A Nasdaq abriu esta semana em máximos históricos, com as acções tecnológicas a prepararem-se para uma semana intensa, enquanto grandes bancos e plataformas de negociação avançam para a criação de mercados de futuros sobre “compute” — a capacidade computacional necessária para treinar e alimentar sistemas de inteligência artificial. Mas um rascunho de relatório do Departamento do Tesouro norte-americano alerta que as empresas de IA estão hoje mais enraizadas na economia do que as “dot-com” estavam antes do colapso do início dos anos 2000.
O apetite de Wall Street pela inteligência artificial não dá sinais de abrandar. A Nasdaq abriu esta semana em alta, com os títulos tecnológicos a prepararem-se para dias de forte negociação. Numa vitória para a Casa Branca, grandes bancos e plataformas financeiras estão a avançar num terreno que a administração Trump ambicionava há um ano: a criação de mercados de futuros para “compute”, isto é, para a energia e a capacidade de processamento necessárias para treinar e operar sistemas de inteligência artificial.
Bolsas como a CME e a ICE anunciaram planos para lançar contratos de futuros sobre capacidade computacional, uma iniciativa que o presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink, já classificou como o nascimento de “uma nova classe de activos”. Na Conferência Global do Instituto Milken, em Beverly Hills, Fink defendeu que os Estados Unidos não têm capacidade computacional, chips nem memória suficientes, comparando o “compute” a matérias-primas como a energia ou os produtos agrícolas — recursos que as empresas poderão agora gerir através de contratos de futuros, à semelhança do que já fazem para se protegerem das oscilações do preço dos combustíveis.
Segundo a Politico, entre os nomes mais influentes das finanças que estão a apoiar este esforço contam-se o próprio Larry Fink e Don Wilson, fundador da corretora DRW. Wilson reconheceu que gigantes tecnológicas como a Meta e a Google beneficiam actualmente de um sistema de preços pouco transparente e “empacotado”, e defendeu que um mercado de futuros para capacidade computacional poderá resolver a falta de instrumentos de gestão de risco que há muito trava o investimento pesado em centros de dados. Alguns dos entusiastas deste mercado acreditam que ele poderá rivalizar, em escala, com o mercado energético global, avaliado em seis biliões de dólares.
Ainda assim, há sinais de alerta. Um rascunho de relatório interno do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, avançado pela NOTUS, compara os riscos do actual boom da inteligência artificial à bolha das “dot-com”, que abalou a economia norte-americana no início dos anos 2000. Segundo analistas de carreira do Tesouro citados no documento, as empresas de IA estão hoje mais profundamente entrelaçadas com o resto da economia do que as suas antecessoras da internet, representando um risco significativo para todo o sistema financeiro caso as condições financeiras mudem, os objectivos de produtividade não sejam atingidos ou surjam estrangulamentos ao crescimento do sector.
O relatório alerta que, se as grandes empresas de IA ficarem aquém das expectativas, os efeitos poderão propagar-se a todo o sistema financeiro — dos grandes bancos aos fundos de retorno absoluto, passando pelos credores privados —, dado o elevado grau de interligação entre as principais empresas do sector e os diferentes mercados em que operam. Ainda assim, os autores concluem que o rebentar de uma eventual bolha da IA teria um impacto imediato menos severo do que o colapso das “dot-com”, ainda que preveja um abrandamento económico, perda de confiança dos investidores e cortes de despesa por parte das empresas caso o sector desilada.
Um porta-voz do Tesouro norte-americano desvalorizou o documento, dizendo que não reflectea posição oficial da administração Trump, segundo a qual “a inteligência artificial será um motor fundamental para a nova Era de Ouro da América”.