Economia

As alternativas dos BRICS ao dólar já não são uma “fantasia”, diz o economista Jim O’Neill

Um quarto de século depois de ter identificado a crescente influência das economias emergentes, o economista que criou o acrónimo BRIC afirmou que esses países poderão, no futuro, construir alternativas ao dólar, uma ideia que, até há muito pouco tempo, lhe parecia uma “fantasia”.

Em entrevista à Reuters, Jim O’Neill afirmou que os recentes avanços nas tecnologias de pagamento mudaram a sua visão sobre as possibilidades de criação de mecanismos financeiros alternativos entre os países dos BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

“Há cerca de 18 meses, se me perguntassem sobre isto, eu diria que era uma fantasia a ideia de os países BRICS conseguirem criar algum tipo de mecanismo financeiro alternativo”, afirmou.

Segundo O’Neill, essa convicção resultava do facto de o pensamento sobre o sistema monetário internacional ter sido moldado por décadas de domínio do dólar, após o colapso, na década de 1970, do sistema criado pelo Acordo de Bretton Woods.

“Quem sabe exactamente como será o sistema monetário no futuro?”, questionou.

A desdolarização — isto é, os esforços dos países para reduzir a dependência do dólar no comércio internacional, nos investimentos e nas reservas dos bancos centrais — tornou-se um objectivo crescente para muitas economias emergentes nos últimos anos. Ainda assim, o dólar continua, de longe, a ser a principal moeda de reserva e de comércio do mundo.

Antigo economista da Goldman Sachs, O’Neill afirmou que os membros dos BRICS têm tido dificuldades em transformar a sua visão comum em políticas concretas. As diferenças geopolíticas e económicas entre os países dificultam a reforma do sistema económico internacional em benefício do grupo.

“O simbolismo é extremamente poderoso”, afirmou. “Mas, em termos de alcançar resultados concretos, com a honrosa excepção da criação do New Development Bank, tenho dificuldade em lembrar-me de outra realização significativa.”

Os BRICS têm discutido alternativas aos sistemas de pagamentos baseados no dólar. Entre as propostas estão a iniciativa BRICS Pay, a interligação de sistemas nacionais já existentes — como o UPI da Índia, o CIPS da China e o PIX do Brasil  — , bem como a futura utilização de moedas digitais emitidas pelos bancos centrais.

Os quatro países fundadores do BRIC realizaram a sua primeira cimeira em 2009 e convidaram a África do Sul a aderir no ano seguinte. Mais tarde, o grupo evoluiu para BRICS+, uma plataforma mais ampla destinada a defender os interesses do Sul Global, integrando também países como Egipto, Etiópia, Indonésia, Irão e Emirados Árabes Unidos.

Criada plataforma BRISC + Thinking sem fins lucrativos

Jim O’Neill e Gemma Chenger Deng criaram a BRICS+ Thinking, uma plataforma sem fins lucrativos dedicada à investigação e ao desenvolvimento de políticas públicas para promover a cooperação entre os países ocidentais e os BRICS+. A organização pretende produzir estudos, criar índices próprios e publicar previsões de crescimento para as economias do grupo.

Segundo Deng, a plataforma, financiada inicialmente por O’Neill, pretende apoiar a formulação de políticas em áreas como as alterações climáticas, a transição energética, a saúde global e a governação da inteligência artificial.

“Trata-se de analisar questões que são verdadeiramente globais, que afectam todos nós, e seria desastroso se não trabalhássemos em conjunto”, afirmou.

O’Neill acrescentou ainda que os BRICS estão hoje muito mais presentes no debate internacional. “Costumo dizer a brincar que não me recordo de nenhum presidente norte-americano dos últimos 25 anos sequer mencionar os BRICS. E Donald Trump simplesmente não consegue deixar de falar deles.”

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