buenos Aires, Lula visitou a antiga Presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner, então em prisão domiciliária por corrupção, sem nunca se reunir a sós com Milei — um desprezo simbólico que o próprio líder argentino já tinha retribuído, ao recusar, em ocasiões anteriores, encontros bilaterais com o homólogo brasileiro.
Milei é um aliado próximo do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja administração tem também mantido tensões e conflitos crescentes com o Governo de Lula. Nesta mesma semana, o Departamento de Estado norte-americano revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em retaliação pela recusa de Brasília em conceder, no mês passado, vistos a dois diplomatas norte-americanos que pretendiam visitar o país antes das eleições de Outubro — um episódio que reforça a percepção, em Brasília, de uma frente coordenada entre Washington e Buenos Aires contra o Governo brasileiro, num momento particularmente sensível do calendário eleitoral do país.
Interferência eleitoral no centro das preocupações
Lula foi oficialmente declarado candidato à reeleição no domingo, na convenção do seu Partido dos Trabalhadores, onde muitos participantes manifestaram preocupação com a interferência estrangeira nas eleições brasileiras. O vice-presidente Geraldo Alckmin, que voltará a ser companheiro de chapa de Lula, defendeu que o sistema de votação electrónica do país é suficientemente eficaz para não permitir fraudes — uma resposta indirecta às críticas recorrentes que Jair Bolsonaro tem feito, ao longo dos anos, à fiabilidade das urnas electrónicas brasileiras.
Com as eleições marcadas para Outubro, e Flávio Bolsonaro já confirmado como principal adversário de Lula, a escalada de tensões entre Brasília, Buenos Aires e Washington deverá continuar a marcar a campanha eleitoral brasileira nos próximos meses, num contexto em que a diplomacia regional sul-americana se vê cada vez mais atravessada por divisões ideológicas que extravasam largamente as fronteiras nacionais dos dois países.