A Zâmbia vai hoje, dia 13, às urnas numa eleição que é simultaneamente presidencial, legislativa e local, mas queultrapassa claramente a política interna do país. O resultado poderá ter consequências importantes para Angola, país com o qual partilha uma fronteira de 1.100 quilómetros. O futuro do Corredor do Lobito e do comércio de minerais estratégicos da África Austral estão particularmente em jogo neste pleito. Cerca de oito milhões de zambianos são chamados às urnas e o Presidente Hakainde Hichilema procura um segundo mandato.
Hakainde Hichilema, de 64 anos, eleito em 2021, apresenta como principais argumentos de campanha a recuperação económica, a reestruturação da dívida e a atracção de investimento para o sector mineiro. O cobre está no centro da estratégia económica zambiana, num momento em que a procura mundial por minerais críticos aumentou devido à transição energética.
Apesar dos indicadores macroeconómicos mais favoráveis, o Governo enfrenta descontentamento devido ao custo de vida, ao desemprego, aos preços dos alimentos e aos problemas de fornecimento de electricidade. Aliás, o aumento do custo de vida é mesmo o grande trunfo de Brian Mundubile, de 55 anos, o principal candidato da oposição apoiado pela Patriotic Front (PF), partido que esteve no poder de 2011 a 2021. Mundubileprocura capitalizar precisamente esse desfasamento entre a recuperação económica e as condições de vida de uma parte significativa da população.
Angola ganha importância através do Corredor do Lobito
É aqui que as eleições zambianas assumem especial interesse para Angola. A Zâmbia é um dos três países directamente ligados ao Corredor do Lobito, juntamente com Angola e a República Democrática do Congo (RDC). O corredor estabelece uma ligação ferroviária de cerca de 1.300 quilómetros entre a região mineira do Copperbelt e o Atlântico, através do Porto do Lobito.
Para a Zâmbia, esta ligação pode significar uma nova alternativa para exportar cobre e outros minerais para os mercados internacionais, reduzindo a dependência das tradicionais rotas orientais.
Para Angola, significa transformar o Lobito numa das principais portas de saída dos minerais da África Austral e aumentar as receitas associadas ao transporte ferroviário, logística portuária e serviços.
O projecto ganhou novo impulso em 2026, com os três países a acordarem medidas para acelerar o desenvolvimento do corredor.
O cobre coloca Angola e Zâmbia no centro da disputa global
A eleição ocorre precisamente num momento em que o cobre se tornou um activo geopolítico. A Zâmbia pretende aumentar significativamente a sua produção, enquanto Estados Unidos, União Europeia e China disputam acesso aos minerais necessários para a transição energética e para as indústrias tecnológicas.
O Corredor do Lobito tornou-se, por isso, muito mais do que uma infraestrutura ferroviária: é uma rota estratégica para os minerais críticos africanos.
Para Angola, uma eventual continuidade de Hichilema poderá favorecer a previsibilidade das relações económicas e da cooperação no corredor. Uma mudança de Governo não significaria necessariamente uma ruptura, mas poderia trazer uma revisão das prioridades económicas, das condições de exploração mineira e da estratégia de relacionamento com investidores estrangeiros.
A relação Angola–Zâmbia
Além do Lobito, os dois países têm uma relação estratégica no quadro da SADC, partilham uma fronteira e têm interesses comuns em matéria de segurança, comércio, transportes e integração regional.
A aproximação económica tende agora a ganhar uma nova dimensão: Angola dispõe da saída para o Atlântico; a Zâmbia dispõe de enormes recursos minerais. O desafio é transformar essa complementaridade numa cadeia de valor regional, em vez de limitar o corredor ao simples transporte de minério.
Essa questão é particularmente importante porque estudos recentes defendem que Angola, Zâmbia e RDC devem procurar captar maior valor através do processamento local, conteúdo nacional e desenvolvimento de fornecedores, e não apenas através da exportação de matérias-primas.
Resumindo: o resultado eleitoral de hoje em Lusaca interessa a Luanda porque poderá influenciar o futuro de uma das principais apostas económicas de Angola para a próxima década: transformar o Corredor do Lobito numa grande rota de exportação de cobre e outros minerais da África Austral para o mercado mundial.
Se Hichilema vencer, a continuidade parece ser o cenário mais provável para a cooperação com Angola e para o desenvolvimento do corredor. Mas o verdadeiro teste será saber se a Zâmbia conseguirá transformar o aumento das receitas do cobre em benefícios para a população — e se Angola conseguirá fazer do Lobito não apenas uma rota de trânsito, mas uma plataforma industrial e logística regional.