O secretário-assistente de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos, Frank Garcia, iniciou este fim-de-semana a sua segunda digressão oficial ao continente desde que assumiu o cargo, em Junho, numa viagem que passa pela Zâmbia, Etiópia e Quénia entre 30 de Agosto e 10 de Setembro. O périplo surge poucas semanas depois da sua primeira visita ao continente, em Julho, que incluiu a Nigéria, a Costa do Marfim e o Mali, e reforça aquela que se tornou a marca registada da diplomacia africana da administração Trump: substituir a ajuda ao desenvolvimento por acordos comerciais.
Garcia deverá assistir, já esta segunda-feira, à tomada de posse do Presidente zambiano, Hakainde Hichilema, em Lusaka, antes de seguir para a Etiópia e terminar a viagem no Quénia — previsivelmente no Fórum Comercial EUA-África Oriental, em Nairobi. A cerimónia em Lusaka assinala o início do segundo mandato de Hichilema, reeleito a 18 de Agosto com cerca de 60% dos votos, segundo a Comissão Eleitoral da Zâmbia, batendo o principal adversário, Brian Mundubile, num processo que a oposição contestou por alegadas irregularidades.
Segundo o Departamento de Estado, a viagem tem como objectivo reforçar relações bilaterais-chave e promover parcerias económicas e de segurança partilhadas — com a possibilidade de a comitiva acrescentar outros destinos ao roteiro, caso sejam fechados novos acordos comerciais durante a digressão.
Entre os três países, a Zâmbia é, de longe, o parceiro mais sensível para Washington neste momento. As relações entre os dois países degradaram-se ao longo do último ano em torno de um pacote de assistência sanitária avaliado entre 1,5 e 2 mil milhões de dólares, que a administração Trump ligou a um maior acesso aos recursos minerais críticos zambianos — uma condicionalidade que Lusaka classificou publicamente de inaceitável. A tensão agravou-se ainda mais em Abril, quando o então embaixador norte-americano na Zâmbia, Michael Gonzales, denunciou, no discurso de despedida, aquilo que descreveu como corrupção institucionalizada no governo de Hichilema, associando o caso ao desvio de mais de 50 milhões de dólares anuais em medicamentos doados pelos Estados Unidos — acusações que o governo zambiano classificou como “levianas” e “pouco diplomáticas”.
É neste contexto de desconfiança mútua que Garcia chega a Lusaka, numa altura em que a Zâmbia continua a ser um dos países africanos mais cortejados pelas potências internacionais devido às suas reservas de cobre — mineral central para as cadeias de fornecimento de tecnologia e energia limpa a nível mundial.
O Corredor do Lobito como modelo declarado
É precisamente aqui que a Zâmbia se cruza directamente com Angola. Desde que assumiu funções, Garcia tem apontado repetidamente o Corredor do Lobito — a linha ferroviária de 1.300 quilómetros que liga o porto angolano do Lobito às regiões mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia — como o exemplo mais bem-sucedido da nova filosofia comercial da administração Trump para o continente. Em declarações feitas por ocasião da sua confirmação no Senado, Garcia descreveu o projecto como um modelo que une criação de emprego, integração regional e reforço de laços comerciais, e afirmou que toda a despesa norte-americana em África — incluindo a assistência humanitária e sanitária — passará a ser avaliada pela forma como contribui para os interesses de segurança nacional e económicos dos Estados Unidos.
Nesse sentido, o desfecho da tensão entre Washington e Lusaka em torno de minerais críticos tem implicações diretas para o principal projecto de infra-estrutura em que Angola está envolvida com os Estados Unidos: quanto mais a Zâmbia se aproximar — ou afastar — da lógica de “comércio por acesso a minerais” que caracteriza a nova política africana de Trump, maior ou menor tenderá a ser o investimento norte-americano na expansão e modernização do corredor ferroviário que liga o Lobito ao coração mineiro da África Central e Austral.
Se a Zâmbia representa a frente mais tensa desta digressão, o Quénia surge como o parceiro mais avançado na lógica de “comércio em vez de ajuda”. Washington e Nairobi realizaram, em Fevereiro, a primeira ronda de consultas para o desenvolvimento de um quadro de comércio recíproco, cobrindo áreas como tarifas, barreiras não pautais, produtos agrícolas, serviços, comércio digital, propriedade intelectual e segurança económica. O Quénia procura, assim, maior acesso ao mercado norte-americano e mais investimento directo — um objectivo que a passagem de Garcia por Nairobi, no fecho da viagem, pretende ajudar a consolidar.
O maior obstáculo: a capacidade de cumprir promessas
Analistas apontam, no entanto, que o verdadeiro desafio para Garcia não está tanto na retórica, mas na capacidade prática de a diplomacia norte-americana entregar resultados concretos. O secretário-assistente herdou um Bureau de Assuntos Africanos enfraquecido por cortes de pessoal e vagas prolongadas — a própria nomeação de Garcia só foi confirmada pelo Senado em Maio, depois de mais de um ano de vacatura no cargo mais sénior da diplomacia norte-americana para o continente, que chegou a ser gerido por uma sucessão de responsáveis interinos. Um antigo diplomata terá resumido o desafio de forma direta: os parceiros africanos “não se deixarão convencer apenas por palavras tranquilizadoras”, numa altura em que vários países continuam a sentir os efeitos práticos da retração da presença diplomática e da ajuda externa norte-americana em África.
Esta segunda digressão de Garcia representa, assim, um teste relativamente precoce, mas já revelador: mostrar se a doutrina de “comércio em vez de ajuda” da administração Trump consegue traduzir-se em acordos reais — no Quénia, onde as negociações já avançaram; na Etiópia, onde os Estados Unidos procuram reforçar relações estratégicas; e sobretudo na Zâmbia, onde a desconfiança acumulada em torno dos minerais críticos poderá determinar não só o futuro da relação bilateral, mas também o ritmo de investimento norte-americano num corredor de que Angola depende directamente para consolidar o Lobito como porta de saída atlântica dos minerais da região.