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Estreito de Ormuz é o centro das tensões, uma nova “guerra dos petroleiros” ressurge com riscos militares e energéticos mais complexos

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural transaccionados no mundo, está novamente no centro de um cenário de elevada tensão geopolítica, com paralelos crescentes com a chamada “guerra dos petroleiros” dos anos 1980, mas num contexto militar e tecnológico significativamente mais complexo.

Os desenvolvimentos mais recentes incluem alegações de apreensões de navios por forças iranianas, a intensificação da presença naval dos Estados Unidos na região e declarações do Presidente norte-americano Donald Trump, que esta semana terá ordenado às forças militares que “atirem para matar” contra pequenas embarcações iranianas em caso de ameaça directa.

A actual escalada remete para a guerra Irão-Iraque (1980-1988), quando ambos os países atacaram petroleiros no Golfo Pérsico numa tentativa de estrangular economicamente o adversário.

Na altura, o Irão recorreu também à colocação de minas navais e a ataques a navios comerciais, enquanto os Estados Unidos lançaram a “Operação Earnest Will”, escoltando petroleiros no Golfo para garantir a circulação de crude para os mercados internacionais.

O balanço histórico desse período inclui episódios particularmente graves: o impacto de minas em navios sob escolta norte-americana, o abate do voo Iran Air 655 em 1988, com 290 mortos, e ataques a navios militares dos EUA por forças iranianas e iraquianas.

Apesar disso, a operação norte-americana conseguiu assegurar a passagem de cerca de 70 comboios de navios petroleiros.

O cenário actual é, contudo, mais complexo. As forças paramilitares iranianas têm recorrido a táticas assimétricas, usando pequenas embarcações civis armadas com metralhadoras e lança-foguetes para seguir, intimidar ou atacar navios comerciais.

Nos últimos dias, foram reportadas a captura de dois cargueiros por forças iranianas, com imagens divulgadas a mostrar embarcações ligeiras a abordar navios de grande dimensão, num sinal de capacidade operacional apesar dos recursos limitados.

Segundo analistas de segurança, esta estratégia demonstra que mesmo com meios reduzidos, Teerão consegue exercer pressão significativa sobre o comércio marítimo global e afetar o funcionamento do próprio estreito.

Escalada militar e dilema estratégico dos EUA

Os Estados Unidos têm reforçado a presença naval na região, numa tentativa de proteger o tráfego marítimo. No entanto, especialistas alertam que repetir hoje o modelo de escolta dos anos 80 seria muito mais difícil.

A evolução tecnológica — incluindo drones, mísseis de curto alcance e capacidades navais assimétricas — aumenta o risco de qualquer incidente desencadear uma escalada imediata.

Além disso, a ausência de objectivos militares claramente definidos complica a estratégia norte-americana. Ao contrário da lógica mais limitada da Guerra Fria, o actual contexto combina múltiplos objetivos políticos e militares, desde a protecção do comércio marítimo até à pressão sobre o regime iraniano.

Europa distante e mercado energético em alerta

Apesar da pressão de Washington, países europeus têm mostrado relutância em integrar missões de escolta naval, defendendo que tal só deverá ocorrer após uma estabilização do conflito.

Entretanto, os mercados energéticos mantêm-se altamente sensíveis a qualquer desenvolvimento na região, dado o peso estratégico do Estreito de Ormuz no abastecimento global.

Analistas de defesa sublinham que, ao contrário dos anos 80, não existe hoje uma solução simples de “contenção naval”. Um único ataque bem-sucedido — seja com mísseis, drones ou pequenas embarcações — poderia reabrir o ciclo de escalada militar.

Num cenário em que a guerra entre Irão, Estados Unidos e Israel já entrou numa fase de confrontação indirecta e instável, o Estreito de Ormuz volta assim a ser um dos pontos mais sensíveis da economia global — e um dos mais perigosos do sistema internacional actual.

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