Angola está numa fase ascendente do ciclo económico. É essa a leitura do governador do Banco Nacional de Angola (BNA), Manuel Tiago Dias, que apresentou três sinais como evidência: crescimento do sector não petrolífero, desaceleração da inflação e reforço das reservas internacionais. A mensagem é de cauteloso optimismo, mas o próprio governador reconheceu que os efeitos da crise entre 2014 e 2020 continuam a fazer-se sentir no rendimento das famílias e nos preços de vários bens e serviços.
A leitura do BNA é, no fundo, a de um país que saiu do pior momento sem ter resolvido os problemas estruturais. A inflação abrandou — mas mantém-se em dois dígitos. As reservas internacionais estão em níveis robustos — mas oscilaram no primeiro trimestre. O sector não petrolífero cresce — mas a dependência do crude continua a ser o calcanhar de Aquiles da economia angolana.
Para travar a inflação, o BNA mantém as taxas de juro elevadas. É uma escolha deliberada e classicamente restritiva: travar o crédito e a procura interna para evitar nova pressão sobre os preços. Manuel Tiago Dias não escondeu que esse instrumento tem custos, mas considerou-o necessário enquanto a inflação não estiver controlada.
A meta é ambiciosa: inflação de um dígito até 2027, alinhando Angola com os indicadores macroeconómicos da SADC. O FMI projeta recuos da inflação em 2026 e 2027, o que torna o objetivo difícil, mas não fora do alcance — desde que a política monetária se mantenha disciplinada e o contexto externo não se deteriore.
O argumento da produção nacional
A parte mais reveladora da recenteintervenção do governador foi a ligação que estabeleceu entre estabilidade de preços e produção interna. O BNA não está apenas a dizer que vai usar os juros para controlar a inflação — está a dizer que o combate à inflação depende também de mais oferta nacional e de maior disciplina nas finanças públicas.
A lógica é direta: mais produção nacional significa menos dependência de importações, menos pressão cambial e menor vulnerabilidade a choques externos. Contas públicas disciplinadas significam que o Estado não aquece a economia com despesa excessiva. Juntos, estes dois factores podem fazer o que a política monetária sozinha não consegue: criar condições estruturais para uma inflação duradouramente mais baixa.
O que falta resolver
A mensagem do BNA é de recuperação — mas não de normalidade recuperada. As famílias angolanas ainda carregam o peso de uma crise que durou seis anos e que comprimiu salários reais, destruiu poupanças e encareceu bens essenciais. Alguns preços estabilizaram. Outros ainda não. E as projeções externas continuam a apontar para um crescimento moderado, com riscos ligados à dependência do petróleo, à despesa pública e ao financiamento externo.
O ciclo ascendente que o governador descreve é real. A questão é saber se Angola consegue transformá-lo em recuperação sustentada — ou se fica, mais uma vez, refém da próxima variação do preço do crude.