A Moove, unicórnio tecnológico nascido na Nigéria e parceira da Uber no financiamento de veículos na África Subsariana, está a ponderar retirar-se do mercado nigeriano, na sequência da saída abrupta da plataforma de transporte por aplicação do país, na semana passada.
A empresa, que começou há cinco anos a disponibilizar viaturas novas a motoristas nigerianos da Uber, através de um plano de pagamento indexado aos ganhos diários dos condutores, prepara-se para deixar o país depois de a retirada surpreendente da Uber ter tornado o seu negócio local insustentável, segundo avançou uma fonte com conhecimento directo dos planos da empresa. A Moove não respondeu de imediato a pedidos de comentário. O plano de saída tinha já sido noticiado anteriormente pela newsletter tecnológica Notadeepdive, sediada em Lagos.
A Uber confirmou, numa comunicação aos utilizadores, que a sua plataforma deixou de operar na Nigéria a 2 de Setembro, terminando assim uma presença de 12 anos no maior mercado da África Ocidental, com o apoio ao cliente a manter-se activoapenas até 23 de Setembro para regularizar contas pendentes. A empresa encerrou, no mesmo dia, também as operações no Uganda, no âmbito de uma reestruturação global que já levou ao corte de 3.300 postos de trabalho em todo o mundo, à medida que a Uber redirecciona recursos para a sua aposta de dez mil milhões de dólares em veículos autónomos.
A decisão da Uber surge após anos de fortes pressões macroeconómicas sobre o negócio no país: a eliminação dos subsídios aos combustíveis pelo governo federal nigeriano, associada à desvalorização da naira e a uma inflação persistente, disparou os custos de combustível e manutenção dos veículos. Como as tarifas cobradas aos passageiros não acompanharam a inflação, as margens dos motoristas colapsaram, dando origem a greves e protestos de condutores em 2023 e 2025, exigindo condições mais justas.
O impacto mais imediato da saída da Uber recai sobre os cerca de dez mil motoristas que dependiam da plataforma, muitos dos quais financiaram os seus veículos precisamente através da Moove, empresa lançada em Lagos em 2020 como parceira exclusiva da Uber na África Subsariana. Até 2023, a Moovetinha colocado cerca de cinco mil unidades do modelo Suzuki S-Presso — os populares “Uber Korope” — nas ruas de várias cidades nigerianas, com contratos que obrigavam os motoristas a pagamentos diários de cerca de 9.400 naira, ao longo de períodos entre 36 e 48 meses, com as prestações indexadas a uma percentagem dos ganhos semanais na plataforma.
Face ao anúncio da Uber, a Moove reagiu rapidamente para proteger a sua carteira de crédito, autorizando os seus motoristas a passarem a trabalhar também para plataformas concorrentes, como a Bolt e a inDrive — uma medida que os próprios condutores há muito reclamavam, mas que, por si só, não recria o sistema de dados que sustentava o modelo de concessão de crédito da Moove, construído em torno do registo verificável dos ganhos semanais dos motoristas exclusivamente através da Uber.
A eventual saída da Moove da Nigéria ocorre num momento peculiar do seu percurso empresarial. A empresa tem vindo a expandir-se muito para além do financiamento de veículos, gerindo actualmentefrotas de robotáxis nos Estados Unidos para empresas como a Waymo, subsidiária da Alphabet. No mês passado, a Moove garantiu uma avaliação de dois mil milhões de dólares, tornando-se o mais recente unicórnio tecnológico africano — um estatuto atingido, em parte, graças a uma ronda de financiamento Série B de 100 milhões de dólares liderada pela própria Uber, em 2024.