China, Índia, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Turquia e Iraque estão entre os parceiros comerciais de Teerão mais expostos à nova ofensiva económica norte-americana. Secretário do Tesouro fala em derrubar o “regime assassino” iraniano. Teerão acusa Washington de “terrorismo económico” e promete recorrer a “todos os meios” para se defender.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impor “consequências económicas tremendas” a qualquer país que faça negócios com o Irão, sem, no entanto, especificar que medidas tenciona tomar. A ameaça surge como o mais recente esforço de Trump para isolar o país da economia global e pressionar a liderança iraniana a negociar o fim da guerra.
Os Estados Unidos já impuseram sanções fortemente penalizadoras à economia e à liderança iranianas, e a administração Trump tem sancionado, no passado, empresas e organizações estrangeiras que negoceiam com Teerão. A publicação de Trump nas redes sociais, com uma formulação vaga, pareceu sugerir que o Presidente poderá visar países que compram petróleo iraniano, sem nomear nenhum em concreto. Trump já recuou, noutras ocasiões, deste tipo de ameaças. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, desvalorizou o novo aviso, classificando-o como “uma distração” das próprias crises internas dos Estados Unidos.
Bessent: “Vamos derrubar este regime”
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, avisou que os aliados que não apoiarem a guerra económica contra o Irão estarão contra os Estados Unidos, apontando a queda do “regime assassino” de Teerão como objectivo desta ofensiva. “Isto vai funcionar no Irão e vamos derrubar este regime”, declarou Bessent, em entrevista à CNBC, referindo-se à que descreveu como “a maior operação coordenada de isolamento económico do mundo” — reforçando declarações semelhantes do próprio Trump, que na véspera tinha anunciado “um dia D” contra a economia iraniana.
Bessent instou ainda a China a tomar medidas caso queira “o estreito [de Ormuz] reaberto” e “os preços da energia voltem a cair”, recordando que 50% da energia consumida pela segunda maior economia mundial tem origem no Médio Oriente. O secretário do Tesouro sustentou também que as sanções económicas tornam menos provável a retoma de operações militares em grande escala contra a República Islâmica — “por enquanto”, ressalvou.
Segundo uma análise recente da U.S.-China Economic and Security Review Commission, comissão criada pelo Congresso norte-americano para escrutinar as relações bilaterais com Pequim, a China é o maior parceiro comercial do Irão e o principal comprador do seu petróleo, chegando a adquirir até 90% das exportações petrolíferas iranianas — ainda que, nos últimos meses, a capacidade do Irão de escoar petróleo por via marítima tenha sido praticamente cortada por um bloqueio naval norte-americano. No ano passado, Pequim estimou o comércio bilateral com Teerão em cerca de 10 mil milhões de dólares, valor que exclui o petróleo.
Para a China, porém, esse montante é residual face à dimensão da sua economia. “Não seria catastrófico para a China se o seu comércio ou a sua capacidade de importar petróleo iraniano fossem afectados”, disse William Figueroa, especialista em relações sino-iranianas da Universidade de Groningen, na Holanda. Segundo Andrea Ghiselli, cientista político da Universidade de Exeter especializado na China, a maior vantagem que Pequim retira desta relação comercial é geopolítica, havendo interesse chinês em preservar o regime iraniano como um entrave aos Estados Unidos — ainda que a fatia de petróleo importada do Irão seja, segundo Ghiselli, marginal e facilmente substituível por outras fontes no mercado global. Questionado sobre eventuais medidas económicas coercivas dos EUA, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, apelou à resolução das diferenças por via diplomática: “Sanções e pressão não vão ajudar a resolver o problema.”
A Índia, outrora o principal fornecedor energético do Irão, viu o comércio bilateral encolher drasticamente devido às sanções norte-americanas: segundo dados oficiais da embaixada indiana no Irão, o comércio bilateral total no ano fiscal de 2025-2026 foi de 1,63 mil milhões de dólares, uma quebra acentuada face aos mais de 17 mil milhões registados em 2018-2019. A Índia deixou de comprar petróleo iraniano em 2019, sob pressão de Trump, importando actualmente sobretudo maçãs, pistácios, tâmaras e kiwis do Irão.
Segundo Esfandyar Batmanghelidj, director executivo da think tank londrina Bourse & Bazaar Foundation, especializada na economia iraniana, quatro outros parceiros comerciais do Irão surgem como particularmente vulneráveis à ameaça de Trump. Os Emirados Árabes Unidos anteciparam-se às declarações do Presidente, anunciando na quarta-feira a suspensão de todas as transações comerciais e financeiras com o Irão — um comércio bilateral avaliado, segundo dados da Organização Mundial do Comércio, em cerca de 28 mil milhões de dólares em 2024. Segundo Batmanghelidj, a decisão emiratense pode afectar a capacidade dos importadores iranianos de pagar por bens, uma vez que grande parte dos serviços financeiros ligados a este comércio passa pelos Emirados.
Já o Paquistão e a Turquia têm estado, até agora, relativamente protegidos das medidas económicas norte-americanas contra Teerão, apesar de manterem um comércio terrestre significativo com o Irão — em 2022, último ano com dados disponíveis da OMC, o Irão importou mais de 11 mil milhões de dólares em bens turcos, o terceiro maior volume de importações do país nesse ano. Para ambos os países, sublinha Batmanghelidj, “é política e geopoliticamente muito importante manter uma boa relação com o Irão. E é aqui que a administração Trump vai realmente ter dificuldades.” Burcu Ozcelik, investigadora do think tank londrino Royal United Services Institute, aponta ainda o Iraque como vulnerável à pressão económica norte-americana, devido ao comércio que mantém com o Irão — sanções dos EUA já visaram grupos ligados a Teerão em território iraquês. Segundo Ozcelik, porém, sanções mais amplas aos parceiros comerciais do Irão seriam muito mais complexas de aplicar, com uma implementação que “será lenta, desigual e difícil de monitorizar”, sendo incerto que “uma maior pressão produza o comportamento político que Trump procura”.
Teerão fala em “terrorismo económico”
O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano reagiu classificando as sanções e a “guerra económicas” anunciadas por Trump como um caso de “terrorismo económico” e de “crimes contra a humanidade”. “Não há dúvida de que as sanções económicas norte-americanas contra o Irão, que violam os direitos fundamentais de todos os cidadãos iranianos, constituem um caso de terrorismo económico e de crimes contra a humanidade”, declarou a diplomacia iraniana em comunicado divulgado pela agência estatal IRNA, acrescentando que “os seus autores e instigadores merecem ser julgados e punidos por terem cometido tais crimes hediondos”.
Segundo o ministério, com base na “experiência de sete décadas de resistência abrangente contra as políticas dos Estados Unidos de pressão, intervenção, agressão militar e terrorismo de Estado”, o Irão “recorrerá a todos os meios e capacidades para repelir a agressão do inimigo israelo-americano e salvaguardar os interesses nacionais”. O comunicado acrescenta ainda que “qualquer Governo que acredite nos princípios e objetivos da Carta das Nações Unidas, incluindo o princípio do respeito pela soberania nacional dos países, não pode permanecer indiferente à persistência do flagrante desrespeito pela lei e da beligerância dos Estados Unidos em relação às normas internacionais fundamentais”.