Cimeira realizada em Luanda, nos dias 3 e 4 de Novembro, reuniu líderes políticos, responsáveis de bancos centrais, instituições financeiras e investidores, com destaque para a necessidade de transformar a capacidade financeira do continente em investimento produtivo, criação de emprego e desenvolvimento económico.
A realização da sexta edição do Africa Financial Summit (AFIS 2026), em Luanda, constituiu um dos principais acontecimentos do calendário económico e financeiro africano deste ano, ao colocar Angola no centro de uma discussão estratégica sobre o futuro do financiamento no continente.
Durante dois dias, 3 e 4 de Novembro, o Centro de Convenções de Talatona recebeu responsáveis governamentais, governadores de bancos centrais, dirigentes de instituições financeiras, investidores, representantes de seguradoras, empresas tecnológicas e especialistas dos mercados de capitais. O encontro, organizado pelo Jeune Afrique Media Group, em parceria com a Corporação Financeira Internacional (IFC), decorreu sob o lema Making Capital Count – Impulsionar o crescimento através do financiamento africano.
Um dos aspectos mais relevantes da cimeira foi a dimensão da participação internacional. Mais de 1.250 responsáveis do sector financeiro estiveram associados ao encontro, incluindo 18 governadores de bancos centrais e oito ministros das Finanças, reforçando a importância do AFIS como plataforma de diálogo e articulação entre os principais intervenientes da economia africana.
Mobilização de recursos africanos
Um dos pontos fortes do encontro foi a discussão em torno da capacidade de África para mobilizar os seus próprios recursos e reduzir a dependência do financiamento externo. Os debates evidenciaram um paradoxo: apesar de o continente dispor de aproximadamente quatro biliões de dólares em poupanças internas de longo prazo, continua a enfrentar um défice anual de financiamento ao desenvolvimento estimado em 400 mil milhões de dólares.
Neste contexto, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Sidi Ould Tah, apresentou a importância da Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento (NAFAD), uma iniciativa destinada a aproximar os recursos disponíveis das necessidades de financiamento das economias africanas, através de maior articulação entre instituições financeiras, investidores e sector privado.
O responsável anunciou igualmente um reforço de 125 milhões de dólares na participação do BAD na Agência Africana de Seguros de Comércio (ATIDI), elevando a sua posição accionista de 3% para 14%, numa iniciativa destinada a reforçar os mecanismos de partilha de riscos e facilitar a mobilização de capital privado.
Financiamento das empresas e economia real
Outro aspecto central foi a necessidade de melhorar o acesso ao crédito por parte das micro, pequenas e médias empresas, consideradas fundamentais para a diversificação económica e a criação de emprego.
Os participantes defenderam a necessidade de desenvolver instrumentos financeiros mais adequados à realidade das empresas africanas, incluindo soluções de financiamento de longo prazo, maior utilização de moeda local e mecanismos de avaliação de risco que não dependam exclusivamente de garantias tradicionais.
Um exemplo concreto surgiu durante a cimeira, com a assinatura de um acordo de financiamento de 50 milhões de dólares entre a Corporação Financeira Internacional e o Bank of Industry da Nigéria, integrado num pacote de apoio que poderá atingir 100 milhões de dólares. Pelo menos 25% dos recursos do empréstimo deverão beneficiar empresas detidas por mulheres. A agricultura, a indústria transformadora, as energias renováveis e as indústrias criativas estiveram entre os sectores identificados como prioritários.
Tecnologia e integração financeira
A transformação digital foi igualmente um dos grandes temas da AFIS 2026. A utilização da inteligência artificial, das plataformas digitais e das novas tecnologias financeiras foi apontada como uma oportunidade para alargar a inclusão financeira, reduzir os custos dos serviços bancários e facilitar o acesso ao crédito.
A integração dos mercados financeiros africanos também mereceu particular atenção, sobretudo através do desenvolvimento de sistemas de pagamentos transfronteiriços e da ligação entre bolsas de valores, com o objectivo de facilitar as transacções comerciais e a circulação de capitais dentro do continente.
Os debates revelaram, contudo, que ainda existem obstáculos significativos. Apenas 11% das instituições financeiras inquiridas num estudo apresentado durante a cimeira estavam ligadas ao Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação (PAPSS), evidenciando a necessidade de acelerar a integração dos sistemas financeiros.
A presença de responsáveis de instituições como o BAD, a IFC, bancos comerciais, seguradoras e entidades reguladoras permitiu colocar a economia angolana perante uma audiência internacional de investidores e decisores.
Na sessão de abertura, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, defendeu que o continente deve passar da mobilização de recursos à sua aplicação efectiva na produção, no investimento e na criação de emprego.
O governante destacou ainda a necessidade de reforçar o ambiente de negócios, consolidar a estabilidade macroeconómica e desenvolver infra-estruturas essenciais para acelerar a diversificação das economias africanas.
A ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, por sua vez, defendeu a estabilidade institucional, a previsibilidade das políticas económicas e a continuidade das reformas como condições fundamentais para atrair investimento de longo prazo.
Uma plataforma de oportunidades
Para além dos debates institucionais, a cimeira proporcionou oportunidades de relacionamento empresarial, partilha de experiências e identificação de potenciais parcerias entre instituições financeiras, investidores e empresas de diferentes países africanos.
A atribuição do African Disrupter Award à plataforma de pagamentos Wave Mobile Money constituiu também um dos destaques do evento, reconhecendo o papel da inovação tecnológica na transformação dos serviços financeiros no continente.
A realização da sexta edição do Africa Financial Summit em Luanda, pela primeira vez na África Austral e num país lusófono, constituiu, assim, um marco para a internacionalização da praça financeira angolana.
Mais do que a dimensão dos participantes e a visibilidade institucional, o principal mérito do encontro esteve em colocar na mesma mesa os responsáveis pelo capital e os protagonistas do desenvolvimento económico africano.
O desafio que fica é transformar as propostas, os contactos e os compromissos assumidos em operações concretas de financiamento, projectos empresariais e oportunidades de emprego. Afinal, fazer o capital contar, como propôs o lema desta edição, significa garantir que os recursos financeiros disponíveis se traduzam em benefícios efectivos para as economias e as populações africanas.