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Dona da Glovo aceita oferta de compra da Uber por 12.770 milhões de euros

A administração da Delivery Hero, a empresa alemã dona da Glovo, aprovou formalmente a oferta pública de aquisição lançada pela Uber e recomenda aos accionistas que a aceitem até 5 de Novembro, prazo-limite do período de aceitação da oferta. A fusão entre as duas plataformas vai alargar a presença global da Uber a um total de 99 mercados, consolidando-a como o maior operador mundial de mobilidade e distribuição ao domicílio.

A Uber está a oferecer 41,50 euros em dinheiro por cada acção da Delivery Hero não detida ainda pela própria empresa norte-americana, um valor que representa um prémio de aproximadamente 108% face à cotação de fecho da Delivery Hero antes de a possibilidade de aquisição se ter tornado pública, a 8 de Maio, e um prémio de cerca de 127% face à média ponderada por volume das acções nos três meses anteriores a essa data. Ao câmbio actual, os 41,50 euros por acção traduzem-se num valor de capital próprio de aproximadamente 14,8 mil milhões de dólares para a totalidade da empresa — ou 13,7 mil milhões de dólares, já ajustado às compras de participação que a Uber tinha efectuado anteriormente na Delivery Hero.

O documento formal da oferta foi publicado pela Uber a 27 de Agosto, depois de ter recebido a aprovação da BaFin, a autoridade alemã de supervisão financeira, dando início a um período de aceitação que decorre até às 24h00 (hora de Frankfurt) de 5 de Novembro de 2026. Os accionistas da Delivery Hero que queiram aceitar a oferta têm de o fazer através dos respectivos bancos custodiantes, que podem impor prazos internos anteriores a essa data-limite oficial. A oferta está sujeita a um limiar mínimo de aceitação de 50% mais uma acção do capital social da Delivery Hero, excluindo acções próprias — limiar para o qual contam também as acções já detidas pela Uber.

Um negócio que já vem de longe

O anúncio formal desta oferta, feito a 16 de Julho, foi o culminar de um processo negocial que se arrastou durante vários meses. A Delivery Hero já tinha revelado, no final de Maio, uma primeira proposta de aquisição da Uber, que avaliava então a empresa alemã em cerca de 10 mil milhões de euros — equivalente a 33 euros por acção —, valor que a administração da Delivery Hero considerou insuficiente na altura. Nas semanas seguintes, as acções da empresa chegaram a negociar perto dos 36 euros, com os investidores a anteciparem uma proposta melhorada por parte da Uber, que já detinha uma participação económica de cerca de 25% na Delivery Hero.

A proposta final, de 41,50 euros por acção, representou assim um reforço significativo face à oferta inicial. A Prosus, accionista histórico da Delivery Hero, comprometeu-se de forma irrevogável a entregar a totalidade da sua participação — cerca de 17% do capital — à oferta da Uber, o que deverá elevar a participação económica total da empresa norte-americana para cerca de 53% da Delivery Hero, mesmo antes de contabilizar a adesão de outros accionistas.

Uma fusão global, com uma condição alemã

A operação junta duas plataformas descritas pelas próprias empresas como altamente complementares nas áreas de mobilidade, distribuição de comida e “quick commerce” (entrega rápida de pequenas encomendas), abrangendo em conjunto 99 países e um volume bruto de mercadorias combinado, numa base pro-forma, de 236 mil milhões de dólares em 2025. Segundo a Delivery Hero, a fusão deverá acelerar a inovação e ampliar a gama, o valor e a conveniência dos serviços prestados a clientes, comerciantes e estafetas.

A Uber assumiu ainda compromissos específicos junto dos trabalhadores da Delivery Hero e da própria Alemanha, incluindo a manutenção da sede da empresa em Berlim pelo menos até 2029, e o esforço para investir cerca de 2 mil milhões de euros no país ao longo dos próximos cinco anos, para desenvolver a força de trabalho local e reforçar laços com a indústria automóvel alemã. A empresa norte-americana comprometeu-se ainda a não celebrar um acordo de domínio e transferência de lucros com a Delivery Hero durante um período de três anos após a conclusão do negócio.

Em paralelo, a Delivery Hero acordou vender separadamente as suas operações em 14 mercados à SSW Partners, por um valor aproximado de 1,6 mil milhões de dólares — uma cisão que exclui esses mercados específicos do perímetro final da fusão com a Uber.

O peso da Glovo e a resposta do mercado

Fundada em 2011, a Delivery Hero opera actualmente em mais de 60 mercados através de várias marcas, entre as quais a Glovo, em Espanha, a foodpanda, a Talabat e a PedidosYa — sendo a Glovo apontada por analistas como uma das marcas mais visadas por esta operação, dada a sua relevância nos mercados europeu e latino-americano. Caso o negócio se concretize integralmente, permitirá à Uber consolidar uma posição dominante no sector da distribuição ao domicílio, à frente de concorrentes directos como a Just Eat Takeaway, a DoorDash ou a chinesa Meituan.

O mercado reagiu de forma moderada ao anúncio: as acções da Delivery Hero, que já tinham acumulado uma valorização superior a 60% ao longo do ano em antecipação a este desfecho, recuaram ligeiramente na sessão seguinte ao anúncio inicial de Julho, negociando pouco abaixo dos 38 euros — um valor ainda claramente inferior aos 41,50 euros oferecidos pela Uber, reflectindo a incerteza normal do mercado quanto à conclusão efectiva de operações desta dimensão. A própria Delivery Hero reviu em alta as suas perspectivas para 2026 pouco antes da publicação do documento formal da oferta, citando o reforço da procura e a melhoria da rentabilidade do negócio.

Financiamento e calendário

A Uber vai financiar a aquisição recorrendo a fundos próprios em caixa e a novo financiamento por dívida, tendo já contratado uma linha de crédito-ponte de cerca de 14,2 mil milhões de euros para o efeito. A operação está estruturada de forma a manter a robusta notação de crédito de grau de investimento da Uber, com uma alavancagem bruta que deverá manter-se abaixo de 2 vezes o EBITDA ajustado. Segundo a própria Uber, a transacção deverá ser positiva para os seus resultados por acção já a partir da conclusão do negócio, com um acréscimo percentual de um dígito elevado até ao terceiro ano após o fecho.

Apesar de o período de aceitação terminar a 5 de Novembro deste ano, a liquidação da oferta — incluindo o pagamento efectivo aos accionistas que a aceitarem — só está prevista para a segunda metade de 2027, reflectindo o longo processo regulatório e de aprovações de concentração que ainda falta percorrer antes da conclusão definitiva desta que se perfila como uma das maiores fusões da história do sector global de distribuição e mobilidade urbana.

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