Cultura

“A Odisseia” já rendeu 652 milhões de dólares, mas Nolan enfrenta a maior polémica crítica da sua carreira

Filme torna-se o maior êxito internacional de sempre do realizador, com quase três horas de duração, mas divide críticos entre a “escala monumental” e a acusação de ter “esvaziado” a alma de Homero.

A adaptação de A Odisseia por Christopher Nolan já arrecadou 652 milhões de dólares em bilheteira mundial, apenas dez dias após a estreia — um resultado que consolida o filme como um dos maiores êxitos comerciais do ano, mas que não tem impedido duras críticas ao tratamento dado à obra de Homero e à construção das personagens.

Segundo dados da Variety, o filme arrecadou 289 milhões de dólares na América do Norte e 362 milhões nos restantes mercados internacionais, depois de dois fins-de-semana em exibição. As vendas de bilhetes recuaram apenas 27% no segundo fim-de-semana, face à já expressiva estreia de 123,5 milhões de dólares — um sinal, segundo analistas, da rara solidez comercial de Nolan junto do público, especialmente tendo em conta que o filme tem classificação R (proibido para menores de 17 anos sem acompanhamento nos EUA), o que normalmente limita o alcance de audiência.

A estreia mundial de 264 milhões de dólares já tinha sido, por si só, o melhor arranque internacional de sempre na carreira de Nolan, superando marcos anteriores como A Escuridão Regressa ($249 milhões) ou Oppenheimer ($180 milhões). No Reino Unido, terra natal do realizador, o filme abriu com 17,4 milhões de dólares; em Itália, com 11,5 milhões — superando toda a carreira em bilheteira de filmes como Dunkirk ou Tenet. Segundo o CEO da IMAX, Rich Gelfond, A Odisseia junta-se a um grupo raro de “clássicos instantâneos” na história da própria IMAX, sendo a primeira longa-metragem alguma vez filmada inteiramente com câmaras IMAX.

Produzido pela Universal com um orçamento de 250 milhões de dólares, e mais 125 milhões investidos em promoção, o filme já se tornou a sexta maior receita mundial do ano, com metade do público entre os 18 e os 34 anos — uma faixa etária que, segundo a imprensa especializada, confirma o apelo de Nolan junto da chamada Geração Z, muito por via de conteúdo criado por fãs a analisar a sua narrativa em redes sociais.

Elogios: escala monumental e um elenco de peso

Do lado dos elogios, o Telegraph chamou-lhe o “filme do ano”, enquanto o Evening Standard destacou a sua grandiosidade visual. O uso intenso de câmaras IMAX e cenários reais proporcionou, segundo vários críticos, uma experiência sensorial física e marcante nas salas de cinema — um dos principais argumentos usados para justificar a ida ao cinema num momento em que o streaming domina os hábitos de consumo audiovisual.

As interpretações do trio principal — Matt Damon (Ulisses), Anne Hathaway (Penélope) e Tom Holland (Telémaco) —, ao lado de um elenco coral que inclui ainda Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Zendaya, Charlize Theron, Elliot Page, Jon Bernthal e John Leguizamo, foram amplamente elogiadas pela intensidade dramática. No Rotten Tomatoes, o filme mantém 95% de aprovação por parte da crítica, com nota “A” nas sondagens de saída do CinemaScore — dados que, à data da estreia, colocaram A Odisseia entre os filmes mais bem avaliados do ano.

Críticas: “desalmado” e um Ulisses esvaziado da sua astúcia

Do outro lado, a recepção tem sido bem mais dividida. Críticos apontam que o filme soa “desalmado” e carece de um vínculo emocional genuíno com o material clássico de Homero — uma crítica que ganhou eco particular em Portugal, onde o Público descreveu o processo como uma “nolanização” do épico grego.

A crítica mais severa veio, contudo, de fora do circuito jornalístico tradicional: a tradutora e helenista Emily Wilson, responsável por uma das traduções mais aclamadas da Odisseia para inglês e cuja obra terá inspirado parte da abordagem de Nolan, criticou duramente o argumento do filme, afirmando que a adaptação reduz drasticamente a complexidade e a astúcia — o polytropos, a “muitas voltas”, que define Ulisses no poema original — chegando a dizer que “teria vergonha” de ter escrito um guião assim.

Houve ainda apontamentos sobre problemas de ritmo, com cortes abruptos na montagem e diálogos considerados repetitivos ou esteticamente polémicos por parte de alguns críticos europeus, incluindo a Euronews Culture, que descreveu o filme como “uma viagem épica, mas imperfeita, ao Hades e de volta”.

Um filme que já nasceu no meio de uma “guerra cultural”

Vale ainda recordar que A Odisseia já tinha sido, antes mesmo da estreia, alvo de controvérsia — chegando a ficar “presa nas guerras culturais”, segundo a imprensa norte-americana, num contexto de debate sobre representação e fidelidade a textos clássicos. Apesar disso, o desempenho comercial do filme não deu sinais de abrandar: com boas críticas de boca-a-boca e forte procura por formatos premium como o IMAX, A Odisseia deverá manter-se como um dos maiores êxitos do Verão e do Outono, com hipóteses reais de nomeações para os Óscares — consolidando Nolan, mais uma vez, como o realizador mais rentável e mais discutido da sua geração, ainda que a fidelidade da sua leitura de Homero continue a dividir tão profundamente quanto o próprio regresso de Ulisses a Ítaca dividiu, durante vinte anos, quem esperava por ele.

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