Desporto

Carlos Fernandes volta a vestir as cores de Angola, mas desta vez sem luvas

Dezasseis anos depois de ter defendido a baliza angolana naquela tarde inesquecível de 2010, no Estádio 11 de Novembro, Carlos Fernandes está de volta à Selecção Nacional. Mas desta vez chega sem luvas: aos 46 anos, o antigo guarda-redes junta-se à equipa técnica comandada pelo senegalês Aliou Cissé, assumindo o cargo de treinador de guarda-redes dos Palancas Negras.

O nome de Carlos Fernandes está indissociavelmente ligado a um dos jogos mais comentados da história das selecções africanas em fases finais da CAN. A 10 de Janeiro de 2010, na estreia de Angola na Taça das Nações Africanas que o país organizava em casa, os Palancas Negras chegaram a vencer o Mali por 4-0, apenas para verem o adversário protagonizar uma reviravolta notável na segunda parte e empatar a partida 4-4 — um dos resultados mais surpreendentes da história da competição. Apesar do desfecho, foi Angola quem seguiu em frente na fase de grupos daquela edição do torneio, disputada maioritariamente no Estádio 11 de Novembro, em Luanda.

Nascido em Kinshasa, na então Zaire, a 8 de Dezembro de 1979, Carlos Alberto Fernandes representou a Selecção Angolana entre 2009 e 2012, depois de uma carreira de clube que o levou por Portugal — com destaque para duas passagens pelo Boavista —, além de experiências na Roménia, pelo Steaua Bucareste, no Irão, pelo Foolad, e na Turquia, pelo Bucaspor. Encerrou a carreira de jogador em 2016, depois de duas épocas ao serviço do Recreativo da Caála, em Angola, altura em que chegou a recusar propostas de clubes da Primeira Liga portuguesa por razões contratuais, optando por pendurar as luvas.

Um regresso pelas mãos de Cissé

A novidade do regresso à Selecção foi partilhada pelo próprio Carlos Fernandes nas redes sociais, num texto em que misturou entusiasmo e gratidão. O antigo guarda-redes disse sentir orgulho e responsabilidade por ter aceite o convite de Aliou Cissé para voltar a fazer parte do grupo da Selecção, sublinhando que Angola ocupa um lugar especial na sua trajectória — o país onde atravessou fases marcantes enquanto atleta, incluindo o privilégio de representar a camisola nacional em campo, uma experiência que, segundo as suas próprias palavras, lhe trouxe muita felicidade.

Fernandes falou ainda do sentido simbólico deste retorno, descrevendo-o como uma forma de dar continuidade a uma história que começou ainda como jogador, agora escrita de outra maneira, fora das quatro linhas. Nas suas palavras finais, deixou claro o espírito com que chega a este novo desafio: “a mesma paixão de sempre, disposição total para o trabalho e um objectivo maior — ajudar Angola a alcançar as metas a que se propõe”.

Uma peça do projecto de reconstrução do futebol angolano

Este regresso surge integrado num momento de reorganização mais ampla da Selecção Nacional de Angola, com Aliou Cissé à frente do projecto desde a sua nomeação este ano. O técnico senegalês, de 50 anos, é uma das figuras mais respeitadas do futebol africano recente: enquanto capitão da Selecção do Senegal, chegou à final da CAN de 2002, e mais tarde, já como seleccionador, tornou-se o primeiro treinador a conquistar o título continental pelo país, em 2022, depois de ter alcançado também a final de 2019. Antes de assumir a Selecção angolana, Cissé liderou a Líbia, e assinou pelos Palancas Negras um contrato de longa duração, com o horizonte fixado no Mundial de 2030.

Para Carlos Fernandes, o desafio agora é transformar os anos de vivência dentro de campo — incluindo momentos de forte pressão competitiva, como aquele empate histórico com o Mali — em ensinamento para os guarda-redes que hoje defendem as cores nacionais. É um papel que junta a experiência de quem já viveu, na pele, os momentos de maior exigência ao serviço da Selecção, ao trabalho técnico especializado que a moderna preparação de guarda-redes exige nas selecções nacionais de topo do continente africano.

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