O último dia da Angola Oil & Gas (AOG) 2026 ficou marcado pela meta de atingir 425 mil barris por dia de capacidade de refinação, por novos acordos no upstream e no gás, e pelo reforço dos planos de exploração e investimento no sector petrolífero e de gás angolano.
O Plano Director do Gás de Angola prevê cerca de 13 mil milhões de dólares de investimento nos segmentos de midstream e downstream, distribuídos por cinco pólos industriais em Cabinda, Soyo, Porto Amboim, Benguela e Namibe. A estratégia foi apresentada esta quinta-feira pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), durante o segundo e último dia da conferência, em Luanda. Do investimento previsto, cerca de sete mil milhões de dólares estão associados ao midstream e seis mil milhões ao downstream. Artur Custódio, administrador executivo da ANPG, indicou que Angola dispõe de mais de 15 biliões de pés cúbicos de gás monetizável, para além dos volumes já destinados ao Angola LNG, apontando os fertilizantes, a petroquímica e a produção de energia a partir do gás como algumas das utilizações previstas para sustentar a industrialização nacional.
A utilização interna do recurso esteve no centro do debate dedicado à economia do gás. Manuel Barros, CEO da Sonangol Gas, defendeu que “o gás tem de ser rentabilizado em Angola para estimular a actividade industrial”. Entre os projectos em destaque esteve o complexo da Amufert, no Soyo, avaliado em dois mil milhões de dólares, que tem como metas a produção de 1,4 milhões de toneladas de ureia granulada e 800 mil toneladas de amoníaco por ano.
Refinação e segurança do abastecimento
A agenda do dia colocou também em foco a refinação e a segurança do abastecimento de combustíveis. Angola tem como meta alcançar uma capacidade de refinação de 425 mil barris por dia, num contexto em que o país gastou cerca de 1,96 mil milhões de dólares na importação de produtos refinados apenas no primeiro semestre de 2026. A Refinaria do Lobito, projectada para processar 200 mil barris por dia e com entrada em produção prevista para 2027, continua entre os projectos associados ao aumento da capacidade nacional, juntando-se à Refinaria de Cabinda, já em operação desde 2025, e aos preparativos para o desenvolvimento da futura unidade de Soyo, com capacidade prevista de 100 mil barris por dia. Durante a AOG 2026, a Sonangol indicou que estão a avançar negociações para obtenção de financiamento junto da China e de outros mercados, tendo em vista a conclusão destes projectos estratégicos.
A exploração constituiu outra das linhas de força do último dia. A ANPG anunciou a intenção de perfurar pelo menos dez poços por ano, acompanhada pelo reforço dos trabalhos de exploração e da actividade sísmica, com o objectivo de ampliar o conhecimento e o aproveitamento do potencial petrolífero e de gás do país — um esforço que se soma ao regresso já assinalado da exploração onshore nas bacias do Baixo Congo e do Kwanza. A Shell, que regressou às águas profundas angolanas em 2025, indicou pretender avançar rapidamente da aquisição de áreas para a avaliação do potencial offshore remanescente do país, tendo ampliado a sua posição exploratória através de três acordos assinados no âmbito da AOG 2026.
Durante o segundo dia foram também formalizados acordos relacionados com o aumento da produção nos Blocos 15 e 31, com o financiamento da expansão da Etu Energias no Bloco 14 e com o já referido complexo de fertilizantes da Amufert. A TotalEnergies apresentou ainda novos objectivos para o Bloco 17, apontando para 400 milhões de barris no desenvolvimento Dalia, com o regime de produção incremental a suportar novos investimentos no activo, cuja produção deverá prolongar-se até 2045 — um anúncio que se junta à descoberta do Acácia-5, também no Bloco 17, e à entrada da petrolífera francesa, como operadora, em dois novos blocos de exploração na Bacia do Baixo Congo, reveladas ainda esta semana pela própria TotalEnergies.
Já a Etu Energias, que tem vindo a reforçar a sua posição em Angola através de aquisições como a dos activos nos Blocos 3/05 e 3/05A ao lado da Sonangol, da Afentra e da Maurel & Prom, anunciou a meta de atingir uma produção de 100 mil barris por dia, prevendo ainda desenvolver 50 postos de abastecimento, no âmbito de uma estratégia de expansão ao longo de toda a cadeia de valor. O Bloco 14, o Bloco 2/05 e a exploração onshore estão entre os activos que sustentam o plano de crescimento da empresa.
Financiamento e participação nacional
O acesso das empresas angolanas ao capital voltou a integrar as discussões do dia. O Afreximbank defendeu o reforço da participação nacional num sector de petróleo e gás avaliado em cerca de 18 mil milhões de dólares, num contexto em que bancos e instituições financeiras de desenvolvimento procuram alargar as opções de financiamento disponíveis às empresas do país. A instituição indicou ainda ter desembolsado mais de cinco mil milhões de dólares para o sector de petróleo e gás em Angola nos últimos oito anos, apoiando, entre outros, investimentos ligados à Sonangol, à Etu Energias/Somoil, à Refinaria de Cabinda e à Amufert.
A ANPG aproveitou também o último dia da AOG para lançar o seu novo portal digital, que inclui pesquisa baseada em inteligência artificial, ferramentas destinadas a facilitar a relação com investidores e maior acesso a informação e a oportunidades do sector — um instrumento que se enquadra na estratégia mais ampla da Agência para atrair capital estrangeiro e consolidar Angola como um dos principais destinos de investimento petrolífero e de gás em África.