Elon Musk prepara-se para protagonizar a maior oferta pública inicial da história. A SpaceX, detida em 85% pelo empresário, apresentou esta quarta-feira o prospecto de entrada em bolsa na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos — e os números revelados pela primeira vez ao público confirmam uma empresa de crescimento extraordinário, gastos astronómicos e prejuízos que, por enquanto, não param de crescer.
O objectivo é captar 75 mil milhões de dólares — mais do dobro da maior entrada em bolsa de sempre, a da Saudi Aramco, que em 2019 levantou 29 mil milhões. As acçõesdeverão começar a ser transacionadas a 12 de Junho, sob o código SPCX. A avaliação esperada da empresa ronda 1,75 biliões de dólares.
O prospecto de 277 páginas dá ao mercado, pela primeira vez, uma visão clara das finanças da empresa. O retrato é o de uma empresa em expansão acelerada — mas que gasta muito mais do que ganha.
Em 2025, a SpaceX faturou 18,7 mil milhões de dólares — um crescimento de 33% face ao ano anterior. Mas registou um prejuízo de 4,9 mil milhões de dólares, revertendo o lucro de 791 milhões obtido em 2024. Em 2023, as perdas tinham sido de 4,6 mil milhões. Nos primeiros três meses de 2026, a empresa já perdeu 4,3 mil milhões de dólares, com receitas de 4,7 mil milhões.
O principal motor dos gastos é a inteligência artificial: dos 20,7 mil milhões de dólares investidos em 2025, 12,7 mil milhões foram alocados à IA. O Starlink absorveu 4,2 mil milhões e os foguetões e outros projetos espaciais os restantes 3,8 mil milhões. Nos primeiros três meses de 2026, a SpaceX já gastou 10,1 mil milhões — dos quais 7,7 mil milhões em IA.
O Starlink cresce mas a receita por cliente encolhe
A rede de satélites Starlink é hoje composta por mais de 9.600 satélites em órbita e serve 10,3 milhões de clientes em 164 países — o dobro do que tinha em março de 2025. A SpaceX realizou 650 lançamentos de foguetões desde a sua fundação, em 2002.
Mas há uma sombra nos números do Starlink: a receita média por utilizador caiu de 99 dólares mensais em 2023 para 66 dólares atualmente. A empresa justifica a queda com a expansão internacional e a criação de planos de preços mais baixos. A base de clientes cresce; a margem por cliente encolhe.
Para justificar a avaliação, a SpaceXapresenta uma estimativa de mercado total endereçável de 28,5 biliões de dólares — o que a própria empresa descreve como “o maior mercado endereçável total viável da história da humanidade.” Desse total, 26,5 biliões correspondem à IA, incluindo 22,7 biliões em aplicações empresariais e 2,4 biliões em centros de dados espaciais. Os restantes 1,6 biliões incluem conectividade via Starlink e serviços móveis.
A fusão da SpaceX com a xAI — a empresa de inteligência artificial de Musk — concretizada em Fevereiro, avaliou a empresa combinada em 1,25 biliões de dólares. A entrada em bolsa dará continuidade a essa aposta na IA como motor de crescimento futuro.
A operação que 25 bancos querem assinar
A dimensão histórica da operação explica o interesse da banca. Mais de duas dezenas de instituições financeiras participam no processo: Goldman Sachs, Morgan Stanley, Bank of America, Citigroup e JP Morgan lideram, com o Barclays, Deutsche Bank, RBC, UBS, Wells Fargo, Société Générale, ING e Santander, entre outros, a completar o consórcio.
O encaixe obtido servirá para financiar a expansão da capacidade de computação ligada à IA, a melhoria da infraestrutura de lançamento e o crescimento da rede de satélites.
O prospecto revela também os detalhes da remuneração de Musk — e o contraste é vertiginoso. O fundador e CEO recebe 54.080 dólares por ano desde 2019 — menos do que a presidente e directora de operações Gwynne Shotwell, que auferiu 1,08 milhões de dólares em 2025, e do que o directorfinanceiro Bret Johnsen, com 825 mil dólares. A fortuna pessoal de Musk, avaliada pela Forbes em mais de 800 mil milhões de dólares, torna o salário uma irrelevância contabilística.
A estrutura accionista garante a Musk o controlo efectivo da empresa: detém 85,1% dos direitos de voto, combinando uma participação de 12,3% em acções ordinárias com 93,6% em acções de categoria B, que valem dez votos cada.
“Para Musk, nem o céu será o limite”
A SpaceX descreve a sua missão com a ambição que caracteriza tudo o que Musktoca: “construir os sistemas e as tecnologias necessárias para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do Universo e estender a luz da consciência às estrelas.” O prospectoapresenta Musk como “um dos grandes visionários da nossa geração” — uma afirmação que os investidores terão agora de avaliar com o rigor que os mercados exigem.
Na mesma semana em que um tribunal recusou os seus argumentos no processo contra a OpenAI, Musk prepara a operação financeira mais ambiciosa da história. Se os números do prospecto estiverem certos — e se os investidores acreditarem neles —, a SpaceX pode fazer de Musk o primeiro trilionário do mundo.