Um navio de cruzeiro de luxo, com bilhetes entre 14 mil e 22 mil euros, partiu de Ushuaia em Março para ver pinguins e baleias. Chegou a Cabo Verde com três mortos, sete casos de hantavírus e 149 pessoas confinadas nas cabines. A OMS diz que o risco é baixo. As famílias aguardam em terra.
O MV Hondius, navio de cruzeiro de bandeira holandesa operado pela Oceanwide Expeditions, está ancorado ao largo da Praia, em Cabo Verde, desde domingo — sem autorização para atracar, sem autorização para desembarcar passageiros, e com equipas médicas a aceder a bordo com fatos de protecção integral. A bordo estão 149 pessoas de 23 nacionalidades. Três já morreram.
A viagem tinha sido comercializada como uma expedição de luxo à Antárctida, com preços entre os 14 mil e os 22 mil euros por pessoa. O navio partiu de Ushuaia, no sul da Argentina, em Março, e passou pela Antárctida, Falklands, Geórgia do Sul, Ilha Nightingale, Tristão da Cunha, Santa Helena e Ascensão antes de chegar às águas de Cabo Verde a 3 de Maio. Algures nesse percurso, o hantavírus entrou a bordo.
Sete casos, três mortos
A OMS confirmou esta segunda-feira que foram identificados sete casos de hantavírus a bordo — dois confirmados em laboratório e cinco suspeitos —, que incluem três vítimas mortais, um doente em estado grave e três pessoas com sintomas ligeiros.
As primeiras duas vítimas eram um casal holandês: um homem de 70 anos que morreu em Santa Helena a 11 de Abril, e a sua mulher, de 69 anos, que colapsou no Aeroporto O.R. Tambo, em Joanesburgo, e morreu na África do Sul. A terceira vítima, de nacionalidade alemã, morreu a bordo a 2 de Maio. Um passageiro britânico, que adoeceu gravemente a 27 de Abril, foi evacuado por via aérea e encontra-se em cuidados intensivos numa clínica privada em Joanesburgo.
O vírus dos roedores
O hantavírus é um vírus que infecta naturalmente roedores e é transmitido a humanos através do contacto com urina, fezes ou saliva de animais infectados. A transmissão entre pessoas, quando ocorre, tem sido associada a contacto próximo e prolongado. Os sintomas surgem geralmente entre uma e seis semanas após a exposição e incluem febre, dores musculares e sintomas respiratórios graves. Não existe tratamento específico — o apoio médico precoce é o factor determinante para a sobrevivência.
A origem do surto ainda não está determinada, mas a pista mais promissora aponta para a Argentina. Daniel Bausch, professor visitante do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, referiu que existe evidência de transmissão entre humanos no vírus dos Andes, uma variante encontrada na Argentina e no Chile, e que é “significativo” que o navio tenha iniciado a viagem em Ushuaia. Outra hipótese é que ratos a bordo tenham sido o vector de transmissão durante a viagem.
Navio retido em Cabo Verde
Cabo Verde não autorizou o desembarque nem a atracação, com o objectivo declarado de proteger a saúde pública nacional — uma decisão que a OMS considerou correcta e alinhada com os protocolos internacionais. A operadora está a avaliar a possibilidade de os passageiros serem transferidos para Las Palmas ou Tenerife, onde poderiam ser examinados e tratados. Todos os passageiros foram instruídos a permanecer nas cabines.
Do lado de dentro do navio, a tensão é visível. “Não somos apenas manchetes: somos pessoas com famílias, com vidas, com pessoas esperando por nós em casa”, disse Jake Rosmarin, um bloguer de viagens norte-americano a bordo, em vídeo publicado nas redes sociais. “Há muita incerteza e essa é a parte mais difícil.”
A OMS garantiu que o risco para o público em geral é baixo e que não há necessidade de restrições de viagem. Mas para quem está a bordo do Hondius, o problema não é abstracto — é a cabine fechada, o corpo do terceiro morto ainda a bordo até há poucas horas, e a incerteza sobre quando e onde poderão desembarcar.