A semana passada trouxe sinais mistos para a economia norte-americana: a inflação abrandou ligeiramente em Julho, para 3,4% em termos homólogos, mas mantém-se bem acima dos níveis anteriores à guerra no Irão, enquanto as vendas a retalho caíram inesperadamente 0,6% — a maior quebra desde Maio de 2025 — à medida que o efeito dos reembolsos fiscais se dissipou. As vendas de casas usadas voltaram a recuar em Julho, penalizadas por preços recorde e taxas hipotecárias elevadas, apesar de estas terem registado um ligeiro alívio esta semana (6,67% na taxa fixa a 30 anos). Os pedidos de subsídio de desemprego subiram para 209 mil, mas mantêm-se em níveis historicamente saudáveis, com a taxa de desemprego a situar-se em 4,1%. Wall Street manteve-se perto dos seus máximos históricos, com os investidores a especularem que a fraqueza no consumo possa impedir a Fed de subir as taxas de juro, ainda que isso acarrete riscos de abrandamento económico.
Semana marcada por dados económicos contraditórios nos Estados Unidos: enquanto a inflação regista ligeiro alívio, o consumo nas lojas retalhistas caiu de forma inesperada e as vendas de casas usadas voltaram a recuar, evidenciando as dificuldades que muitas famílias americanas enfrentam para fazer face ao custo de vida.
A economia, a inflação e o impacto destas forças na vida dos norte-americanos estiveram em destaque na semana que passou. Ir às compras ou abastecer o carro tornou-se mais penoso do que há um ano, e a subida dos custos está a condicionar as decisões tanto das famílias como das empresas. Eis um resumo dos principais dados e notícias económicas divulgados nos últimos dias.
A inflação nos Estados Unidos abrandou no mês passado, com uma medida da pressão subjacente de preços a registar igualmente um arrefecimento, sugerindo que a subida dos preços do petróleo e do gás provocada pela guerra no Irão está a ter um impacto limitado sobre os custos gerais da economia.
Os preços no consumidor subiram 3,4% em Julho, em termos homólogos, uma ligeira descida face aos 3,5% registados em Junho, anunciou o Departamento do Trabalho na semana passada. Ainda assim, a inflação mantém-se bem acima dos níveis anteriores ao início da guerra no Irão, em Fevereiro, quando se situava em 2,4%. Em termos mensais, os preços subiram apenas 0,1% entre Junho e Julho.
O relatório surge numa altura em que a Reserva Federal (Fed) está fortemente dividida quanto à necessidade de subir a sua taxa de juro de referência para combater a inflação. O banco central manteve a taxa inalterada, em cerca de 3,6%, numa reunião no final do mês passado, mas a votação foi de 9 a 3, com três membros a defenderem uma subida da taxa.
Queda acentuada nas vendas a retalho apanha analistas de surpresa
Os norte-americanos reduziram inesperadamente as suas despesas em Julho, à medida que o efeito dos reembolsos fiscais do Governo se foi esbatendo. As vendas a retalho recuaram 0,6% no mês passado — a maior quebra desde maio de 2025 —, depois de um aumento revisto de 0,2% em Junho, segundo dados do Departamento do Comércio divulgados na sexta-feira.
Em Abril e Maio tinha-se registado um aumento notável no consumo, à medida que os americanos recorreram aos reembolsos fiscais recebidos. Esse efeito parece ter-se dissipado em Julho. Excluindo as vendas em estações de serviço e concessionários automóveis, as vendas a retalho caíram 0,2% no mês. Os preços dos combustíveis voltaram a subir nas últimas semanas, num contexto do que parece ser um impasse no Estreito de Ormuz.
As vendas de casas já habitadas nos Estados Unidos voltaram a abrandar em Julho, com os preços recorde e as taxas de juro hipotecárias mais elevadas do último ano a revelarem-se um obstáculo praticamente intransponível para muitos potenciais compradores.
As vendas de casas usadas caíram 1,7% no mês, em relação a junho, para uma taxa anual ajustada sazonalmente de 4,06 milhões de unidades, segundo a Associação Nacional de Agentes Imobiliários (NAR). O valor ficou ligeiramente acima da previsão de 4,05 milhões feita pelos economistas consultados pela FactSet, e representa um aumento de 0,7% face ao ano passado.
Os preços das habitações continuaram a subir, atingindo níveis sem precedentes para o mês de Julho, segundo a NAR. O preço médio de venda nos EUA aumentou 2% em termos homólogos, para 434.100 dólares.
Preços por grosso também abrandam
O índice de preços no produtor do Departamento do Trabalho — que mede a inflação antes de esta chegar aos consumidores — subiu 4,7% em Julho, em termos homólogos, uma desaceleração face ao aumento de 5,5% registado em Junho. Em termos mensais, os preços por grosso mantiveram-se inalterados entre Junho e Julho, depois de terem recuado 0,1% no mês anterior.
Estes números seguem-se ao relatório do Governo sobre a inflação ao consumidor, divulgado na quarta-feira, que também mostrou um arrefecimento moderado no mês passado. Ainda assim, os preços no consumidor têm subido mais rapidamente do que os salários nos últimos quatro meses, sublinhando as dificuldades que muitos americanos enfrentam para custear necessidades básicas como renda e serviços públicos. Caso os preços continuem a superar os salários, muitos consumidores poderão ser forçados a reduzir as despesas nos próximos meses.
Os pedidos de subsídio de desemprego nos Estados Unidos aumentaram na semana passada, mas os despedimentos continuam em níveis historicamente saudáveis. O Departamento do Trabalho informou, na quinta-feira, que 209 mil pessoas solicitaram o subsídio de desemprego na última semana, acima das 200 mil da semana anterior (valor revisto) e superior às 205 mil previstas pelos analistas. A média móvel de quatro semanas, que suaviza a volatilidade semanal, manteve-se inalterada em 199 mil.
O número total de pessoas a receber subsídio de desemprego, na semana terminada a 1 de Agosto, caiu 22 mil, para 1,78 milhões. Os pedidos de subsídio de desemprego são um indicador de despedimentos e têm-se mantido, ao longo do último ano, num intervalo historicamente baixo de cerca de 200 mil a 230 mil por semana, sugerindo que os americanos com emprego gozam de uma segurança laboral pouco comum. A taxa de desemprego nos EUA mantém-se baixa, em 4,1%, com a economia a mostrar-se resiliente apesar da subida dos preços da energia provocada pelo conflito com o Irão.
Taxas hipotecárias recuam ligeiramente, mas continuam acima do ano passado
A taxa média das hipotecas de longo prazo nos Estados Unidos caiu ligeiramente na quinta-feira, pela primeira vez em seis semanas, trazendo um sinal de alívio para os potenciais compradores de casa — ainda que os custos de financiamento continuem mais elevados do que há um ano.
A taxa fixa de referência para hipotecas a 30 anos desceu para 6,67%, segundo a Freddie Mac, face aos 6,69% da semana anterior. Ainda assim, em comparação, a taxa média situava-se em 6,58% na mesma altura do ano passado.
Taxas hipotecárias mais elevadas podem acrescentar centenas de dólares mensais aos custos dos mutuários, limitando o poder de compra dos compradores de casa. Isso pode levar os potenciais compradores a adiar a compra, como se verificou enquanto as taxas subiram nas semanas anteriores — um efeito visível na nova queda das vendas de casas usadas em Julho.
Os custos de financiamento das hipotecas fixas a 15 anos — frequentemente procuradas por quem pretende refinanciar um empréstimo à habitação — também recuaram ligeiramente esta semana, para uma média de 5,96%, face aos 6,01% da semana anterior. Ainda assim, o valor mantém-se acima do registado há um ano, quando a Freddie Mac indicava uma média de 5,71% para as hipotecas fixas a 15 anos.
Wall Street mantém-se perto dos máximos históricos
As bolsas norte-americanas negociaram perto dos seus máximos históricos, apesar dos dados económicos fracos sobre o consumo nas lojas retalhistas. Uma quebra no consumo pode impedir a Reserva Federal de subir as taxas de juro — um cenário do agrado de Wall Street —, mas que acarreta o risco de um crescimento mais lento e de uma inflação persistente.
O índice S&P 500 manteve-se praticamente inalterado, depois de ter atingido o seu máximo histórico no dia anterior. Já o Dow Jones Industrial Average e o Nasdaq Composite registaram ligeiras quedas. As taxas de juro das obrigações do Tesouro tiveram um comportamento misto no mercado obrigacionista, na sequência de um relatório que mostrou que os consumidores gastaram menos nas lojas retalhistas do que no mês anterior — um resultado que surpreendeu os economistas, que previam um novo mês de crescimento.