O rei Carlos III utilizou a sua visita de Estado aos Estados Unidos para defender a aliança transatlântica e valores como o equilíbrio de poderes e a proteção ambiental, numa altura de relações tensas com o Presidente Donald Trump, agravadas pela guerra com o Irão e divergências na NATO.
Durante um discurso no Congresso — apenas a segunda vez que um monarca britânico ali discursou — Carlos III combinou humor e diplomacia, citando Oscar Wilde para sublinhar as afinidades entre os dois países, mas introduzindo também recados subtis sobre a importância das instituições democráticas, das alianças internacionais e da acção climática.
Apesar do tom cordial das cerimónias oficiais, a visita decorre num dos momentos mais delicados das relações entre Washington e Londres nas últimas décadas, com críticas abertas de Trump à NATO e à recusa britânica em alinhar com a estratégia militar norte-americana no Médio Oriente.
Num gesto incomum, Trump manteve-se maioritariamente contido durante os eventos oficiais, evitando polémicas públicas. Ainda assim, gerou desconforto ao sugerir, durante um jantar de Estado, que o rei concordaria com a sua posição sobre o conflito com o Irão — uma matéria da qual a monarquia britânica se mantém tradicionalmente afastada.
Carlos III procurou reforçar os laços históricos entre os dois países, evocando a cooperação militar e valores partilhados, como o princípio de “checks and balances”, com raízes na Magna Carta. Também destacou a responsabilidade comum na protecção do ambiente, num contraste implícito com a política climática da actual administração norte-americana.
Apesar dos esforços diplomáticos, analistas consideram pouco provável que a visita seja suficiente para resolver divergências profundas, nomeadamente sobre política externa e defesa. Ainda assim, sublinham o papel da monarquia britânica como instrumento de “soft power” na tentativa de preservar a relação especial entre os dois países.