A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão está a reescrever o mapa energético mundial — e a Aramco é uma das principais beneficiárias. A petrolífera saudita registou um lucro líquido de 122 mil milhões de riais (cerca 31 mil milhões dólares) no primeiro trimestre de 2026, um salto de 25% face ao mesmo período do ano anterior, quando o lucro ficara pelos 97.500 milhões de riais. Os números confirmam o que os mercados já antecipavam: o conflito iniciado a 28 de Fevereiro com os ataques norte-americanos e israelitas ao Irão transformou-se num catalisador inesperado para as receitas do petróleo saudita.
A resposta de Teerão ao ataque foi bloquear o Estreito de Ormuz, por onde normalmente transita cerca de um quinto do consumo mundial de hidrocarbonetos. O efeito nos preços foi imediato e brutal. O barril de Brent, que valia cerca de 70 dólares antes das hostilidades, chegou a atingir picos de 120 dólares, estabilizando em média nos 100 dólares em Março, agora está mesmo a ser negociado acima desse valor.
A empresa sublinha no comunicado enviado à bolsa saudita a sua “resiliência e flexibilidade operacional” — uma referência ao facto de ter conseguido manter as exportações apesar do bloqueio. O segredo está no oleoduto leste-oeste, uma infraestrutura estratégica que liga as instalações energéticas no Golfo aos terminais de exportação no Mar Vermelho, contornando Ormuz. No primeiro trimestre, a Aramco bombou através desse corredor até à sua capacidade máxima de sete milhões de barris por dia — um recorde operacional que se tornou também um recorde financeiro.
A ironia não passa despercebida: é um conflito armado no coração do Médio Oriente que está a financiar o programa Vision 2030, a aposta do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para preparar a Arábia Saudita para o mundo pós-petróleo. A Aramco, detida maioritariamente pelo Estado saudita, é a principal fonte de receitas desse projeto de transformação económica — e nunca gerou tanto dinheiro em tão pouco tempo.
A Arábia Saudita não saiu ilesa do conflito. Os Estados do Golfo foram atingidos por ataques iranianos de represália, que visaram tanto interesses norte-americanos como infraestruturas civis e energéticas da região. Mas os danos operacionais ficaram aquém do que Teerão esperava — e longe de compensar, para o lado saudita, os ganhos registados nas receitas.
A Aramco não está sozinha. As grandes petrolíferas europeias registaram igualmente lucros expressivos no primeiro trimestre, aproveitando a volatilidade de preços desencadeada pela guerra. O padrão é o mesmo em todo o sector: a instabilidade geopolítica, que penaliza consumidores e economias importadoras, transforma-se em margem para quem produz.