O Presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou “atingir duramente” o Irão, depois de os dois países terem trocado ataques directos pela primeira vez em mais de um mês — um episódio que reacende os riscos de escalada num conflito que, nos últimos meses, se tinha deslocado sobretudo para o terreno económico. Mas o ceticismo entre analistas é generalizado: tanto a vontade política da Casa Branca como, sobretudo, a capacidade militar efectiva dos Estados Unidos para sustentar uma nova ofensiva prolongada estão hoje em causa.
O Irão lançou, durante a noite, mísseis contra duas bases aéreas norte-americanas na Jordânia, em resposta a um ataque dos Estados Unidos à Ilha de Larak, no Irão, onde Washington afirma ter atingido lançadores iranianos que estariam a colocar minas no Estreito de Ormuz. O episódio ilustra a rapidez com que um conflito que tem sido travado sobretudo através de sanções, bloqueios e pressão económica pode voltar a resvalar para acção militar directa. Ainda assim, nenhum dos lados parece querer, para já, um regresso à guerra a larga escala: ambos sinalizaram apenas disponibilidade para responder a novos ataques, sem escalar activamente a situação. “Vamos atingi-los duramente”, disse Trump, segundo a Fox News, enquanto no Salão Oval descrevia o Irão como uma “nação falhada”, com a economia e as forças armadas “severamente danificadas”.
Este confronto directo ocorre num momento em que a guerra, iniciada com ataques dos Estados Unidos e de Israel a 28 de Fevereiro deste ano — e que já resultou na morte do então líder supremo iraniano, o aiatola Ali Khamenei, substituído pelo filho, Mojtaba Khamenei —, entrou numa fase de impasse diplomático há seis meses, com Washington a reforçar recentemente as sanções secundárias contra Teerão e os seus parceiros comerciais. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, à margem da reunião de ministros das Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, afirmou que a retoma dos confrontos mostra que o Irão está a “reagir com fúria” precisamente porque as novas sanções estão a infligir um custo pesado à já debilitada economia iraniana.
Um ataque que talvez nunca tenha acontecido
O episódio ganhou um contorno adicional quando Trump publicou nas redes sociais vídeos que mostravam alegados bombardeamentos norte-americanos contra alvos iranianos, incluindo imagens de explosões dramáticas na Ilha de Kharg — responsável por escoar cerca de 90% das exportações de petróleo do Irão, e cujo ataque provocaria enormes perturbações no comércio energético mundial e uma pressão brutal sobre a economia iraniana. Só que, segundo confirmou a Reuters através de software especializado em detectar imagens manipuladas por inteligência artificial, o vídeo publicado por Trump era muito provavelmente gerado sinteticamente. Um responsável norte-americano confirmou que as forças armadas dos EUA não tinham, de facto, atacado a Ilha de Kharg durante os ataques nocturnos, e um responsável iraniano classificou a publicação de Trump como “risível”.
O problema por trás da retórica: falta de munições
Ainda que Trump continue a ameaçar novos ataques, bombardeá-los de facto exige munições que o Pentágono está, segundo várias fontes, a ter cada vez mais dificuldade em disponibilizar. O Washington Post noticiou que líderes militares avisaram esta semana o secretário da Defesa dos EUA de que prolongar operações de grande escala contra o Irão é “insustentável”, e que isso enfraquecerá a capacidade militar norte-americana noutras regiões do mundo. Segundo o jornal, o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, alertou Trump e responsáveis seniores, numa reunião na Casa Branca, que a escassez de munições críticas poderá complicar o planeamento militar e aumentar os riscos para o pessoal norte-americano destacado na região.
Segundo especialistas citados por vários órgãos de comunicação norte-americanos, a maior preocupação recai sobre os interceptores de defesa antimísseis, cujo stock está particularmente esgotado depois de meses de utilização intensiva na defesa de Israel e no apoio militar à Ucrânia. Kelly Grieco, especialista em política de defesa do Stimson Center, alertou que, se os Estados Unidos tivessem usado cerca de metade do seu stock de mísseis interceptores desde o início do conflito, poderiam ficar sem eles num período de apenas um mês, caso o Irão retomasse um ritmo de lançamento de mísseis semelhante ao registado nos primeiros dias da guerra. Segundo Grieco, cada míssil ou interceptor utilizado no Irão deixa de estar disponível para outra região do mundo — e “é possível gastar estes recursos muito mais depressa do que é possível repô-los”.
Para além da questão puramente militar, o prolongamento deste conflito tem também um custo político para a própria capacidade de influência internacional de Trump. Segundo o director editorial da revista Foreign Policy, a guerra “danificou quase irreparavelmente a caixa de ferramentas de política externa” do Presidente norte-americano. Ainda assim, segundo o mesmo responsável, Trump continua a dispor de “poderosas ferramentas económicas” que pode usar como arma de pressão contra aliados e adversários — mas, com o desgaste acumulado deste conflito, países e empresas em todo o mundo tenderão a perceber que a capacidade de intimidação militar e diplomática de Trump “já atingiu o seu pico”.
Um conflito cada vez mais travado pela via económica
Seis meses depois de terem começado os ataques directos, a guerra entre os Estados Unidos e o Irão parece ter entrado numa fase em que a pressão económica — sanções, bloqueios e restrições comerciais — se tornou o principal instrumento de ambos os lados, mais do que a acção militar directa. Trump ainda não conseguiu alcançar os objectivos que definiu no início do conflito: desmantelar o programa nuclear iraniano, reduzir a capacidade do país de atacar rivais regionais na região, e criar condições para que os próprios iranianos derrubassem os seus líderes clericais. É precisamente essa distância entre os objectivos anunciados e os resultados obtidos até agora que, segundo analistas, torna pouco provável que a mais recente ameaça de Trump se traduza, de facto, numa nova ofensiva militar de grande escala — mais um sinal retórico de força, num momento em que a capacidade real dos Estados Unidos para a sustentar continua a ser posta em causa tanto pelos seus próprios generais como pelos analistas internacionais.