As últimas críticas do Presidente norte-americano à China, feitas num discurso em horário nobre sobre as eleições de 2020, contrastam com os elogios que tem feito a Xi Jinping nas últimas semanas — e surgem semanas antes de o receber na Casa Branca, em Setembro.
Donald Trump voltou a atacar a China, desta vez acusando o país de ter interferido nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020 — a votação que perdeu para Joe Biden —, num discurso em horário nobre feito a partir da Casa Branca. O Presidente norte-americano afirmou ter desclassificado um conjunto de documentos que, segundo disse, revelam vulnerabilidades nos sistemas eleitorais dos EUA, fraude eleitoral e interferência chinesa, e ordenou ao Departamento de Justiça que investigue os alegados responsáveis. “As nossas eleições ficaram vulneráveis a serem manipuladas e roubadas, e a confiança do povo americano foi perdida”, disse Trump, sem apresentar provas de votos ou resultados eleitorais afectados.
O episódio ilustra bem a forma inconstante como Trump tem tratado Pequim nas últimas semanas. O tom duro do discurso contrasta com os elogios efusivos que o Presidente tem feito recentemente ao líder chinês Xi Jinping, que deverá receber na Casa Branca em Setembro. Nos últimos meses, segundo a Reuters, a própria Casa Branca tem desencorajado agências norte-americanas de avançar com políticas que possam provocar Pequim, enquanto Trump procura fechar acordos comerciais com o país asiático.
O ministério dos Negócios Estrangeiros chinês reagiu classificando as acusações de Trump sobre as eleições como uma “falsa alegação e uma calúnia grave”. Ainda assim, nada indica, para já, que o episódio vá alterar os planos para a visita de Xi Jinping, e a Administração norte-americana não parece estar a colocar o foco na China à medida que renova o escrutínio sobre os sistemas de votação do país, segundo a Politico. O conselheiro comercial da Casa Branca, Peter Navarro, disse aos jornalistas na sexta-feira que a política comercial dos EUA em relação à China não vai mudar, sublinhando: “Esta não é uma história sobre a China.”
Um discurso que reabre um debate antigo
A intervenção de Trump, feita na quinta-feira à noite a partir da Sala Este da Casa Branca, reacende um tema que o tem obcecado há anos: os resultados das eleições de 2020. Segundo verificadores de factos norte-americanos, o discurso contornou as várias decisões judiciais, relatórios dos serviços de informações e opiniões de especialistas que, ao longo dos últimos anos, concluíram não ter havido interferência estrangeira directano processo eleitoral de 2020. Uma avaliação da comunidade de informações, desclassificada ainda em 2021, já tinha reconhecido que a China poderá ter dado alguns passos para prejudicar a reeleição de Trump — sobretudo através de redes sociais e declarações públicas —, mas concluiu que não houve interferência na infra-estruturaeleitoral, incluindo os sistemas de contagem de votos, uma conclusão distinta das alegações agora feitas sobre o acesso a dados de eleitores.
O discurso surge a menos de quatro meses das eleições intercalares de Novembro, nas quais os republicanos tentam defender as suas maiorias apertadas no Congresso. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, acusou Trump de estar mais preocupado em desviar a atenção do público das eleições intercalares de 2026 do que propriamente com o escrutínio de 2020.