O debate sobre os riscos e as promessas da inteligência artificial deixou de ser um assunto confinado a conselhos de administração e artigos académicos para se tornar um tema central da política e da diplomacia internacional. Líderes empresariais e governamentais oscilam entre um optimismo desenfreado e um pessimismo sombrio — por vezes debatendo-se com os dois em simultâneo.
De um lado, figuras como Jensen Huang, presidente executivo da Nvidia, têm vindo a rejeitar publicamente os cenários mais alarmistas. Em Maio, num podcast dedicado a temas de política tecnológica, Huang classificou como “ridícula” a ideia de que a IA possa eliminar todos os empregos de nível de entrada, e rejeitou igualmente estimativas de um risco existencial de 20% para a humanidade, defendendo que os líderes devem “ancorar-se aos factos”. Mais tarde, já na conferência GTC da própria Nvidia, insistiu que era preciso separar “riscos reais” de “pesadelos de ficção científica”.
Esta postura ganhou um aliado de peso na Casa Branca: o Presidente Donald Trump. Numa chamada telefónica feita ao vivo durante o All-In Summit, em meados de setembro, com Huang no palco, Trump classificou os alertas sobre os perigos da IA como uma “fraude” (“hoax”), sugerindo que os apelos para abrandar o desenvolvimento da tecnologia serviam interesses políticos ou, nas suas palavras, “poderiam ser da China”. Huang concordou publicamente com o Presidente. David Sacks, conselheiro da Casa Branca e copresidente do Conselho de Assessores em Ciência e Tecnologia, tem seguido uma linha semelhante, questionando as motivações das empresas que defendem um abrandamento (“deceleration”) no desenvolvimento de sistemas de IA. Também Satya Nadella, da Microsoft, defendeu recentemente que a difusão da tecnologia deve continuar, com a segurança a ser garantida “através de engenharia e transparência, e não de mistificação”.
Do outro lado do debate está Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic — uma das próprias empresas que constroem estes sistemas. Amodei tem repetido, em vários fóruns internacionais ao longo do ano, que a IA pode superar as capacidades cognitivas humanas dentro de poucos anos, estimando entre 10% e 25% a probabilidade de a tecnologia causar danos catastróficos caso não seja devidamente regulada. Em meados de Setembro, voltou a pedir um abrandamento no ritmo de desenvolvimento da IA: “Não vos vou mentir — há perigos reais”, afirmou, acrescentando que a indústria “mentiu durante demasiado tempo às pessoas sobre o facto de esta tecnologia ter riscos”. Um antigo investigador da Anthropic, Jacob Coxon, foi ainda mais longe, sugerindo que o desenvolvimento de uma superinteligência capaz de se autoaperfeiçoar poderia representar uma ameaça existencial para a humanidade.
A tensão entre os dois campos não é apenas ideológica, mas também estratégica: enquanto a Nvidia continua centrada na escala e na infraestrutura necessárias para expandir a IA, empresas como a Anthropic posicionam-se como guardiãs morais da tecnologia — uma postura que críticos como Huang consideram, no mínimo, contraditória, uma vez que essas mesmas empresas continuam a lucrar e a competir agressivamente no desenvolvimento dos sistemas que dizem temer.
No centro desta discussão está, no fundo, uma questão de previsão: quem acredita que a “cognição comoditizada” impulsionará um enorme salto de produtividade — posição partilhada por Huang, Sacks e vários executivos chineses do sector — ou quem, como Amodei, vê motivos de sobra para recear que a sociedade não tenha ainda a maturidade institucional para lidar com o poder que estas tecnologias prometem conceder.