Angola está prestes a tornar-se um exportador regional de energia elétrica numa escala sem precedente em África. João Lourenço recebeu no Palácio Presidencial o ministro congolês dos Recursos Hídricos e Eletricidade, Teddy Lwamba Muba Sakombi, num encontro que marca a entrada em fase de execução de um projeto que prevê a exportação de mais de 2.000 megawatts de energia angolana para a República Democrática do Congo (RDC) — numa operação estruturada inteiramente com capital privado, sem garantias soberanas nem fundos públicos dos dois Estados.
O projecto é do Consórcio Meridia Energy, constituído pela Somagec — responsável pelos estudos de engenharia, traçado das linhas e avaliação de impacto ambiental — e pela Averi Finance, que liderou a estruturação financeira e já assegurou o financiamento integral da operação. Num continente onde projectos de infraestrutura desta dimensão dependem habitualmente de garantias estatais ou de financiamento multilateral, o modelo adotado é uma raridade — e uma referência.
O projecto prevê duas linhas de transmissão. A primeira — e mais ambiciosa — é a Linha Malanje–Saurimo–Luau–Kolwezi–Fungurume, com cerca de 1.450 quilómetros, que ligará o interior de Angola ao Copperbelt congolês, atravessando Dilolo. É uma das maiores linhas de transmissão transfronteiriças alguma vez projetadas em África.
A segunda é a Linha Soyo–Inga, com 180 quilómetros, ligando a região do Soyo ao maior complexo hidroelétrico do continente. O arranque está previsto para os próximos dias, com conclusão estimada em 18 meses.
A Meridia Energy já assinou todos os contratos com a Rede Nacional de Transporte de Eletricidade de Angola, garantindo a integração das linhas na rede elétrica nacional e a sua expansão para o leste do país. Do lado congolês, a concessão já foi atribuída. Falta apenas a aprovação das autoridades angolanas para que o consórcio assuma a totalidade do investimento.
A RDC tem o maior potencial hidroeléctrico de África — a barragem de Inga, no rio Congo, é o maior complexo do género no continente. E ainda assim, o ministro Sakombi foi explícito: o Congo precisa de Angola para diversificar o fornecimento de energia. Com mais de 100 milhões de habitantes e uma economia mineira que exige eletricidade firme e contínua, a RDC não pode depender de uma única fonte.
Para Angola, a equação é igualmente estratégica. O país passa de importador ocasional a exportador regional, consolidando uma posição geopolítica e económica no coração de África que o Corredor do Lobito já tinha começado a desenhar. Energia e logística passam a ser os dois pilares da projeção angolana na região.
Um modelo para o continente
O que torna esta operação ainda mais relevante é o que ela não tem: dinheiro público. Num continente onde os projetos de infraestrutura energética dependem habitualmente de financiamento multilateral ou de garantias soberanas — com os riscos fiscais que isso implica —, a Meridia Energyestruturou uma operação de project financeestritamente privado que pode servir de modelo para uma nova geração de infraestruturas energéticas em África.
Se o projecto for executado nos prazos previstos, Angola terá construído, em menos de dois anos, duas das maiores linhas de transmissão transfronteiriças do continente — e terá feito isso sem gastar um cêntimo do erário público.