Ao longo de mais de 20 anos de experiência em Recursos Humanos, entre o sector empresarial público e o sector mineiro, fui construindo a minha identidade profissional em contextos muito distintos.
Durante muito tempo, quando pensava na minha trajectória profissional, olhava sobretudo para aquilo que era mais fácil identificar: os estudos, as funções que desempenhei, as decisões que tomei e os objectivos que fui estabelecendo ao longo do caminho. Só mais tarde comecei a fazer-me uma pergunta diferente: quanto da profissional que sou, começou a ser construída muito antes do meu primeiro emprego? A pergunta surgiu com mais força quando comecei a olhar com outros olhos para a trajectória do meu Pai – militar, dirigente e Diplomata – pertenceu a uma geração marcada pelo sentido de missão, responsabilidade, disciplina, serviço e dever.
A minha trajectória seguiu um caminho completamente diferente, escolhi os recursos humanos e a gestão e fui, progressivamente, aproximando-me do estudo do comportamento humano, da liderança, do desenvolvimento organizacional e das pessoas. E durante muito tempo vi estas duas trajectórias simplesmente como percursos distintos, ou seja, o do meu Pai e o meu.
Hoje já não tenho tanta certeza disso, não porque tenha seguido a profissão do meu pai, não segui, mas porque começamos a construir a nossa relação com o trabalho muito antes de sabermos o que é uma carreira, pois observamos o que acontece a nossa volta. Observamos como os adultos lidam com: responsabilidade, autoridade, conhecimento, reconhecimento, sucesso, fracasso, poder e compromisso. Algumas dessas referências incorporamos, outras questionamos ou rejeitamos e, há ainda aquelas que transformamos sem sequer perceber de onde vieram.
No meu caso, começo a reconhecer algumas semelhanças, a responsabilidade é talvez das mais evidentes e o conhecimento poderá ser outra. O meu pai era um homem de uma cultura impressionante; muitas vezes parecia uma enciclopédia, eu transformei essa relação com o saber numa curiosidade quase incessante e numa necessidade permanente de aprender. Na liderança, porém, encontrei a minha própria forma, isto é, ao longo de mais de duas décadas em recursos humanos, fui percebendo que a minha forma de liderar também se foi construindo e transformando, procurei exercer uma liderança próxima e empática, embora exigente. Por outra, sempre acreditei que o conhecimento não deveria ficar concentrado em quem lidera e, ao liderar equipas sempre quis que as pessoas soubessem mais; aprendessem mais e, se desenvolvessem. E ensinar para mim, também fazia parte de liderar.
Talvez seja precisamente aqui que a reflexão sobre herança profissional se torne mais interessante: aquilo que herdamos nem sempre se manifesta em nós da mesma forma, podemos receber valores, referências e formas de interpretar o mundo e dar-lhes, através da nossa própria experiência, uma expressão diferente.
Há uma memória que hoje observo com particular interesse, numa conversa sobre uma decisão profissional que eu ponderava tomar, o meu pai falou-me da importância da dignidade dos trabalhadores e, foi ao revisitar a minha trajectória que me lembrei daquela conversa, na altura ouvi-a, sobretudo como um conselho, mas hoje, já com uma trajectória consolidada em recursos humanos, aquela conversa passou a ter outro significado para mim.
Deste modo, trabalhar em recursos humanos ensinou-me que uma organização pode ter processos, estruturas, resultados e objectivos extraordinariamente bem definidos, mas continua a existir por via de pessoas e a dignidade de quem trabalha não pode ser uma variável secundária da gestão. Ao longo da minha carreira, houve momentos em que defender soluções que considerava mais justas e equilibradas exigiu que assumisse posições difíceis e foram essas experiências que reforçaram em mim a seguinte convicção: os Recursos Humanos ocupam um lugar de equilíbrio, onde os objectivos da organização e a dignidade das pessoas não deveriam ser entendidos como interesses opostos. Foi assim, que comecei a refletir mais sobre o seguinte: talvez algumas das nossas convicções profissionais tenham raízes muito anteriores à profissão e, foi daí que o autoconhecimento também levou-me a questionar outra ideia: o que significa, afinal, ter sucesso profissional?
No início da minha carreira, queria ser chefe, queria ocupar posições de Liderança, ser respeitada e reconhecida pelos meus estudos e pelo conhecimento que procurava construir. Hoje, já não é isso que procuro, continuo a valorizar o conhecimento, o rigor, a responsabilidade e uma remuneração justa, mas passei a atribuir muito mais importância à paz, à autonomia, à família, ao tempo e à possibilidade de construir uma vida em que o trabalho tenha um lugar importante sem ocupar todos os lugares. Isto não significa que tenha deixado de ser ambiciosa profissionalmente, apenas mudou aquilo que considero ser uma carreira bem-sucedida. Hoje para mim, essa ideia passa também pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e, este novo modo de pensar talvez seja apenas uma redefinição da ambição.
Contudo, durante décadas fomos ensinados a representar o sucesso através de uma linha predominantemente ascendente: mais responsabilidade; mais poder; mais estatuto; mais rendimento; mais reconhecimento; mas amadurecer profissionalmente pode também significar descobrir que subir não é necessariamente a única forma de avançar, é possível que uma das etapas mais importantes de uma carreira aconteça quando deixamos de perguntar apenas «Até onde quero chegar?» e começamos a perguntar «Como quero viver enquanto lá chego?»
Ao revisitar a trajectória do meu pai, tenho pensado cada vez mais nestas questões, não procuro encontrar uma relação linear entre a história dele e a minha, isto seria demasiado simples atribuir aos nossos pais aquilo que somos. E hoje entendo que a identidade profissional constrói-se através de muitas influências, como: personalidade; educação; oportunidades; experiências; escolhas; relações; sucessos; erros e circunstâncias, onde a família também está lá presente e por vezes de forma silenciosa.
Talvez transportemos para o trabalho muito mais da nossa história familiar do que imaginamos: a forma como exercemos autoridade, como reagimos ao conflito, como procuramos reconhecimento, como lidamos com o conhecimento, como cuidamos dos outros e até aquilo que decidimos não repetir.
Por isso, olhar para a nossa trajectória profissional pode exigir, de vez em quando, um movimento aparentemente contrário: em vez de olharmos apenas para a frente, olhar também para trás, não para ficarmos presos àquilo que herdámos, mas para percebermos o que recebemos, o que transformámos e, sobretudo, o que escolhemos fazer diferente.
Por: Makiese de Carvalho- Gestora de Recursos Humanos | Desenvolvimento Organizacional e Comportamento Humano