Opinião

“O efeito Dominó: Quem ganha quando a cidade pára”

Pelo terceiro dia consecutivo, Angola assiste a uma paralisia urbana que se transformou numa profunda crise de ordem pública, especialmente em Luanda.

O silêncio dos candongueiros e as portas fechadas do comércio, que hoje cumprem cerca de 72 horas, já não são apenas o cenário de uma cidade em pausa; são o resultado visível de uma fractura no nosso sistema urbano.

Com o rescaldo da destruição ainda presente, é imperativo analisar, para além do choque, os custos invisíveis e as lições amargas que estes acontecimentos nos deixam. Não se trata de encontrar culpados, mas de compreender a mecânica de uma crise que expôs as nossas vulnerabilidades colectivas.

Luanda, uma cidade com mais de 8 milhões de habitantes e motor de grande parte da actividade económica nacional, permanece largamente paralisada. Bancos, repartições públicas, restaurantes, mercados, prestadores de serviços e as lojas estão inoperantes.

Mesmo as escolas, embora muitas já estivessem em período de preparação para o novo ano lectivo ou de renovação de matrículas, viram a sua actividade administrativa interrompida, e as creches que tentaram funcionar sentiram o impacto da ausência de transporte para trabalhadores e famílias.

O impacto real não se mede apenas pelo que se vê. Ele estende-se aos números da economia. O primeiro, e mais devastador, é o colapso do sistema circulatório da nossa sociedade: o sector informal. Para centenas de milhares de luandenses, o movimento é sinónimo de sobrevivência. A paralisia abrupta da cadeia de mobilidade significa que o rendimento diário de inúmeras famílias desapareceu.

Três dias de paralisia, para muitos, são três dias sem a capacidade de garantir a refeição da família ou mesmo o dele (falo dos chamados meninos de rua). É um choque económico directo, de uma brutalidade imensa. Simultaneamente, o motor da economia formal engasgou, gerando uma cascata de efeitos negativos que a população já começa a sentir. A dificuldade na compra de bens essenciais é notória.

Com as cadeias de abastecimento cortadas e a produção interrompida, assistimos a um cenário económico perigoso: a procura por produtos básicos mantém-se ou aumenta pelo pânico, enquanto a oferta se reduz drasticamente. Esta dinâmica é o combustível perfeito para a especulação de preços e para o surgimento de uma nova onda de inflação, que penalizará ainda mais o bolso dos cidadãos.

A médio prazo, a destruição de negócios e a quebra de confiança poderão levar ao aumento do desemprego, à medida que as empresas reavaliam os seus investimentos e a sua capacidade de operar.

Este prejuízo privado gera uma ferida dupla e imediata nas finanças públicas. Ao contrário do que se possa pensar, o Estado é uma das grandes vítimas. Por um lado, a receita fiscal evapora-se: sem vendas não há cobrança de IVA, e as perdas das empresas irão corroer a base do futuro Imposto Industrial.

Por outro lado, o Estado incorre em custos adicionais massivos e não orçamentados. O reforço da segurança e a inevitável reconstrução do património público danificado representam o que em finanças públicas se designa como um “choque exógeno sobre a despesa primária”. Menos dinheiro a entrar e muito mais a ter de sair.

É legítimo reivindicar. É aceitável exigir melhores condições. Mas nada justifica a destruição do que é de todos. A desordem destrói não apenas lojas, muros, passeios, viaturas, semáforos entre outros, mas também o tecido social que nos une. Os actos de violência e pilhagem não constroem justiça social destroem os alicerces do progresso.

A confiança no próximo e na capacidade das instituições de garantir a ordem são activos intangíveis essenciais. Uma vez perdidos, a sua reconstrução é lenta e dolorosa. Para se ter uma dimensão do custo da paralisação, podemos olhar para os grandes “apagões” energéticos na Europa. Quando, por algumas horas, um apagão atingiu partes de Portugal ou Espanha, as perdas económicas foram calculadas em centenas de milhões de euros.

Porque a energia, tal como a mobilidade em Luanda, é o sistema operativo da economia (em economia chamamos de infra-estrutura critica ou plataforma funcional da produtividade agregada). O que vivemos não foi um apagão eléctrico, mas um apagão de mobilidade com consequências igualmente sistémicas.

A comparação ajuda a focar na questão central: a nossa extrema dependência de um sistema frágil, sem redundâncias ou
alternativas viáveis.

O que fica desta crise é a demonstração inequívoca da nossa interdependência. A insatisfação de um sector pode desencadear um efeito dominó que prejudica a todos. E isto leva-nos à pergunta fundamental: quem sai a ganhar com isto?

Certamente, não é o povo. No final, quem mais sofre é o cidadão comum: o pai de família que não conseguiu trabalhar, a mãe que não levou o filho à creche, o comerciante que perdeu o seu sustento, este com efeito no seu capital humano. É crucial que cada cidadão compreenda que a estabilidade é um bem colectivo. Preservá-la é dever de todos autoridades, operadores económicos e, sobretudo, da população. Luanda parou por três dias. E o país já o sente.

A verdadeira reconstrução não será apenas a das lojas e dos semáforos, mas a da confiança e do nosso contrato social. É essa a tarefa mais urgente e o maior desafio que temos pela frente.

Por: Bruno Costa

Relacionadas

Ministro destaca papel da banca no financiamento do sector de

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo,

SME inicia emissão de passaporte electrónico no MIREMPET

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Pedro

Shell manifesta interesse em reforçar parceria com Angola

O Diretor-Geral da Shell, Alioune Sourang, foi recebido em 4