Internacional

Só a Índia deverá juntar-se às grandes potências até 2050. Entre as potências médias não está nenhum país africano

Projecções da Universidade de Denver, nos Estados Unidos, apontam para um futuro pouco animador às chamadas potências médias: até 2050, apenas a Índia deverá conseguir juntar-se ao grupo restrito das grandes potências, enquanto a maioria perde peso relativo face a um mundo cada vez mais dominado pelos Estados Unidos e pela China. Em África, é a Nigéria — e não a África do Sul — que surge como o país com a trajectória mais promissora.

Este tem sido um ano fora do comum para as potências médias, notou a revista norte-americana “Foreign Policy” na sua edição de julho. O mote foi dado pelo primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Davos, no início do ano, ao recorrer à expressão “estar à mesa ou no menu” para apelar a uma aliança dos países que não integram o clube das grandes potências. O presidente do Instituto de Crescimento Económico de Nova Deli, o indiano N. K. Singh, foi mais longe e escreveu, na revista do Fundo Monetário Internacional, que se vive hoje “o momento das potências médias”.

Apesar do entusiasmo, as projeções para 2050 antecipam que apenas a Índia consiga entrar no clube dos grandes. A maioria das potências médias perderá peso relativo nas relações de poder a nível global, e só a Indonésia, a Turquia e o Paquistão deverão conseguir ascender a esse grupo, segundo as projeções do Frederick S. Pardee Institute, da Universidade de Denver, nos Estados Unidos, que desenvolveu um Índice de Poder Global assente em dimensões como a capacidade militar, a demografia, o poder económico, a tecnologia e as relações internacionais.

O conceito de “potência média” não tem uma definição única. Para o economista norte-americano James K. Galbraith, o mais correcto será falar de potências “intermédias”, ao referirmo-nos aos países situados entre o clube dos mais poderosos e o resto do mundo.

Anthony Dworkin, investigador do European Council on Foreign Relations (ECFR), distingue duas leituras diferentes do conceito. Por um lado, há quem use a expressão para descrever países liberais, tradicionalmente aliados dos Estados Unidos, que hoje se sentem abandonados por Washington perante o afastamento norte-americano de uma ordem internacional baseada em regras — países que têm, por isso, incentivo a cooperar entre si para reduzir a exposição à coerção das grandes potências, seja da China, dos Estados Unidos ou, em termos militares, da Rússia. Por outro lado, existe uma segunda leitura, mais centrada em países do chamado Sul Global que se sentem sub-representados nas instituições internacionais — casos do Brasil, da Índia, da Indonésia, do México, da Turquia, dos países do Golfo e da África do Sul, que constituem parte significativa dos BRICS+ e do G20. Para estes últimos, segundo Dworkin, o confronto entre grandes potências abre uma verdadeira janela de oportunidade para afirmarem um papel mais relevante nos assuntos regionais e mundiais, através de iniciativas de mediação de paz, corredores comerciais ou alternativas ao dólar.

O académico italiano radicado nos Estados Unidos Giulio Gallarotti destaca três formas através das quais as potências médias exercem influência: atuando como agentes diplomáticos e construtores de coligações a nível regional e global; alinhando-se com uma das superpotências para ganhar maior capacidade de influência; ou destacando-se pela inovação tecnológica, alcançando peso acrescido na era digital.

Já Deborah Elms, responsável pela área de política de comércio internacional na Hinrich Foundation, em Singapura, e fundadora do Asian Trade Centre, considera que a janela de oportunidade para as potências médias deverá manter-se aberta durante bastante tempo. A investigadora traça um “manual de sobrevivência” para estes países em tempos económicos turbulentos, apontando três caminhos possíveis: gerir a situação actual como algo temporário, optar claramente por um dos lados — sobretudo entre Estados Unidos e China —, ou procurar parcerias selectivas fora das duas superpotências. Um dos acordos recentes citados como exemplo é o Acordo Conjunto de Defesa assinado em Meca, entre a Arábia Saudita, o Paquistão — potência nuclear — e a Turquia, o segundo maior exército da NATO em efectivos militares.

Um grupo restrito, com pouco espaço de manobra

Segundo os critérios do Índice de Poder Global da Universidade de Denver, o núcleo das grandes potências está hoje limitado a um G3 composto por Estados Unidos, União Europeia e China, cada bloco com um peso superior a 18% no poder global — o índice só considera “grande potência” blocos ou países com peso acima de 5%. Fora da União Europeia, apenas nove países são classificados como potências médias, com pesos entre 1% e 5%: Reino Unido, Índia, Japão, Rússia, Coreia do Sul, Canadá, Arábia Saudita, Austrália e Brasil, segundo Collin Meisel, responsável pelo índice no Frederick S. Pardee Institute. Nenhum país africano integra, para já, este grupo restrito.

Para Eduard Jordaan, académico da Universidade de Rhodes, na África do Sul, o próprio conceito de potência média já perdeu grande parte da sua utilidade analítica, considerando difícil enquadrar países “enormes e poderosos” como a Índia e o Brasil nesta categoria. O investigador é ainda céptico quanto ao futuro espaço de manobra destes países: à medida que o sistema internacional se torna mais multipolar, argumenta, as preocupações com segurança tendem a sobrepor-se a outras agendas, reduzindo a margem de acção das potências médias.

As projecções da Universidade de Denver para os próximos 25 anos não são famosas para a maioria das potências médias. A transição mais marcante até 2050 será a ultrapassagem, pela China, do poder combinado dos Estados Unidos e da União Europeia, com o peso conjunto de Washington e Pequim a subir de 42% para 45% do poder global. A Índia deverá passar a valer mais do que a Alemanha, a França e a Itália juntas, enquanto a União Europeia perderá cerca de cinco pontos percentuais de peso relativo. Entre as potências médias actuais, apenas a Indonésia deverá conseguir entrar nesse grupo, com a Turquia e o Paquistão a ficarem “à porta” — sendo a Índia o único país do chamado Sul Global a conseguir efectivamente o salto para o clube das grandes potências.

África: Nigéria e Etiópia em ascensão, África do Sul estagna

Embora o Índice de Poder Global da Universidade de Denver não integre, para já, nenhum país africano no grupo das potências médias, um outro estudo do mesmo Pardee Institute — desenvolvido em parceria com o Institute for Security Studies (ISS), sob o título “Africa in the World” — debruça-se especificamente sobre a trajetória de poder dos chamados “Big Five” africanos: Argélia, Egito, Etiópia, Nigéria e África do Sul. Juntos, estes cinco países representam hoje cerca de 60% da economia africana, 40% da população do continente e 58% da despesa militar de toda a África — um peso que, segundo os investigadores, deverá manter-se estável nos próximos 25 anos.

Segundo este estudo, a Nigéria é o país africano com a trajectória mais promissora: já a maior economia do continente, deverá representar quase 3% da economia mundial até 2040, e prevê-se que ultrapasse os Estados Unidos como terceiro país mais populoso do mundo pouco depois dessa data. Por volta de 2050, Nigéria e Egito deverão consolidar-se como as duas maiores economias africanas, equiparáveis ao Vietname, à Arábia Saudita ou aos Países Baixos, entrando ambos no grupo dos 20% de economias mais fortes do mundo. A Etiópia é o outro país identificado pelo estudo como estando numa clara trajetória ascendente em termos de capacidade de poder, ao lado da Nigéria.

Já o Egito, a África do Sul e a Argélia — apesar de continuarem entre as maiores economias e potências militares do continente — deverão estagnar ou registar um ligeiro declínio no seu peso relativo a nível global, segundo as mesmas projeções. O estudo do ISS/Pardee sublinha, aliás, que o futuro deste grupo de cinco países será decisivo para determinar se, de facto, “África está a ascender” no tabuleiro geopolítico mundial: caso estes Estados estagnem ou regridam, argumentam os autores, dificilmente o continente no seu conjunto conseguirá reforçar o seu peso global.

Por fim, mesmo o termo “Sul Global” está longe de reunir consenso entre os especialistas ouvidos. Deborah Elms diz não estar segura de que a expressão alguma vez tenha feito sentido; Eduard Jordaan alerta para a “demasiada diversidade” que caracteriza os países agrupados sob esse rótulo; e James Galbraith compara-o ao antigo conceito de “Terceiro Mundo” — uma abstração que, “quanto mais de perto se olha, mais complexa” se revela. Já Giulio Gallarotti não hesita em classificar a expressão como “um estereótipo”.

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