Mercado & Finanças

BPC reforça presença nacional e aposta na modernização tecnológica para recuperar confiança dos clientes

O Banco de Poupança e Crédito (BPC) garante estar presente em todos os municípios do país e prepara ajustamentos estratégicos para acompanhar a nova Divisão Político-Administrativa (DPA), que eleva Angola a 21 províncias. 

A instituição afasta, para já, a necessidade de abrir novas agências, defendendo antes um reposicionamento da rede existente e um reforço dos canais digitais e remotos.

Segundo a administração do banco, a expansão física do passado — especialmente intensa na década de 90 — deu ao BPC uma cobertura territorial robusta. Mesmo com o encerramento de algumas agências ao longo dos anos, o banco assegura presença em todos os municípios, incluindo nas novas capitais provinciais agora criadas. “Não se trata tanto de abrir novas agências por força da DPA, mas de adequar e reposicionar onde for necessário”, explicou o presidente da Comissão Executiva, Cláudio Pinheiro, em entrevista ao programa Sinergia, emitido às quartas-feiras, na rádio LAC, que cedeu gentilmente ao Mercado a entrevista.

A estratégia passa por equilibrar a presença física com a crescente digitalização dos serviços financeiros, num contexto em que a população angolana é maioritariamente jovem — cerca de 70% tem menos de 25 anos. Para o banco, ignorar esta mudança no perfil demográfico seria “continuar a investir às cegas” em modelos que poderão não responder às preferências futuras dos clientes.

Investimento tecnológico e recuperação operacional

A modernização tecnológica foi uma das principais frentes da actual administração. O diagnóstico inicial revelou infra-estruturas obsoletas, sistemas operativos desactualizados e graves limitações de conectividade. Em 2019 e 2020, a taxa de sucesso das operações com cartões multicaixa rondava apenas os 30%, o que significava que, em cada 100 tentativas, 70 falhavam.

Para inverter o cenário, o banco investiu na renovação de equipamentos, no aumento da largura de banda e na introdução de redundância nas comunicações — requisito hoje regulamentar. Também estabilizou o actual core bancário, enquanto prepara a implementação de um novo sistema mais moderno ainda este ano.

Um dos momentos mais críticos ocorreu em 2022, quando o banco transferiu integralmente o seu data center para um provedor especializado. A operação implicou desligar todos os sistemas e reconfigurar a infra-estrutura em menos de 24 horas úteis. A transição foi concluída com sucesso e permitiu melhorar significativamente a estabilidade e a segurança da operação.

Actualmente, a disponibilidade dos cartões multicaixa aproxima-se dos 99%, segundo a administração. Persistem, no entanto, algumas limitações técnicas, como o prazo de 24 horas para refletir determinadas transferências internas, situação que deverá ser resolvida com o novo core bancário.

Reorganização interna e eficiência

Paralelamente à modernização tecnológica, o BPC promoveu uma reorganização profunda da rede de agências. O número de postos de trabalho por balcão foi optimizado, funções foram redefinidas e várias situações salariais regularizadas. Em alguns casos, agências operavam sem gerentes ou sub-gerentes, realidade entretanto corrigida.

A eficiência operacional tornou-se um dos pilares estratégicos do banco. O crédito ao consumo, por exemplo, passou a ser processado num prazo médio de três a cinco dias úteis, podendo reduzir-se futuramente para dois dias com o novo sistema informático.

Retenção de clientes e concorrência

Após perder o monopólio dos depósitos salariais do sector público, o BPC enfrentou forte concorrência de outros bancos, que chegaram a oferecer crédito com condições promocionais para atrair novos clientes. Ainda assim, a instituição conseguiu manter a maioria dos depositantes.

A administração atribui esse desempenho à especialização histórica no atendimento a funcionários públicos e pensionistas, à rápida disponibilização de recursos e à política de não retenção indevida de fundos dos clientes. “Uma instrução do cliente é uma ordem”, sublinha a gestão, que coloca a confiança como o principal activo da instituição.

Crédito malparado e apoio a empresas vandalizadas

No que respeita ao crédito malparado, o banco distingue entre a carteira antiga — que ainda representa cerca de 20% — e os novos créditos, cujo nível de incumprimento ronda os 4% a 5%. Parte dos processos antigos está em reestruturação, outros seguem para via judicial ou eventual transferência para entidades vocacionadas à recuperação de activos.

No âmbito do apoio a empresas afectadas por actos de vandalismo, o BPC recebeu 104 processos, num total solicitado de cerca de 56 mil milhões de kwanzas. Foram aprovados 32 mil milhões, dos quais 29 mil milhões já desembolsados. Vinte e sete processos foram excluídos por inconformidades documentais e 12 não obtiveram aprovação. Outros 20 permanecem em análise.

A administração sublinha que o rigor aplicado decorre do cumprimento das normas regulamentares e da supervisão do Banco Nacional de Angola (BNA), Tribunal de Contas e outras entidades fiscalizadoras. “Não é por ser banco público que deixamos de observar regras prudenciais”, afirma a gestão.

Até ao momento, não há registo de incumprimentos relevantes na nova carteira de crédito concedida às empresas vandalizadas, embora já estejam constituídas imparidades ao abrigo do modelo de perdas esperadas.

Missão pública e futuro

A liderança do BPC assume a transformação recente como uma “missão patriótica”, defendendo que o banco público deve estar preparado para servir as actuais e futuras gerações, com solidez, modernidade e disciplina de risco.

Com foco no segmento de particulares e numa abordagem orientada para o ciclo de vida do cliente — da infância à reforma — o BPC aposta na especialização, na eficiência e na confiança como bases para consolidar a sua posição no sistema financeiro angolano.

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