As grandes petrolíferas internacionais funcionam, há muito, como verdadeiras empresas informais de avaliação de risco geopolítico — uma competência que está agora a ser posta à prova pelo novo enquadramento para a exploração de petróleo na Venezuela, promovido pela administração do Presidente norte-americano, Donald Trump.
Prosperar no sector petrolífero exige coragem: os fracassos podem ser tão espectaculares como os sucessos, e as moléculas de petróleo encontram-se onde a geologia as colocou, o que significa que a engenharia nem sempre é o maior obstáculo — por vezes, é necessária uma navegação politicamente sofisticada para conseguir extraí-las. O presidente executivo da francesa TotalEnergies, Patrick Pouyanné, terá afirmado este ano numa entrevista que considera a sua empresa “não particularmente avessa ao risco”. Ainda assim, Pouyanné sublinhou que não investe capital em locais que não ofereçam “um enquadramento económico e um ecossistema” em que a empresa se sinta confortável — uma descrição que, segundo disse, já é aplicável ao Iraque, mas ainda não à Venezuela.
Ao longo da última década, a generalidade das grandes petrolíferas manteve o crescimento sob controlo, reforçou a aposta nos mercados onde já tinha presença consolidada e procurou devolver mais capital aos accionistas — uma postura bem distinta do espírito aventureiro que outrora caracterizou o sector. Actualmente, porém, estas empresas encontram-se sob pressão para considerar novos projectos que impliquem maior exposição ao risco, em grande parte devido à instabilidade geopolítica global. No caso específico do novo regime de exploração petrolífera promovido pela administração Trump na Venezuela, “o risco real não é tecnológico, nem geológico”, afirmou Vincent Piazza, analista sénior de energia da Bloomberg Intelligence. “É exclusivamente político.”
O ambiente vivido em Caracas na última semana sugere que os responsáveis do sector petrolífero continuam altamente resistentes ao risco político. Segundo uma fonte da indústria que recentemente regressou da capital venezuelana, a cidade viveu um clima de celebração, com o secretário da Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, a liderar uma delegação de responsáveis de empresas energéticas norte-americanas e europeias, exibindo um novo acordo que prevê a entrada do Pentágono como accionista parcial numa das maiores reservas petrolíferas do mundo. Contudo, o verdadeiro entusiasmo em torno de acordos liderados pelo sector privado, envolvendo empresas como a Chevron e a GE Vernova, interessadas em expandir as suas operações no país, foi contrabalançado por “muita apreensão” em relação ao acordo negociado pela administração Trump, segundo a mesma fonte.
Segundo relatos recolhidos junto de responsáveis do sector, muitos executivos petrolíferos continuam confusos quanto ao funcionamento prático do novo acordo, ao papel exacto que o governo norte-americano irá desempenhar, e se este servirá efectivamente para lhes abrir novas portas de negócio — ou se, pelo contrário, a operação acabará por ser gerida quase exclusivamente por e para o magnata petrolífero venezuelano e aliado de Trump, Alejandro Betancourt López.
Segundo analistas do sector, faz sentido manter uma postura cautelosa quando um erro de avaliação pode custar dezenas de milhares de milhões de dólares. Caso os líderes políticos, tanto em Washington como em Caracas, esperem que mais empresas avancem antes de existir um “ecossistema” mais estável — para usar a expressão de Pouyanné —, é provável que fiquem desiludidos. “Acho que é uma decisão sensata ficar de fora para já”, resumiu Vincent Piazza. “Esta administração só tem mais dois anos. O que acontecerá depois?”