O Estado angolano, através da sua empresa diamantífera estatal Endiama, apresentou uma oferta formal para adquirir a participação maioritária da Anglo American na De Beers, num movimento que reforça as ambições de Angola em tornar-se um actor central no mercado global de diamantes
O Estado angolano, através da sua empresa diamantífera estatal Endiama, apresentou uma oferta formal para adquirir a participação maioritária da Anglo American na De Beers. A iniciativa surge após a decisão da Anglo American de vender a sua fatia de 85% na empresa, no âmbito de um processo de reestruturação.
Em Setembro, Angola manifestou interesse em comprar uma participação minoritária estratégica, propondo a criação de um consórcio pan-africano com outros produtores de diamantes, como o Botsuana. Já em Outubro, a Endiama elevou a sua proposta, passando a visar a totalidade da participação da Anglo American, intensificando assim a disputa pelo controlo da maior empresa de diamantes do mundo.
O país pretende garantir o acesso à tecnologia e à rede de marketing da De Beers — factores essenciais para modernizar a sua indústria diamantífera — e procura uma parceria mais equilibrada e estratégica, reforçando o seu papel no mercado global de diamantes.
A recente descoberta de um novo campo de kimberlito em Angola, fruto de uma joint-venture com a De Beers, reforça a confiança no potencial diamantífero nacional.
A oferta angolana coloca o país em concorrência direta com o Botsuana, que detém 15% da De Beers e também ambiciona aumentar a sua participação. Vários grupos e investidores, incluindo antigos executivos da De Beers, estão igualmente interessados na aquisição.
O presidente do conselho de administração da Endiama, José Manuel Ganga Júnior, afirmou ter apresentado uma “proposta concreta e bem definida” para comprar a participação de 85% da Anglo American na De Beers.
Em entrevista à Bloomberg, Ganga Júnior adiantou que, após a proposta, seguir-se-ão “acções subsequentes”, sem detalhar o processo por motivos de confidencialidade.
Segundo a Bloomberg, a oferta da Endiama reforça as ambições de Angola no sector diamantífero. O Ministério dos Recursos Naturais, Petróleo e Gás, liderado por Diamantino Pedro Azevedo, já havia anunciado em Setembro a intenção de adquirir uma participação “estratégica” na De Beers, com o objectivo de promover uma parceria com o Botsuana.
A Anglo American, cotada na Bolsa de Londres, pretende alienar a sua participação como parte de um processo de reestruturação iniciado há 17 meses.
Entre os interessados encontram-se grupos de investidores liderados pelos ex-executivos da De Beers, Gareth Penny e Bruce Cleaver, que entraram na disputa após o lançamento formal do processo de venda, em Junho.
A Endiama espera que Angola “chegue a um entendimento” com o Botsuana, declarou Ganga Júnior, sem confirmar se já houve contactos. A Bloomberg sublinha que, embora Angola esteja a licitar a totalidade da participação da Anglo American, o desfecho é ainda incerto.
“A De Beers é uma empresa tão grande que acreditamos haver espaço para vários parceiros”, referiu o líder da Endiama. No entanto, o Botsuana, enquanto accionista, mantém o direito de igualar quaisquer ofertas externas.
O Botsuana, onde a De Beers concentra boa parte da sua actividade extractiva, também pretende aumentar a sua participação de 15% para uma posição maioritária. O presidente Duma Boko considerou este esforço “uma questão de soberania económica”.
Angola é actualmente o maior produtor africano de diamantes em valor, tendo superado o Botsuana pela primeira vez em duas décadas, segundo o mais recente relatório do Processo de Kimberley, o sistema internacional de certificação do comércio de diamantes.
De acordo com uma análise divulgada em Setembro pela consultora Oxford Economics, Angola deverá manter este ano a liderança africana na produção diamantífera, à frente do Botsuana.