As negociações técnicas entre os Estados Unidos e o Irão realizadas em Bürgenstock, na Suíça, foram concluídas esta terça-feira com a criação de quatro grupos de trabalho e uma série de concessões mútuas que sinalizam uma aproximação significativa entre os dois países.
O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Kazem Gharibabadi, que liderou a delegação técnica de Teerão, confirmou os acordos alcançados e anunciou que as futuras negociações serão supervisionadas por um comité de alto nível com a participação do vice-presidente norte-americano JD Vance, do chefe da diplomacia iraniana e dos primeiros-ministros do Catar e do Paquistão, os dois países mediadores.
Os quatro grupos de trabalho criados abordarão: a suspensão das sanções, o programa nuclear, a reconstrução e o desenvolvimento económico, e o acompanhamento e implementação dos acordos. Não foi fixada uma data para a próxima ronda de negociações.
Petróleo, fundos e Ormuz
As concessões práticas anunciadas são substanciais. O Irão ficará com acesso imediato a 12 mil milhões de dólares (cerca de 10,5 mil milhões de euros) em fundos congelados, e o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma licença a autorizar, por 60 dias — até 21 de agosto —, a produção, venda, transporte e importação de petróleo bruto iraniano e seus derivados. O levantamento parcial do embargo era urgente: antes do bloqueio naval imposto pelos EUA em abril para pressionar Teerão, o Irão exportava mais de 1,5 milhões de barris de petróleo por dia; em maio, esse volume tinha desabado para 260 mil barris diários.
Em contrapartida, o Irão comprometeu-se a garantir o trânsito livre pelo estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial — e a permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) no seu território. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, classificou estes compromissos como “um grande marco” e “o primeiro passo para o fim permanente do programa de armas nucleares no Irão”.
Ainda assim, o negociador-chefe iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, fez questão de sublinhar que o estreito de Ormuz “não regressará ao que era antes do conflito”: “As normas internacionais serão respeitadas, mas o Irão vai gerir o estreito de Ormuz”, declarou, citado pela agência estatal IRNA.
Um processo frágil
O acordo surge depois de semanas de tensão militar na região e de um bloqueio naval norte-americano que sacudiu os mercados do petróleo. As negociações na Suíça produziram já um acordo-quadro, mas o caminho até um tratado definitivo permanece longo e incerto. Trump ameaçou anteriormente com “portagens” norte-americanas no estreito de Ormuz caso as negociações falhassem. A retoma das inspeções da AIEA ao programa nuclear iraniano — um elemento central que o acordo de Obama previa e que Trump rejeitou na sua primeira presidência — será um dos pontos mais sensíveis nas rondas seguintes.