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Jaqueline Fortes há 50 anos a dar voz à alma crioula na diáspora

Assinalam-se 50 anos de carreira de Jaqueline Françoise Fortes, uma das mais marcantes intérpretes da música cabo-verdiana, cuja voz atravessou fronteiras e gerações. Nascida em Dacar e criada longe de Cabo Verde, foi através da língua, da cultura e da música — com destaque para o incontornável “Dialogue” — que construiu uma ligação profunda às suas raízes, tornando-se um símbolo da identidade crioula na diáspora.

Assinalam-se este ano, os 50 anos de carreira musical daquela que é, reconhecidamente, uma das cantoras cabo-verdianas mais talentosas dos últimos tempos. Trata-se de Jaqueline Françoise Fortes, a cantora que marcou o seu nome na história da música mundial, com a sua música “Dialogue”, que retrata a descrição do “marido exemplar”.

No início do texto, disse que Jaqueline Fortes, era uma das cantoras cabo-verdianas “mais talentosas dos últimos tempos” . Essa catalogação, tem um sentido muito amplo, pois, remete-nos para uma reflexão sobre a cultura, educação e preservação dos valores ancestrais de Cabo Verde, na sua vastíssima diáspora!.

Como veremos mais abaixo, Jaqueline Fortes, é uma insigne intérprete do Crioulo de Cabo Verde, mas, nunca viveu no país.

Jaqueline Françoise Fortes, nasceu em Dakar, capital do Senegal, em 1954. Os pais da Sra Jaqueline são naturais do do Mindelo (Ilha de São Vicente) e são parte do grande movimento migratório que há muito tempo existe entre Cabo Verde e o Senegal.

Conta a mesma que os pais tiveram 9 filhos e ela foi a única que nasceu com o dom da música.

Aliás, essa migração de Caboverdianos do seu país para África (numa primeira fase e para o mundo posteriormente), não é algo recente.

Entre os anos 1800 e 1883, os Reinos de Portugal e da Bélgica, disputavam de forma muito competitiva, os direitos de navegação no Rio Zaire (entre Angola e o Congo Belga, hoje República Democrática do Congo), bem como disputas entre Portugal e o Reino Unido da Grã-Bretanha, pelos direitos de trânsito e navegação, nas regiões entre regiões do Barotze (partes do Moxico, Angola), passando pela Namíbia, Botswana, Zâmbia, Zimbábue, até à Moçambique, no célebre “Mapa Cor de Rosa”.

Com essas questões todas, depois de lobbies desenvolvidos pela Sociedade de Geografia de Lisboa, foi conseguida, com a intermediação do Chanceler alemão da altura, Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schönhausen, a realização da “Conferência de Berlim”, que realizou-se na Alemanha, entre 15 de Novembro de 1884 a 26 de Fevereiro de 1885 e que teve como deliberação central, a definição do “Princípio da Ocupação Efectiva”.

Ou seja, para uma potência colonial da época, definir um território como sendo “seu”, deveria ter população sua, nativa, a ocupar aquele território.

Nesta conformidade, segundo o senso populacional de 1864, Portugal tinha perto de 4 milhões e 188 mil habitantes. Ou seja, para poder “ocupar” efectivamente os territórios ultramarinos que tinha, teria que necessariamente recorrer à populações dos territórios que já tinha ocupado, e juntar aos colonos portugueses que tinha disponíveis para saírem do país.

Assim, como Portugal já tinha uma presença “efectiva” em Cabo Verde desde 1 de Maio de 1460, ou seja, há 426 anos até 1886, altura do desfecho da Conferência que ditou o princípio da “Ocupação Efectiva” dos territórios africanos por parte das potências colônias, foi mais prático retirar populações de territórios onde estava há mais tempo, para territórios onde tinha pouca população.

No caso particular de Angola, dois anos depois da realização da Conferência de Berlim, em 1888, começa a “grande corrida” pela colonização do interior do país, e nessa altura (1888), chegam os primeiros colonizadores ao Porto Amboim, com o objectivo de comercializar café e algodão. Em 1912, sob gestão do na altura 30° Governador Geral de Angola, o General e político português José Maria Mendes Norton de Matos, foram constituídas pela população local, as primeiras estradas do Porto Amboim para o interior de Angola (com enxadas e picaretas).

Segundo dados históricos, nessa altura, para cumprir com o princípio da “Ocupação Efectiva”, chegaram à Angola e Moçambique, muitos portugueses e acompanhantes, vindos de Cabo Verde e outras regiões onde Portugal já tinha uma maior presença efectiva. Em 1921, o General Norton de Matos regressa à Angola, nessa altura como o 37° Governador Geral de Angola, e patrocina o lançamento da Compania Angolana de Agricultura, C.A.D.A, igualmente na Província do Cuanza Sul, na Vila da Boa Entrada, naquela que foi considerada a ” Cidade Modelo Privada mais bem organizada do Mundo”, e que foi durante décadas , a maior produtora mundial de Café.

Voltando à nossa homenageada, apesar de ter nascido e vivido sempre fora de Cabo Verde, a cultura do seu país esteve muito presente na sua educação. O Crioulo, sua língua materna, era preservado no círculo familiar, bem como eram transmitidos à ela e aos seus irmãos, os valores da cultura de Cabo Verde.

Paralelamente ao facto de aprenderem linguas locais, havia a preservação da língua, hábitos e costumes de Cabo Verde dentro do círculo familiar.

Essa matriz, é encontrada em toda a disporá de Cabo Verde, facto que deve ser assinalado, pois, ao manter-se esse espírito, consegue -se ter uma ligação muito forte entre as populações distantes e a sua terra de origem (como veremos mais adiante).

Nisto tudo, nota-se que a cultura será eventualmente a maneira mais forte de manter a ligação entre o indivíduo e a sua terra de origem.

Em Cabo Verde, encontramos essa característica em múltiplos sectores da sociedade e com destaque positivo para a Cultura, que é muito dinamizada pelos cidadãos nacionais presentes no país, bem como os nascidos na diáspora.

Gostaria aqui de fazer um pequeno parêntesis para explicar o seguinte:

A chegada dos primeiros navegadores europeus às Ilhas à que se deu o nome de Cabo Verde, os ditos “Descobrimentos”, constituírem até ao presente momento um elemento de grande controvérsia histórica.

A 1 de Maio de 1460, o navegador português Diogo Gomes, anotava nos seus registos que tinha chegado à um pequeno grupo de quatro ilhas desabitadas, avistadas à Sotavento (lado do barco que solta o vento, de acordo com a colocação das velas. O lado do barco que recebe o vento é o Barlavento) da Nau que comandava.

Assim, nesta data, 1 de Maio de 1460, o navegador português Diogo Gomes, relatou que atracou a sua Nau na maior das quatro Ilhas, à que deu o nome de Santiago (as outras 3 ilhas do Sotavento de Cabo Verde são Maio, Fogo e Brava).

A Ilha de Santiago, que por sinal é a maior ilha de Cabo Verde, passou a ser a capital do arquipélago (Cidade da Praia) e também a primeira Ilha que os exploradores portugueses começaram a povoar no século XV.

Entretanto, outros historiadores, atribuem a “descoberta” de Cabo Verde, ao navegador e explorador Veneziano, Alvise Cadamosto, que em 1456, teria relatado ao Infante Dom Henrique a sua chegada às ilhas de Cabo Verde.

Porém, como exactamente neste ano, o Infante português faleceu, estando o navegador veneziano ao seu serviço, não sendo Alvise Cadamosto português, os seus relatos teriam sido “ignorados”, passando os créditos 4 anos depois para um navegador português.

No meio dessa explicação, a maior curiosidade está no facto de que inicialmente, ao chegar à grande Ilha à Sotavento da sua Nau, Diogo Gomes (também conhecido por Digo Gomes de Sintra), enviou um emissário à Corte, descrevendo que tinha chegado à “Cabo Verde”, neste caso, uma península na costa africana, que os exploradores portugueses “descobriram” em 1444, e fizeram dela um pequeno entreposto.

Porém, ao notar que a ilha estava “deserta”, deu conta que não se tratava de Cabo Verde, mas sim de um lugar novo, ao que deu o nome de Santiago.

O lugar à que inicialmente deram o nome de Cabo Verde, ficava em outro local.

Em 1857, os portugueses cederam o então Cabo Verde aos franceses que estabeleceram na península a cidade de Dakar. Portanto, o “primeiro” Cabo Verde, é hoje parte do Senegal.

Voltando à Jaqueline Françoise Fortes, tal como foi assinalado, facto curioso é que a mesma nunca viveu em Cabo Verde.

Em 1973, com 19 anos, Jaqueline começou a cantar com um grupo senegalês, que actuava em festas, restaurantes e fazia aparições em programas de entretenimento na televisão.

Porém, em casa, Jaqueline cantava em crioulo com os pais e outros familiares que conservavam as tradições de Cabo Verde.

A primeira vez que Jaqueline Françoise Fortes cantou em crioulo ao público de forma profissional, foi em 1978, quando deslocou-se à Dakar, o agrupamento musical Kings, idos de Cabo Verde para intercâmbio cultural.

Em Julho de 1979, Jaqueline Fortes visita pela primeira vez Cabo Verde (com 25 anos de idade), à convite das autoridades locais, para participar nas celebrações do dia da Independência Nacional (5 de Julho de 1975).

Diz quem viu que Jaqueline teve uma actuação “memorável” em cima de um camião, uma espécie de Trio Elétrico, que deu um grande show no Mindelo.

Na altura, Jaqueline actuou acompanhada novamente da banda Kings.

Depois dessa actuação de sucesso, Jaqueline Fortes rapidamente foi integrada na grande comunidade cultural Caboverdiana e em 1980, mudou-se do Senegal para Portugal, onde imediatamente recebeu o convite do grande cantor e promotor cultural Adriano Gonçalves, o nosso querido “Bana”, para trabalhar no espaço cultural que o mesmo fundou em Lisboa em 1976, o Montecara.

Jaqueline Fortes trabalhou um ano e meio com Bana no  Montecara em Lisboa. Nessa  altura, fruto do grande sucesso das suas músicas, gravou o seu primeiro álbum, logo no final de 1980, um LP (vinil) com o título “Jaqueline”, que teve o acompanhamento da banda Voz de Cabo Verde.

Em 1982, o sucesso de Jaqueline Fortes foi tal que a jovem cantora mudou-se para aquele que será eventualmente o “maior palco” cultural da comunidade Caboverdiana na diáspora, os Países Baixos ou simplesmente Holanda.

Jaqueline Fortes chegou assim à Roterdão e fixou residência naquela cidade até aos dias de hoje.

Em 1986, quatro anos depois de ter chegado à Roterdão, Jaqueline Françoise Fortes, lançou aquele que é o seu maior sucesso, o seu cartão postal, a música que a eternizou no livro das melhores músicas de Cabo Verde.

Nascia assim o LP (vinil) Dialogue, disco com 6 músicas (Dialogue, Cooperanti, Nha Coraçao Tchora, Pli Bel Femme Sur Te, Viagen De Costa, Pesca Ot Rume).

O disco, gravado na Holanda e remasterizado em França por Djó Silva e pelo mítico produtor Emanuel Lima, “Manu”, (também ele Caboverdiano nascido em Dakar, Senegal, membro da icônica banda Cabo Verde Show e que descobriu e produziu vários músicos como Olivier Ngoma e outros não menos celebres), Dialogue teve na música com o mesmo nome um sucesso estrondoso e intemporal.

Na música, Jaqueline descreve o personagem de duas jovens no Mindelo, que conversam sobre o comportamento dos seus respectivos maridos.

A primeira narradora, explica que fruto das infidelidades do marido, a mesma está muito angustiada e a sua saúde está muito complicada. Explica que a sua tensão arterial subiu, os nervos estão descontrolados, e que ela está a fazer tudo para manter a calma.

Segundo diz a personagem, o seu marido está constantemente a vaguear pelas ruas do Mindelo, sendo presença frequente na rua de Lisboa, onde é cliente assíduo dos Café Royal e Portugal.

Porém, alguém já lhe “soprou” que quando o marido sai desses cafés, andará por outras vias…

A primeira narradora diz que na sua inocência, ela fica em casa preocupada à espera do esposo, quando o mesmo está na sua “boa vida”.

Quando o mesmo chega à casa, diz que está cansado, que a “crise universal” está a tornar tudo caro, não há empregos etc…

Porém, a mesma diz que não é essa a realidade, pois, o mesmo esteve é na “boa vida”…

A segunda narradora entra em cena e diz que no caso dela é diferente. Explica que tem um marido “exemplar”, que apenas faz “casa, trabalho, trabalho, casa” e que não sabe vadiar.

Acrescenta que se o marido chega à casa e a encontra a cozinhar, ele próprio põe a mesa e cuida dos filhos (dá banho, muda as fraldas e põe a dormir).

Como tivemos a oportunidade de ver, Jaqueline Fortes é uma brilhante intérprete do Crioulo de Cabo Verde, facto que foi possível, devido à uma forte tradição oral existente entre as populações daquele país Atlântico.

Para percebermos um pouco mais sobre essa língua que como vimos, desde 1888 está “internacionalizada” pela África de língua oficial portuguesa, fizemos alguns estudos enciclopédicos. Segundo os mesmos, a história do crioulo cabo-verdiano é difícil de traçar devido, primeiro, à falta de registos escritos desde a formação do crioulo, segundo, devido ao ostracismo a que o crioulo foi relegado durante a administração portuguesa.

Existem presentemente três teorias acerca da formação do crioulo cabo-verdiano.

A teoria eurogenética defende que o crioulo foi formado pelos colonizadores portugueses, numa simplificação da língua portuguesa de modo a torná-la acessível aos nativos africanos.

É o ponto de vista de alguns autores como Prudent, Waldman, Chaudesenson, Lopes da Silva. A teoria afrogenética defende que o crioulo foi formado pelos nativos africanos, aproveitando as gramáticas de línguas da África Ocidental, e substituindo o léxico africano pelo léxico português.

É o ponto de vista de alguns autores como Adam, Quint, da teoria neurogenética que defende que o crioulo formou-se espontaneamente, não por africanos nascidos no continente, mas pela população nascida nas ilhas, aproveitando as estruturas gramaticais inatas com as quais todo o ser humano nasce.

É o ponto de vista de alguns autores como Chomsky, Bickerton, que explicam o porquê que os crioulos localizados a quilómetros de distância apresentam estruturas gramaticais similares, mesmo sendo de base lexical diferente.

O melhor que se pode dizer é que nenhuma dessas três teorias foi comprovada por unanimidade.

O vocabulário do crioulo cabo-verdiano vem em grande parte do português. Embora as diversas fontes não estejam de acordo, os números oscilam entre 90 a 95 % de palavras originárias do português.

O restante provém de diversas línguas da África Ocidental (mandinga, uolofe, fula, balanta, manjaco,
temne, etc.), e o vocabulário proveniente de outras línguas é diminuto (inglês, francês, latim, etc.).

O crioulo manteve alguns vocábulos que já caíram em desuso no português contemporâneo.

Outros vocábulos, embora persistem no português contemporâneo, ou mantiveram o significado que tinham outrora, ou sofreram evoluções semânticas.

Por exemplo:

Tchêu= Português = Cheio; Crioulo = Muito, Muitas, Muitos;

Papiâ= Português = Papear; Crioulo = Falar;

Afrónta = Português = Afronta, desafio; Crioulo = Resignar-se….

Para concluir, é importante referir que a gramática do crioulo cabo-verdiano é significativamente diferente da gramática do português.

Em contrapartida, apresenta muitas similaridades com outros crioulos, quer sejam de base portuguesa ou não.

Já a nossa Diva Jaqueline Fortes, em 1991, lançou o CD “Curaçon calma” e em 1997 lançou Valor di amor.
Em 2010, lançou o Terras d’nhas gente.

Desde então, Jaqueline Fortes é presença frequente em grandes espetáculos, concertos, actuações em casas de cultura etc, a cantar o que de melhor há de Cabo Verde.

Por: JMdS

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